Crise climática. Países mais pobres deveriam receber 300 mil milhões anuais do FMI, defende Nobel da Economia

por Rachel Mestre Mesquita - RTP
"Tem havido muita seca nos últimos anos", contava em agosto Maria Rodriguez, de 30 anos, cuja família composta por seis filhos sobrevive com menos de dois dólares por dia em El Aguacate, Guatemala Pilar Olivares - Reuters

Os países em desenvolvimento deveriam receber anualmente uma ajuda monetária do Fundo Monetário Internacional (FMI), num valor aproximado de 284 mil milhões de euros, para financiar a sua luta contra a crise climática. O conselho é de Joseph E. Stiglitz, laureado com o Prémio Nobel da Economia, em declarações ao jornal britânico The Guardian, durante a reunião anual do FMI em Marraquexe.

Na luta desigual contra as alterações climáticas, os países não estão todos alinhados nem têm as mesmas ferramentas para fazer face aos efeitos da crise climática e lutar em direção a uma transição ecológica.

Segundo o economista Joseph Stiglitz, os países em desenvolvimento precisam de um pacote de subvenções e subsídios destinados a promover o crescimento verde e o emprego, semelhante à Lei de Redução da Inflação dos EUA. Sem o qual, explica, os países mais pobres não conseguirão aderir à batalha contra o aquecimento global. E sem eles será impossível vencê-la."À medida que a escalada das alterações climáticas nos impressiona cada vez mais, vamos precisar de coisas mais ousadas", afirmou o Nobel da Economia.

Joseph Stiglitz explica que deveria ser criado um pacote de 300 mil milhões de dólares, cerca de 284 mil milhões de euros, financiado pelos países ricos, através de alocações de Direitos de Saque Especiais (DSE) pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) com o objetivo de financiar uma transição ecológica a nível global.

Em declarações ao Guardian, o economista norte-americano reconheceu que perante o cenário de impasse que se vive na política dos EUA seria impossível aprovar atualmente o seu plano no Congresso. No entanto, não o impede de continuar a fazer campanha para o promover. "Quando chegar o momento em que estivermos a fritar e alguém disser como é que vamos sair da frigideira, esta (alocação anual de DSE) é uma forma de o fazer", afirmou.


Stiglitz acrescentou que, "a não ser que os países em desenvolvimento e os mercados emergentes reduzam as suas emissões, independentemente das piedades que façamos nos Estados Unidos e na Europa, teremos o aquecimento global. A retórica é sobre fazer alguma coisa em relação às alterações climáticas e depois, em vez de se juntarem a nós, alienam-nos".

Na reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, que decorre esta semana na capital marroquina, um dos principais temas da agenda é o financiamento dos países em desenvolvimento para conseguirem descarbonizar as suas economias e fazer face aos efeitos do aquecimento global.

Durante o encontro, o economista, antigo diretor do Banco Mundial, explicou ao jornal britânico que os Direitos de Saque Especiais (DSE) – um ativo de reserva internacional que pode ser utilizado como linha de crédito - alocados aos países pobres para investir em projetos ecológicos “não seria inflacionista, mas seria transformador”.

Joseph Stiglitz avançou que a União Europeia estava a planear conceber a sua própria versão da Lei de Redução da Inflação, em menor escala, mas defendeu que era necessário alargar a medida aos países em desenvolvimento.

Sobre a medida prevista de dotar o Banco Mundial de mais capital para emprestar a projetos ecológicos, o economista considerou importante mas insuficiente para fazer face ao desafio global que obriga a uma abordagem mais ambiciosa.
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