Gronelândia sobre a mesa. Cimeira europeia procura cimentar união perante ambições de Trump

Ao cabo de sucessivas tomadas de posição sob o cunho das ameaças, o presidente dos Estados Unidos anunciou um “quadro” de acordo sobre a Gronelândia e travou na intenção de aplicar novas tarifas a países europeus.

Carlos Santos Neves - RTP /
Yoan Valat - EPA

Os líderes dos 27 países-membros da União Europeia convergem esta quinta-feira para Bruxelas, onde se realiza uma cimeira extraordinária dominada pela erosão das relações com a Administração norte-americana de Donald Trump.

A reunião decorre após o presidente dos Estados Unidos ter anunciado, em dia de discurso no Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, um vago “quadro” de acordo, talhado com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, sobre o futuro da Gronelândia. Também depois de um recuo na intenção de aplicar um novo pacote de tarifas comerciais a um conjunto de países europeus já em fevereiro.O início do Conselho Europeu está marcado para as 19h00 locais (18h00 em Lisboa).

Espera-se que, desta cimeira, saia uma declaração de unidade perante as ambições territoriais do presidente norte-americano, que, nas últimas semanas, se propôs adquirir a Gronelândia, território autónomo sob a soberania da Dinamarca – de forma mais ou menos musculada.
Andrea Neves - correspondente da Antena 1 em Bruxelas

Foi no passado fim de semana que Trump saiu a terreiro para anunciar a aplicação de tarifas – de dez por cento a partir de fevereiro e de 25 por cento em junho – a Dinamarca, Suécia, França, Alemanha, Países Baixos e Finlândia, membros da União Europeia, e a Noruega e Reino Unido. Ameaça entretanto sustida na noite de quarta-feira.

A cimeira europeia vai, ainda assim, por diante e as suas conclusões não deverão distanciar-se daquela que foi a mensagem de António Costa ao convocar os líderes para Bruxelas. O presidente do Conselho Europeu quis então declarar a “disponibilidade para a defesa contra qualquer forma de coação”.O Parlamento Europeu decidiu suspender “por tempo indefinido” os trabalhos sobre o acordo comercial entre a União e os Estados Unidos, na sequência das ameaças do presidente norte-americano sobre a Gronelândia.

No aparente volte-face de quarta-feira, Donald Trump deixou por esclarecer se a suposta solução para o dossier da Gronelândia passará por alguma forma de posse norte-americana deste território, como tem vindo a reivindicar ao abrigo do argumento de acautelar a segurança face a Rússia e China.
O ministro dinamarquês dos Negócios Estrangeiros, Lars Løkke Rasmussen, foi igualmente poupado nas palavras: “Trump diz que põe a guerra comercial em pausa, diz eu não vou atacar a Gronelândia. Estas são mensagens positivas”.

Por sua vez, em declarações à France-Presse, o secretário-geral da NATO admitiu que há ainda “muito trabalho” por diante antes de finalizar um entendimento.

O próprio Trump afirmou na sua plataforma Truth Social que, na sequência de “uma reunião muito produtiva” com Mark Rutte, ficou estabelecido “o quadro de um futuro acordo sobre a Gronelândia e, na realidade, toda a região ártica”.

“Na base deste acordo, não vou impor as tarifas que deveriam entrar em vigor a 1 de fevereiro”, acenou.
“Mil milhões de dólares”
Quem não hesitou em especular, nas últimas horas, sobre um possível preço para a compra da Gronelândia foi o presidente russo. No decurso de uma reunião do Conselho de Segurança da Rússia, Vladimir Putin calculou-o entre os 200 e os mil milhões de dólares.

“A área da Gronelândia é ligeiramente maior” do que a da península do Alasca
, que a Rússia vendeu aos Estados Unidos no século XIX, começou por sublinhar Putin.

“Isto significa que, se compararmos com o custo da compra do Alasca pelos Estados Unidos, o preço da Gronelândia rondaria os 200 a 250 milhões de dólares. Se compararmos com o preço do ouro na altura, este valor seria mais elevado, certamente mais próximo de mil milhões de dólares”, prosseguiu.

“Acredito que os Estados Unidos podem chegar a este valor”
, rematou o presidente russo, em declarações citadas pela agência estatal TASS.

Embora tenha ressalvado que este é um tema que “não diz respeito” à Rússia, Vladimir Putin não deixou de acusar a Dinamarca de ter sempre tratado a Gronelândia de forma “bastante dura, para não dizer cruel”.

c/ agências
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