Elon Musk desafia autoridades e reabre fábrica da Tesla com apoio de Donald Trump

O controverso fundador da Tesla, desafiou as autoridades do distrito de Alameda, na Califórnia, EUA, e comunicou na rede Twitter a reabertura da sua fábrica de automóveis elétricos, em Fremont.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Empregados fabris da Tesla em Fremont regressaram ao trabalho dia 11 de maio de 2020, em violação das regras de segurança sanitárias impostas pelo Condado de Alameda devido à pandemia de Covid-19. Reuters

O anúncio culminou uma série de tweets sobre o assunto publicados nos últimos dias, nos quais Elon Musk acusou as autoridades do distrito de serem "irracionais e fora da realidade", quanto às regras de combate à pandemia de Covid-19 impostas já em meados de março.

"A Tesla começa hoje a laborar, contra as regras impostas pelo distrito de Alameda", escreveu o multimilionário. "Estarei na linha de produção com os outros todos. Se alguém for preso, peço que seja apenas eu", acrescentou. 


O distrito prometeu avaliar o problema da Tesla Motors "por etapas", tal como fez com outras empresas que desafiaram as ordens de confinamento. Uma porta-voz referiu que têm estado em contacto com a Tesla quanto aos protocolos de segurança sanitária e que aguardam desenvolvimentos. A legislação californiana prevê multas de até mil dólares por dia ou 90 dias de cadeia para as produções que violarem as ordens sanitárias.

A mesma pessoa desvalorizou a possibilidade de prisão e da aplicação de multas. Até agora, nenhuma foi aplicada na cidade de 240 mil habitantes, e todas as divergências foram sanadas "através do diálogo".

Alameda registou até domingo 2.101 casos de Covid-19 e 71 mortes.

A Tesla Motors em Fremont emprega 10 mil pessoas e encerrou a 23 de março. Segunda-feira, dia 11 de maio, o parque de automóveis da empresa estava quase repleto, dando ideia de que a fábrica voltou a laborar ainda antes do anúncio de Musk.

"Estamos satisfeitos por regressar ao trabalho e implementamos planos detalhados para vos manter em segurança no vosso regresso", afirmou a administração num e-mail enviado a todos os empregados, de acordo com a agência Reuters.

Entre as medidas de proteção implementadas, incluem-se limpezas mais frequentes, distanciamento social obrigatório, fornecimento de máscaras, de viseiras e de luvas, instalação de barreiras entre trabalhadores onde necessário e controlos de temperatura em locais determinados.
Deslocalização
Apesar do alegado diálogo com as autoridades locais, a Tesla fez queixa contra o distrito de Alameda, no sábado, por violação das regras federais e da Califórnia quanto às empresas, que determinam que as indústrias consideradas "essenciais" são autorizadas a funcionar.

O grupo alega que se inclui na definição de "essencial" porque instala painéis solares e terminais de carga para carros elétricos.

O empresário não se ficou pelo processo judicial. Anunciou que vai transferir a fábrica para outro Estado e poderá mesmo "não manter qualquer produção em Fremont".


"Francamente, é a gota de água que faz transbordar o copo", escreveu no sábado Musk, que já em fevereiro tinha demonstrado estar pouco satisfeito com a sua situação em Fremont, tendo pedido opiniões no Twitter sobre uma eventual mudança para o Texas.

"Tesla vai imediatamente deslocar a sua sede e os seus futuros projetos para o Texas/Nevada. E mantermos ou não uma atividade de manufatura em Fremont vai depender da forma como formos tratados", ameaçou Musk.A reabertura da fábrica da Tesla Motors em Fremont, a única da marca situada nos Estados Unidos, já terá aliás acontecido durante o fim de semana, segundo o The Verge, quando foram terminadas duas centenas de Model Y e Model 3.

Musk fez o anúncio da reabertura segunda-feira de manhã, para daí a umas horas e recebeu apoios de peso.

"Estou de acordo com Elon Musk. É um dos maiores empregadores e construtores da Califórnia", afirmou no mesmo dia o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, na cadeia norte-americana CNBC.

"A Califórnia deveria concentrar-se no que poderá fazer para resolver os problemas de saúde, para poder reabrir rapidamente e em segurança, se não vai perceber que ele mudou a sua produção para outro Estado", recomendou o responsável da Administração Trump para a Economia.
Trump sai em defesa de Musk
Terça-feira, foi a vez de o Presidente se manifestar, em apoio do multimilionário que impôs ao mercado os carros elétricos e tem também investido em foguetes para exploração espacial.


"A Califórnia devia deixar Tesla e @elonmusk abrir a fábrica, JÁ. Pode ser feito Rapidamente e em Segurança!" escreveu Donald Trump na sua página oficial do Twitter.

Musk - que Trump descreveu em janeiro na CNBC como "um dos nossos grandes génios e temos de proteger os nossos génios" - tornou-se assim o mais recente pretexto para o Presidente atacar a Califórnia
, depois de anos de picardias quanto a questões tão variadas como a imigração, as regras de eficiência energética de veículos, financiamentos para comboios de alta velocidade e inúmeras questões ambientais.

