Eventual corte financeiro dos EUA "poria em causa muito" na ONU

por Lusa

Um eventual corte de financiamento dos Estados Unidos (EUA) às Nações Unidas (ONU) "poria em causa muito do trabalho" da organização, que já enfrenta dificuldades financeiras, avaliou a representante permanente portuguesa, Ana Paula Zacarias.

Num momento em que a ONU enfrenta problemas de liquidez, que levaram a políticas de cortes na sua sede, em Nova Iorque, como a redução do aquecimento central ou congelamento das contratações, paira agora sobre a organização o receio de um eventual corte de financiamento por parte de Washington, um cenário que poderá ganhar mais força em caso de vitória de Donald Trump nas presidenciais de novembro.

Numa entrevista concedida à Lusa a poucos dias de deixar o cargo de representante permanente de Portugal junto da ONU, Ana Paula Zacarias refletiu sobre o impacto que o corte de verbas norte-americanas poderia ter no funcionamento desta organização com 193 Estados-membros.

"As Nações Unidas têm sempre tido estas dificuldades de financiamento. Obviamente que a saída de um Estado-membro, ou o facto de um Estado-membro da dimensão dos EUA não efetuar os pagamentos das suas contribuições financeiras obrigatórias, põe em causa muito do trabalho das Nações Unidas", frisou.

"Já tivemos essa experiência [de corte de financiamento], por exemplo, ao nível da UNESCO, quando os EUA deixaram de participar. O resto dos países acabou por tentar suprir, na medida do possível, esse `gap` financeiro", recordou.

Em 2017, o ex-presidente - e agora novamente candidato à Casa Branca - Donald Trump causou polémica ao anunciar a retirada dos Estados Unidos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), acusando o órgão de preconceito contra Israel. 

A decisão viria a ser revertida no ano passado, já sob a liderança de Joe Biden, o atual chefe de Estado norte-americano e provável adversário de Trump nas eleições deste ano, que restaurou centenas de milhões de dólares de financiamento da ONU que foram cortados durante o Governo do republicano.

Já este mês, Israel instou Washington a cortar o financiamento às Nações Unidas e às suas instituições na sequência da aprovação, por parte da Assembleia-Geral da ONU, de uma resolução que concedeu mais direitos à Palestina na organização.

Os Estados Unidos continuam a ser o maior doador das Nações Unidas, tendo contribuído com mais de 18 mil milhões de dólares (16,6 mil milhões de euros) em 2022, representando um terço do financiamento do orçamento coletivo do organismo, de acordo com o `think tank` Conselho de Relações Exteriores.

Contudo, os EUA e a China - o segundo maior contribuinte - devem à ONU cerca de 762 milhões de dólares (705 milhões de euros) e 380 milhões de dólares (351,6 milhões de euros), respetivamente, em contribuições fixas para este ano, segundo o porta-voz adjunto da ONU, Farhan Haq, citado pela Bloomberg.

Todos os 193 membros das Nações Unidas são obrigados a fazer pagamentos como condição de adesão, mas são frequentes os atrasos, apesar da lista cada vez maior de crises em todo o mundo que requerem intervenção da organização. 

Em 09 de fevereiro deste ano, o porta-voz do secretário-geral da ONU, António Guterres, anunciava que Portugal havia pago as suas contribuições às Nações Unidas.

Apesar das dificuldades financeiras da organização serem uma constante, Ana Paula Zacarias observou que a Quinta Comissão, que trata de questões administrativas e orçamentais internas das Nações Unidas, tem vindo a encontrar "caminhos consensuais" para enfrentar essa questão.

"Às vezes demora mais, às vezes os financiamentos chegam atrasados e isso põe dificuldades à concretização orçamental das Nações Unidas. Mas creio que aos poucos a situação vai sendo dirimida, porque não há alternativa. Não há alternativa às Nações Unidas", advogou.

"As Nações Unidas são neste momento o único órgão global onde todos os países podem fazer valer a sua voz. E enquanto este órgão existir, há pelo menos uma garantia de que todos são escutados, de que todos podem falar e de que todos são ouvidos. De que há, pelo menos, um estímulo à construção de paz", defendeu.

Para a diplomata, a continuidade das Nações Unidas está diretamente ligada ao "compromisso da humanidade com as gerações futuras", para que possam "continuar a desfrutar do mundo como o conhecemos".

Prestes a deixar o cargo, a diplomata portuguesa observou que os dois anos em que liderou a missão portuguesa junto da ONU foram "muito desafiantes", uma vez que foram desenvolvidos durante duas grandes guerras - na Ucrânia e em Gaza -, além de um conjunto de crises "bastante complexas", desde a crise climática até à crise da dívida em alguns países africanos.

"Tudo isto num clima em (...) que as placas tectónicas da geopolítica foram-se modificando e em que países como Portugal tentaram em simultâneo encontrar um espaço para fazer valer a sua candidatura ao Conselho de Segurança", recordou.

Embora admitindo um clima de "desconfiança" nos corredores da organização e tentativas de alguns países de recuarem na agenda dos Direitos Humanos, a embaixadora considera que Portugal conseguiu ter um papel importante em três grandes pilares da ONU: "segurança e defesa; desenvolvimento sustentável; e direitos e questões sociais".

Ana Paula Zacarias será substituída no cargo por Rui Manuel Vinhas Tavares Gabriel, que iniciará funções em 01 de junho.

 

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