Submarinista, coordenador nacional da vacinação contra a covid-19 e candidato a Belém. Quem é Henrique Gouveia e Melo?

Henrique Gouveia e Melo, almirante de quatro estrelas, ex-chefe de Estado-Maior da Armada e coordenador nacional da vacinação contra a covid-19, apresentou a candidatura à Presidência da República no final de maio de 2025.

Sob o lema "Unir Portugal", o candidato lançou o seu nome para as Presidenciais na Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa.

Gouveia e Melo apresentou formalmente a candidatura à Presidência, depois de ter confirmado a decisão de avançar para Belém em plena campanha eleitoral das últimas legislativas, o que lhe valeu fortes críticas.

Em março de 2025, quatro anos depois de se ter destacado na liderança da task-force da vacinação contra a covid-19, admitia pela primeira vez de forma clara a sua disponibilidade para a presidência: "Não há dúvidas. Vou ser mesmo candidato".

Quando apresentou a candidatura, Gouveia e Melo frisou que Portugal precisa de um presidente "acima de disputas partidárias", que se faça ouvir "usando da palavra com contenção e propriedade". O candidato prometeu ainda respeitar os partidos, "pilares fundamentais da democracia, assim como a separação de poderes", tendo sempre em mente que o presidente da República "não governa".

Gouveia e Melo tornou-se amplamente conhecido em Portugal pela sua liderança na task force da vacinação contra a covid-19, em 2021. O seu desempenho à frente desta missão foi elogiado por muitos como exemplar, associando o almirante a uma imagem de autoridade, organização e pragmatismo.

Antes de aparecer de camuflado no horário nobre televisivo a falar sobre vacinas, Gouveia e Melo era praticamente desconhecido da maioria dos portugueses, mas não no meio militar. O vice-almirante era em 2021 adjunto para o Planeamento e Coordenação do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), cargo pelo qual recebeu uma medalha do presidente da República.“Devo servir a minha pátria e os portugueses”
Em novembro de 2025, na Grande Entrevista na RTP, Gouveia e Melo lançou críticas aos adversários, afirmando “ter a sensação de que não está a concorrer a umas eleições presidenciais, mas sim a umas "segundas legislativas" e acrescentou que não gostaria de ver na Presidência "nenhum cavalo de Tróia de nenhum partido".

O candidato assegurou que o que motivou foi “a instabilidade internacional, a democracia com sinais de fragilidade interna e de descrédito interno, uma economia que não é pojante e que distribui pobreza em vez de distribuir riqueza, e alguma falta de ambição geral”.“Eu concorro porque acredito que devo servir a minha pátria e os portugueses neste momento de forma política, e não continuando a servir na Defesa”, salientou. “O meu partido é Portugal e eu venho lutar pelos portugueses”.

Questionado sobre se o presidente pode ter um papel ativo nos problemas que enumerou, Gouveia e Melo disse acreditar que pode ter “um papel ativo através da magistratura de influência, mas não só”. “Porque a alterativa é dizer que o topo da pirâmide política é só figurativa, não serve para nada. E isso não me parece que seja o que é o semipresidencialismo nem o que é o nosso sistema”, explicou.

“Acredito que posso contribuir para uma mudança significativa e para impulsionar Portugal com o Governo e com todo o sistema político”, continuou o candidato.


Gouveia e Melo acrescentou na Grande Entrevista que é “verdadeiramente independente" e considerou que os seus adversários estarão “reféns” dos interesses partidários por mais que prometam ser “o presidente de todos os portugueses”.

“Eu sou a pessoa mais liberta desses interesses”, garantiu, rejeitando em absoluto a possibilidade de ser condicionado pelos seus apoiantes.

No livro Gouveia e Melo – As razões lê-se: “Se acham que me vão mudar os ideais, que vou mais para a esquerda ou mais para a direita, que me vão capturar como se eu fosse um cavalo montando-se no meu lombo, vão levar um coice e saltar do lombo rapidamente”. “Eu não gostaria de ver na Presidência nenhum cavalo de Tróia de nenhum partido”, defendeu.

“A nossa população está a ser atraída por soluções cada vez mais radicais”, considerou. “Quando a população é atraída por soluções muito radicais, o que começa a perigar é a própria democracia”.

“Eu vou tentar, de alguma forma, dar uma hipótese e contrariar isso”.

Sobre o seu currículo e a falta de experiência política citada pelos adversários, Henrique Gouveia e Melo realçou ter “a experiência que interessa” na resolução de problemas.


"Eu falo da experiência que interessa. A experiência de resolver problemas. Eu julgo que já demonstrei suficientemente a capacidade de resolver problemas, julgo que já demonstrei suficientemente a minha capacidade de adaptação, a minha flexibilidade e a minha leitura moderada do que é mundo, já demonstrei isso à exaustão”, afirmou.O candidato presidencial apresenta-se como uma pessoa “moderada” e “equilibrada”, cuja “única coisa que deseja é o bem de Portugal e dos portugueses e servir, sem se servir”.
O percurso militar de Gouveia e Melo
Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo nasceu em Quelimane, Moçambique, a 21 novembro 1960. Dividiu a sua infância e adolescência entre Quelimane, São Paulo, no Brasil e, finalmente, Lisboa onde chegou em setembro 1979, para Ingressar na Escola Naval como Cadete do curso “Carvalho Araújo”.

