Efeito da guerra na Ucrânia. Guterres deixa novo aviso para "escassez global de alimentos"

por Carla Quirino - RTP
Comunicação de António Guterres durante a reunião "Global Food Security Call to Action" de ministros das Relações Exteriores na sede das Nações Unidas em Nova Iorque. Junto está o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken. Eduardo Muñoz - Reuters

O secretário-geral das Nações Unidas reiterou, na quarta-feira, que a invasão russa da Ucrânia pode dar lugar a vários anos de crise alimentar mundial. Os países pobres serão os primeiros a sofrer o impacto do aumento dos preços. António Guterres alerta para cerca de 20 milhões de toneladas de cereais bloqueados em solo ucraniano.

O conflito - combinado com os efeitos das mudanças climáticas e da pandemia da covid-19 - "ameaça levar dezenas de milhões de pessoas à insegurança alimentar, seguida de desnutrição e fome", alertou António Guterres durante a reunião Global Food Security Call to Action, que juntou ministros dos Negócios Estrangeiros em Nova Iorque.
"Há comida suficiente no nosso mundo agora se agirmos juntos. Mas, a menos que resolvamos esse problema hoje, enfrentaremos o espectro da escassez global de alimentos nos próximos meses", acrescentou o secretário-geral da ONU.Segurança alimentar comprometida
O desenrolar da invasão russa da Ucrânia acabou por travar as exportações de cereais, que antes partiam dos portos do país vizinho da Rússia para quase todo o mundo - Kiev exportava grandes quantidades de óleo de cozinha e cereais como milho e trigo.

Esta diminuição da oferta global causou um aumento generalizado dos preços de géneros alimentares e fez com que o custo das alternativas disparasse. De acordo com a ONU, os preços globais dos alimentos sofreram já um acréscimo de quase 30 por cento desde o início da guerra, no final de fevereiro, relativamente ao mesmo período do ano passado.António Guterres sublinha que a única solução eficaz para a crise passa por reintegrar no mercado global a produção de alimentos da Ucrânia, bem como fertilizantes produzidos pela Rússia e pela Bielorrússia.


"As complexas implicações de segurança, económicas e financeiras exigem boa vontade de todos os lados", observou o secretário-geral da ONU.

Guterres afirmou estar a desenvolver um "intenso contacto" com Rússia, Ucrânia, EUA e UE, tendo em vista restaurar as exportações de alimentos para níveis próximos do momento antes da invasão.

Além desta comunicação de António Guterres, o dia de quarta-feira ficou marcado pelo anúncio de um novo financiamento do Banco Mundial. São disponibilizados cerca de 12 mil milhões de dólares (11,43 mil milhões de euros) para projetos que ajudem a travar a insegurança alimentar.

Antes de ser assolada pela guerra, a Ucrânia era considerada o celeiro da Europa. Os solos ucranianos e russos produziam 30 por cento da oferta mundial. Os dois países exportavam cerca de 4,5 milhões de toneladas de produtos agrícolas por mês.

O estrangulamento da exportação das colheitas causado pelo conflito armado está a reter 20 milhões de toneladas de cereais ucranianos, segundo a ONU. Se esta produção for libertada, poderá aliviar a pressão nos mercados mundiais.
Escolha de Putin
Um conflito que se antevê prolongado tem assim impacto direto na cadeia de abastecimento alimentar, o que está desencadear uma multiplicação de acusações dirigidas ao presidente russo, Vladimir Putin.

A ministra alemã dos Negócios Estrangeiros, Annalena Baerbock, responsabiliza Moscovo pela degradação da segurança alimentar global.

"A Rússia lançou uma guerra sobre os produtos cerealíferos, desencadeando uma crise global de alimentos", disse a governante.  "Está a provocar um momento em que milhões de pessoas já estão a ser ameaçadas pela fome, principalmente no Médio Oriente e em África", acrescentou.

Por sua vez, o secretário de Estado dos EUA associa-se às críticas contra a Rússia e afirma que o mundo enfrenta a "maior crise global de segurança alimentar do nosso tempo". Antony Blinken diz ainda que este quadro foi exacerbado pelo facto de Putin ter "escolhido fazer guerra".
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