Protestos em toda a Europa contra planos de austeridade

Milhares de pessoas de toda a Europa deslocaram-se a Bruxelas, onde está a sede da Comissão Europeia, para protestar contra as medidas de austeridade preparadas pelos Governos dos 27 Estados-membros. Além da Bélgica, verificaram-se acções de protesto em Espanha, Grécia, Eslovénia, Lituânia, Polónia, Itália, Sérvia e Irlanda. Em Portugal, a CGTP juntou-se à iniciativa e organizou duas manifestações, uma em Lisboa e outra no Porto.

RTP /
Os organizadores da manifestação do Bruxelas dizem que a acção de protesto contou com mais de 100 mil participantes Filip Claus, EPA

Nas ruas de Lisboa marcharam trabalhadores afectos à CGTP, em número ainda não avançado. Partiram do Marquês de Pombal em direcção à Assembleia da República para defender que  "é mesmo necessário o aumento dos salários", "distribua-se por igual a riqueza nacional" e "desemprego em Portugal é vergonha nacional".

Decorre um protesto idêntico no Porto, também convocado pela CGTP, reunindo entre cinco a 10 mil trabalhadores, de acordo com a Antena 1.

UGT em Bruxelas pede “uma Europa diferente”
Entre os participantes da manifestação em Bruxelas encontram-se representantes das centrais sindicais portuguesas. A UGT e a CGTP pediram "outras políticas" de combate à crise em vez do caminho de cortes que tem sido apontado e que a nova via não penalize ainda mais os trabalhadores.

O secretário-geral da UGT vincou que é necessária "uma Europa diferente". João Proença foi a Bruxelas pedir "políticas diferentes, não apenas de combate ao défice e restrições orçamentais. É necessário que o emprego e o combate ao desemprego sejam colocados no centro das preocupações europeias".

Depois de, num primeiro momento, a União Europeia ter respondido “bem à crise, com politicas de crescimento e emprego”, está agora “a responder muito mal, ao antecipar as medidas de combate ao défice e não se preocupar o suficiente com as politicas de investimento", apontou João Proença. O ambiente entre os trabalhadores de vários países “é cada vez mais um sentimento alargado no conjunto da UE de que neste momento a UE não está à altura das suas responsabilidades", acrescenta.

Um ambiente que o único membro da CGTP a deslocar-se a Bruxelas classifica de potenciador de “explosão social”. Segundo David Soares, "a situação está de tal forma grave que alguma coisa tem que ser feita", devendo os governos dos Estados-membros ser sensíveis a protestos como o de Bruxelas.

"Se isto tem efeito ou não tem, no imediato pode não ter, mas no longo prazo nós estamos convencidos que vão ter que ser sensíveis", aventou, vincando que "a crise não pode ser paga sempre pelos mesmos", já que "a politica que tem sido seguida por todos os governos é fazer pagar a crise pelos trabalhadores", quando "aqueles que a provocaram continuam na sua senda".

Da estação ferroviária ao “bairro comunitário”
O protesto em Bruxelas, convocado pela Confederação Europeia de Sindicatos (CES), contou com cerca de 100 mil manifestantes oriundos de todos os Estados-membros da União Europeia, de acordo com os números da organização.

No mesmo dia, a Comissão Europeia propõe a maior reforma das regras da UE, incluindo sanções a aplicar aos países que não cumprirem os critérios de convergência e incorrerem em desequilíbrios orçamentais e crises da dívida pública, como a verificada na Grécia.

Apesar de contar com o apoio da Alemanha, a França está contra as sanções quase-automáticas dizendo que devem ser os políticos eleitos nos Estados que devem decidir.

Entre os milhares de manifestantes que se concentraram junto à principal estação ferroviária de Bruxelas, de onde seguiram para a zona onde estão localizadas as instituições comunitárias, alguns estavam vestidos como executivos. Dizendo-se filiados na "Associação Europeia das Empresas Fraudulentas", empunhavam cartazes com frases como "Não toquem nos nossos lucros", "Menos impostos, mais lucros" e "Protejam os nossos privilégios".

Os manifestantes exigem que a crise deixe de ser paga pelos trabalhadores, enquanto aqueles que a causaram continuam a ter lucros.

Em Portugal, a CGTP convocou um protesto para as duas maiores cidades, Lisboa e Porto, no dia em que um Conselho de Ministros extraordinário para definir as linhas gerais do Orçamento de Estado para o próximo ano.

Protestos em toda a Europa
As manifestações de descontentamento dos trabalhadores decorreram por toda a Europa, muitas vezes acompanhadas de paralisação de serviços.

Em Espanha decorre a primeira greve geral em oito anos, no contexto de uma reforma laboral que prevê nova lei de despedimentos e das pensões de reforma. As medidas impopulares do executivo socialista de Zapatero abriram um fosso na relação com os sindicatos.

O abastecimento dos principais mercados de Madrid e Barcelona foi impedido e impedidos de seguir para a estrada os motoristas da principal central de autocarros da capital espanhola.

Na Irlanda, um homem bloqueou o Parlamento com um camião de cimento como forma de protesto contra as ajudas aos bancos.

Na capital da Lituânia, quarto centenas de trabalhadores exigiram a outras medidas de austeridade além dos cortes salariais.

Na Eslovénia, os funcionários públicos continuaram com a greve, em protesto como a decisão de congelar os seus salários durante dois anos ou até que a economia atinja um ritmo de crescimento de três por cento.

Na Grécia, os médicos estão em greve durante 24 horas. Além disso, os transportes de mercadorias estão em greve há duas semanas dificultando o abastecimento de alimentos, houve interrupção de serviço no metro de Atenas, autocarros e eléctrico, bem como em linhas ferroviárias de todo o país.
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