O desafio de Musk é ainda sintoma da mais recente discussão pública que domina o país e divide o Presidente e muitos congressistas e senadores, com Estados e cidades da América do Norte a divergirem sobre as formas seguras de reabrir economias, depois do encerramento forçado pela pandemia, que atirou milhões de pessoas para o desemprego.

O empresário é uma das vozes mais críticas do confinamento, imposto para evitar a propagação do vírus que já matou quase 80 mil pessoas nos Estados Unidos e mais de 280 mil no mundo. O multimilionário é mesmo acusado de ser um dos maiores difusores de desinformação sobre a pandemia, ao transmitir informações alegadamente falsas sobre a doença aos seus mais de 34 milhões de seguidores na rede Twitter.

Musk segue ainda aparentemente um movimento político residual que denuncia as medidas sanitárias públicas como opressão governamental, quando classifica como "fascistas" as ordens de "fiquem em casa" e ao tweetar mensagens como "LIBERTEM A AMERICA JÁ".
California vs Alameda
O que mais irrita Musk é que Fremont fica numa das regiões mais restritivas da Califórnia nesta pandemia.

Questionado sobre o assunto numa conferência de imprensa, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, tentou por água na fervura e lembrou que o Estado deverá começar em breve a aligeirar o confinamento.

A sete de maio último, Newsom anunciou novas regras que permitiram a reabertura de algumas manufaturas logo no dia seguinte. "Acredito, penso e espero que sejam autorizados a retomar a produção no início da próxima semana", referiu o governador da Califórnia.

Newsom confirmou que as atividades manufatureiras do Estado, com as devidas modificações, já não estão sob restrições e revelou que a decisão californiana para reabrir as fábricas resultou em grande parte de uma conversa com Musk há alguns dias, durante a qual o fundador da Tesla expôs as suas preocupações.

Ao reconhecer que não sabia da reabertura da Tesla Motors em Fremont, o governador disse confiar que "podermos trabalhar a nível dos distritos". "Esperamos manter durante muitas, muitas décadas, as relações com a Tesla", acrescentou Newsom.

Só que, caso sejam mais restritivas, as regras locais sobrepõem-se às estatais e muitos dos distritos californianos mais povoados optaram por manter um confinamento rigoroso até finais de maio.

Em todo o país, a maioria dos fabricantes automóveis, planeiam reabrir as suas fábricas já na próxima semana, liderados pelos Três Grandes de Detroit - Ford, General Motors e Fiat Chrysler.

Um motivo que levou Musk a apontar mais um dedo às autoridades do distrito, que acusa de procederem de forma ilegal e de o prejudicarem deliberadamente.
Corrida à Tesla
As ameaças de Musk levaram muitos californianos a anunciarem a decisão de nunca mais na vida comprarem automóveis Tesla - e há mesmo quem se pergunte a verdadeira razão da pressa de Musk em regressar à produção, uma vez que as vendas de automóveis estão quase paradas.

O distrito de Alameda pode já ir tarde para convencer a Tesla a ficar. Um distrito do Texas não perdeu tempo a convidar Musk a mudar-se para o seu território.

"Li o seu descontentamento com as autoridades californianas", escreveu Richard Cortez, um alto funcionário do distrito texano de Hidalgo, numa carta publicada no Twitter sob a hashtag #WelcomeTesla (#BenvindaTesla).

"Quero que saiba que o distrito de Hidalgo está pronto a receber-vos imediatamente, a si e à Tesla Motors", anunciou Cortez.

"Temos um governador motivado, favorável às empresas", referiu, enquanto lembrava a Musk que já possui no Teaxs um local de lançamento de satélites para outra das suas empresas, a Space X, uma instalação de produção de foguetes, local de teste e espaçoporto perto de Boca Chica, na costa do Golfo dos EUA.

"Tudo o que tem a fazer é escolher um local", afirmou Cortez.

É contudo mais fácil ameaçar com a deslocalização e convidar a faze-la, do que empreende-la.

"Mudar de Fremont deverá demorar entre 12 e 18 meses, pelo menos"
, considerou um analista Dan Ives de Wedbush Securities. "É um jogo de póquer de grandes riscos e Musk acabou de mostrar o jogo. Todos os olhos estão agora voltados para as autoridades locais e da Califórnia". A iniciativa do distrito de Hidalgo é apenas uma na corrida para atrair o empresário e os empregos que cria, por parte de Estados que reabriram as suas economias mais cedo, incentivados pelo Presidente.

Para já, os mercados mantiveram a calma durante a diatribe eletrónica do fim-de-semana e as ações da Tesla Motors mantiveram-se estáveis na Bolsa de Nova Iorque, para além de uma ligeira valorização, de 2,2 por cento, pelas 14h00 GMT.

No primeiro trimestre, a empresa reportou lucros - modestos mas surpreendentes - de 16 milhões de dólares, um aumento de 33 por cento na entrega de veículos e um volume de negócios em alta de 32 por cento, de 5,99 mil milhões de dólares.
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