Economia
Perdas do Facebook ameaçam arrastar sonho Meta de Zuckerberg
O ano de 2022 começou mal para Mark Zuckerberg e para a Meta, a empresa que engloba as Apps Facebook, Instagram, Messenger e WhatsApp, além dos Reality Labs. O futuro é tudo menos risonho para o "gigante" das redes sociais, apesar de alguma expetativa positiva para o segundo semestre do ano.
Entre 2 e 3 de fevereiro a empresa perdeu 232 mil milhões de dólares em valor de mercado, depois de a apresentação dos resultados trimestrais e anuais da Meta em 2021 ter revelado um mar de problemas.A companhia tem sido incapaz de estancar a fuga das receitas publicitárias do Facebook, FB, e os projetos de renovação e apostas noutros produtos têm-se revelado contraproducentes ou fracassos, sorvedouros de milhões de dólares.
Ao mesmo tempo, Bruxelas prepara-se para rever a política de partilha de dados com o parceiro transatlântico e essa perda poderá vir a ditar o encerramento dos serviços do Facebook e do Instagram em solo europeu, por falta de rentabilidade.
Zuckerberg sublinhou que "se não tivermos permissão para transferir os dados entre países e regiões em que operamos, ou se formos impedidos de partilhar os dados entre os nossos produtos e serviços, a capacidade para promover os nossos serviços poderá ser afetada". Leia-se, sem publicidade direcionada, não brincamos.
Desistir deste mercado seria provavelmente fatal para o FB, já que em 2021 o crescimento da companhia estagnou nos Estados Unidos e no Canadá. Além disso e pela primeira vez nos 18 anos da empresa, o número global de utilizadores diários do Facebook desceu, mostrou o relatório.
Ao mesmo tempo, a decisão da Apple, de impedir os anunciantes de seguirem os seus usuários na internet, a ferramenta que tornava tão eficaz o sistema de anúncios iniciado pelo Facebook, tornou as Apps da Meta menos interessantes.
O resto foi a concorrência a funcionar, com anunciantes e marcas a preferirem investir em conteúdos para alternativas promissoras, como as redes Tik Tok e You Tube, mais atraentes para as faixas mais novas.
232 mil milhões do dia para a noite
Na apresentação do relatório, emitida digitalmente, Zuckerberg mostrou-se confiante que a alternativa Reel, do universo Facebook, irá ser capaz de competir com a Tik Tok. Não convenceu. Outra má aposta foi o projeto de cripto moeda da Meta, primeiro Libra e depois Diem, recentemente cancelado ao fim de três anos, devido a regulamentos e à indiferença geralizada.
Mas há pior. A Reality Labs, o projeto-piloto de Zuckerberg para criar o seu mundo Meta e difundir a realidade aumentada, já estoirou 10 mil milhões de dólares.
Zuckerberg admite que as perdas “aumentem significativamente” nos próximos meses e ninguém espera resultados antes de 10 anos. Apesar de tudo, esta parece ser a única aposta que ainda sustenta o império de Zuckerberg.
O quadro foi suficiente para assustar os investidores e, do dia para a noite, as ações da Meta Platforms Inc caíram a pique, 26 por cento – a maior queda de sempre para uma empresa norte-americana, de acordo com o Dow Jones.
O valor de mercado da Meta desceu uns esmagadores 232 mil milhões de dólares numa questão de horas. Mais do que o valor somado da Netflix Inc, da Advance Micro Devices Inc e da AT&T Inc, entre outras.
Esta segunda-feira surgiu entretanto o anúncio da saída de Peter Thiel, o fundador de PayPal e do Palantir, membro do Conselho de Administração de Facebook desde 2005. Na altura, Thiel deu a Zuckerberg meio milhão de dólares e tornou-se o primeiro investidor externo e um dos grandes apoios do fundador da “maior rede social do mundo”.
Sai agora para se colocar e à sua fortuna, ao serviço de Donald Trump e dos seus apoiantes republicanos para as próximas eleições intercalares de novembro.
É uma perda significativa para a Meta Platforms, até pelo sinal que transmite aos investidores.
Semestre mau, semestre bom
Estes “poderão começar a questionar se a equipa de Zuckerberg poderá salvar algo do FB ou se tal ativo, que representa cerca de dois terços das receitas, está em declínio”, opinou o analista do Barclays Ross Sandler.
Certamente, o ataque de Zuckerberg à Tik Tok durante a apresentação de resultados visa chamar a atenção dos reguladores, de que o FB deixou de ter a posição dominante nas redes sociais. Tal ideia poderá virar-se contra si, se os anunciantes desistirem de apostar nele.