A 19 setembro de 1983, após terminar o curso na Classe de Marinha, foi promovido a Aspirante, segundo a biografia do candidato à Presidência da República publicada na página oficial da candidatura intitulada “O meu partido é Portugal”.

Como desafio, escolheu os Submarinos para a sua especialização, sendo, à época, o único voluntário. Viria a integrar a Esquadrilha de Submarinos em setembro de 1985. Navegou nos três submarinos da Esquadrilha, Albacora, Barracuda e Delfim, tendo inicialmente, exercido diversas funções operacionais como oficial de guarnição e, posteriormente, Oficial Imediato nos submarinos Albacora e Barracuda.

Durante a sua longa permanência na Esquadrilha de Submarinos que, terminaria em 2002, comandou os submarinos Delfim e Barracuda, chefiou o Serviço de Treino e Avaliação da Esquadrilha de Submarinos e o Estado-Maior da Autoridade Nacional para o Controlo de Operações de Submarinos. Após uma passagem de três anos como Chefe do Serviço de Relações Publicas e porta-voz da Marinha, e de uma participação decisiva no projeto de aquisição da nova de classe de submarinos Tridente, veio a comandar, entre 2006 e 2008, a fragata Vasco da Gama.

Concluído este comando no mar, o Almirante Gouveia e Melo retornou à sua grande paixão, a Esquadrilha de Submarinos, para a comandar e liderar o ambicioso projeto de transformação, reconstrução e capacitação desta estrutura para a receção e apoio aos novos submarinos. Nesta função reembarcou, por necessidade, no NRP Tridente, tendo feito as provas de Garantia e testado o submarino à exaustão, do que resultaram muitas modificações e melhorias implementadas nos novos submarinos.

Após a promoção a Contra-almirante, em abril de 2014, assumiu as funções de Chefe de Gabinete do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, cargo que desempenhou até novembro de 2016. Após um breve período em que exerceu as funções de 2.º Comandante Naval, viria, em janeiro de 2017, com a promoção a Vice-almirante, a assumir as funções de Comandante Naval, cargo que exerceu durante três anos, dois dos quais em acumulação com as funções de Comandante da Força Naval Europeia EUROMARFOR, que integra meios navais de quatro países europeus, Portugal, Espanha, França e Itália.

No exercício das funções de Comandante Naval cooperou com a Polícia Judiciária, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas

Foi no âmbito do apoio militar emergência que se destacou na liderança de ações de elevada complexidade, com resultados reconhecidos, quer a nível nacional, quer internacional, como são os casos dos incêndios de Pedrógão Grande, da devastação gerada pelo ciclone Idai, em Moçambique, e dos estragos causados pela passagem do ciclone Lorenzo, nos Açores.

Após a promoção a Contra-almirante, em abril de 2014, assumiu as funções de Chefe de Gabinete do Almirante Chefe do Estado-Maior da Armada, cargo que desempenhou até novembro de 2016. Após um breve período em que exerceu as funções de 2.º Comandante Naval, viria, em janeiro de 2017, com a promoção a Vice-almirante, a assumir as funções de Comandante Naval, cargo que exerceu durante três anos, dois dos quais em acumulação com as funções de Comandante da Força Naval Europeia EUROMARFOR, que integra meios navais de quatro países europeus, Portugal, Espanha, França e Itália.

Entre janeiro de 2020 e dezembro de 2021, Henrique Gouveia e Melo exerceu as funções de Adjunto para o Planeamento e Coordenação do Estado-Maior General das Forças Armadas, funções que acumulou, entre fevereiro e setembro de 2021, com as de coordenador da task force para a vacinação contra a covid-19, em Portugal, num processo ímpar, de reconhecido sucesso, que creditou Portugal como o primeiro país do mundo a atingir a meta dos 85 por cento de população vacinada.

Também liderou uma profunda alteração na estruturação e edificação da capacidade de Ciberdefesa Nacional, que ainda decorre. Foi também o responsável pelo apoio das Forças Armadas à gestão das Camas de Cuidados Intensivos em Lisboa no verão e inverno de 2020. Ainda nestas funções foi o coordenador-planeador da reforma da Saúde nas Forças Armadas.

Henrique Gouveia e Melo foi promovido ao posto de Almirante e nomeado Chefe do Estado-Maior da Armada e Autoridade Marítima Nacional em 27 de dezembro de 2021. 

Além da paixão pelos submarinos e pelo mar, é um fervoroso adepto de matemática, da física e da computação.

Henrique Gouveia e Melo passou à reserva em 27 de dezembro de 2024, cessando as suas funções militares.

No percurso da sua carreira, Gouveia e Melo foi ainda distinguido com diversas condecorações, como a Ordem Militar de Avis - Grau Comendador, oito Medalhas Militares de Serviços Distintos, a Medalha de Mérito Militar de 1.ª, 2.ª e 3.ª Classe, a Medalha da Defesa Nacional de 1.ª Classe, a Medalha Militar de Cruz Naval de 3.ª Classe, a Medalha Militar de Comportamento Exemplar - ouro e, mais recentemente, a Ordem de Mérito Marítimo por parte da Marinha Francesa e a Medalha da Ordem do Mérito Naval - Grau Grande Oficial, atribuída pela Marinha do Brasil.