Também a plataforma Reel está a ser um tiro pela
culatra. Concorrente do Tik Tok, parece atrair e manter os utilizadores
das outras plataformas mais rentáveis da Meta, levando a prejuízos no quadro geral.
Doug Anmuth, do J.P. Morgan, mostrou-se também preocupado com o impacto na Meta das mudanças do sistema operacional iOS da Apple quanto a anúncios, em benefício da Google.
A companhia espera uma quebra “significativa mas gerível” de 10 mil milhões de dólares em 2022 devido às alterações do iOS. Anmuth declara-se “pouco otimista quanto à capacidade da gestão” do FB para recuperar.
Apesar de tudo e das previsões de novas perdas no primeiro semestre de 2022, a segunda parte do ano deverá ser de crescimento, esperam os analistas, incluindo Anmuth.
“Consideramos os desafios como ultrapassáveis – mitigações táticas, comércio social, intervenção regulatória, e o Metaverso deverá absorver os riscos a montante das plataformas”, considerou Steven Cahall da Wells Fargo ao Wall Street Journal.
Uma rota por definir
Na verdade, apesar das perdas a Meta teve lucros de 40 mil milhões de dólares em 2021, sobretudo por publicidade.
O FB “não é a melhor App de rede social nem a melhor plataforma de conteúdos. Ninguém confia na empresa ou na sua gestão para fazer o que deve”, considerou. “Quer evoluir mas é terrível nessa função” e os reguladores estão à espreita para “garantir que não há nenhuma aquisição espetacular”.
A história mostra ainda que a criação de novos produtos não será uma solução e o sucesso do Metaverso – a acontecer – “está a anos de distância”, escreve ainda Moore na OneZero.
A maior questão é por quanto mais tempo irá a Meta manter-se financeiramente atrativa sem um FB a sustentá-la, num universo ameaçado por ataques cibernéticos e povoado por novas plataformas e ideias, onde a malha quanto ao uso dos dados dos utilizadores se vai apertando cada vez mais.
Algumas das exigências têm origem na própria Meta. E a sua implementação pode criar dificuldades sem resolver grande coisa.
Proteção de dados ou pomo da discórdia
O Conselho de Supervisão da Meta aconselhou esta terça-feira o Facebook e o Instagram a reforçarem as regras de privacidade para impedir a revelação de moradas e imagens de residências privadas, conhecida como doxxing.
O Conselho quer na verdade acabar com a atual exceção às regras de privacidade já implementadas, que autoriza a partilha daquele tipo de informação quando ela é considerada “acessível publicamente” por ter sido publicada “por pelo menos cinco meios de informação diferentes”.
Quer ainda que os utilizadores tenham maior controlo sobre esse tipo de informação acessível digitalmente.Entre as vítimas de doxxing há jornalistas, provedores de aborto e celebridades como Scarlett Johansson, Kim Kardashian e Lady Gaga.
O Conselho sugere contudo que a publicação de imagens e de moradas de residências oficiais de altos funcionários governamentais, como chefes de Estado, se mantenha publicável, de forma a permitir a organização de protestos.
São decisões que poderão ter impacto numa futura partilha de dados a acordar com Bruxelas.
O Acordo de Proteção de Dados entre a União Europeia e os Estados Unidos da América está ainda em vigor e autoriza as empresas norte-americanas a receber os dados de entidades europeias ao abrigo da legislação de privacidade da EU. O Tribunal Europeu de Justiça declarou-o contudo inválido em julho 2020, pelo que a revisão das regras está já sob estudo.
O Tribunal considerou que o Acordo não protegia os direitos fundamentais dos cidadãos europeus transferidos para os EUA, nem dava as garantias adequadas previstas no Regulamento Geral sobre a Prestação de Dados da EU.
Em nota enviada à redação da RTP após a publicação deste artigo, o porta-voz da Meta sublinhou que “não temos quaisquer desejos ou planos para sairmos da Europa, mas a simples realidade é que a Meta, como muitos outros negócios, organizações e serviços, se baseia na transferência de dados entre a UE e os EUA, de forma a operar serviços globais”.
A mesma fonte garante que “como outras empresas, temos seguido as regras europeias e baseamo-nos em Cláusulas Contratuais Normalizadas e proteção adequada de dados, para operar um serviço global”.
“Fundamentalmente, negócios necessitam de regras claras e globais para proteger os fluxos transatlânticos de dados no longo prazo, e como mais de 70 outras empresas num largo espectro de setores, estamos a acompanhar de perto o impacto potencial nas nossas operações europeias à medida que estes desenvolvimentos progridem”, termina a nota explicativa.