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Hezbollah, a maior ameaça para Israel a partir do Líbano. Pode o Irão intervir?

por Carla Quirino - RTP
Ataques de foguetes do Líbano, durante as hostilidades transfronteiriças entre o Hezbollah e as forças israelitas, em Katzrin, nos Montes de Golã ocupados por Israel Gil Eliyahu - Reuters

Nas últimas semanas, aumentaram os ataques de retaliação entre Israel e o Hezbollah. Israel tem mantido no ponto de mira aldeias no Líbano e é acusado de recorrer a munições de fósforo branco. O movimento xiita libanês tem como alvo instalações militares israelitas, que ataca com drones, mísseis guiados e outro armamento. Os Estados Unidos avisam que a esta "guerra limitada" pode levar o Irão a intervir. E o secretário-geral da ONU, António Guterres, adverte para o risco de uma escalada "com consequências devastadoras".

Um relatório do Comando da Frente Interna das Forças de Defesa de Israel descreve a ameaça que o Hezbollah representará para a frente interna israelita, numa potencial guerra futura. 

Estima-se que pelo menos mil a 1.500 rockets e mísseis sejam lançados contra Israel. Milhares de casas serão atingidas e centenas de civis israelitas serão feridos ou mortos. Centenas de milhares de pessoas serão deslocadas de suas casas. O documento resume assim a magnitude da ameaça na fronteira norte israelita, apesar de Telavive possuir dos melhores sistemas de defesa aérea do mundo.

Perante o aumento dos ataques na fronteira libanesa, António Guterres alertou para o risco de "um conflito mais amplo com consequências devastadoras para a região" e apelou para o fim das hostilidades entre Israel e o Líbano, na semana passada.

“À medida que as trocas de tiros continuam em torno da Linha Azul [linha de demarcação estabelecida pela ONU entre Israel e o Líbano], o secretário-geral apela mais uma vez às partes para um cessar-fogo urgente”, declarou o porta-voz de Guterres, Stéphane Dujarric.
Hezbollah libanês
O Hezbollah é um grupo político e paramilitar islamita, da fação xiita, constituído no período que antecedeu a Revolução Islâmica de Khomeini, no Irão. Surgiu pela primeira vez no palco internacional quando enfrentou a ocupação de 18 anos do sul do Líbano por Israel, a partir de 1982.

Apoiado pelo Irão, o Hezbollah pode representar a maior ameaça militar a Israel. 

O Hezbollah faz parte do “eixo de resistência” mais amplo apoiado pelo Irão, com o movimento Ansarullah - os Houthis - no Iémen e outros grupos na Síria e no Iraque. A força islamita demonstrou a sua capacidade de identificar fraquezas nos sistemas de defesa aérea de Israel, gerar alvos e executar operações complexas, quase diariamente.

O líder do Hezbollah no Líbano, Hassan Nasrallah, fez um discurso transmitido na televisão durante uma cerimónia, nos subúrbios ao sul de Beirute, Líbano, a 31 de maio de 2024 | Mohamed Azakir - Reuters 

Após Israel ter saído do Líbano, a fronteira não deixou de permanecer tensa. Em 2006, o Hezbollah emboscou soldados israelitas, matou três e sequestrou dois. Israel respondeu com ataques que duraram 34 dias. Mais de 1.900 libaneses morreram, mas o grupo islamita resistiu. O Hezbollah acabou por crescer, alinhando com o Governo sírio xiita, sendo entretanto responsabilizado de cometer crimes de guerra contra civis sírios.
Hezbollah como maior ameaça

Após o Hamas ter lançado o ataque de 7 de outubro contra Israel, o Hezbollah tem travado um conflito de “baixa intensidade” com Telavive, na fronteira sul do Líbano, como protesto perante as operações militares de Israel em Gaza. Ambos os lados parecem tentar evitar baixas civis significativas nos combates na fronteira do Líbano. No entanto, Israel avançou progressivamente no Líbano matando muitos civis.

A 5 de junho, o Hezbollah ripostou com dois drones suicidas contra uma aldeia israelita, matando duas pessoas e ferindo outras 11. Dos ataques do grupo islâmico também resultaram perto de 100 incêndios em território israelita.

Itamar Ben-Gvir, ministro israelita da Segurança Nacional, de extrema-direita, deslocou-se aos locais atingidos pelos incêndios no norte. “É inaceitável que uma região do nosso país seja alvo enquanto o Líbano permanece quieto. Devemos queimar todos os postos avançados do Hezbollah. Destruam-nos” - foi esta a mensagem então deixada por Ben-Gvir.

Steven A. Cook, investigador de Estudos do Médio Oriente no Conselho de Relações Exteriores, explicou à France 24 por que razão o Hezbollah porerá intimidar Israel. "Os grandes armazenamentos de rockets, mísseis e munições de precisão do Hezbollah representam uma ameaça ainda maior para os israelitas em geral do que as ações do Hamas em 7 de outubro de 2023", alegou.
Retaliações intensificam-se

A escalada do fogo cruzado entre o movimento xiita libanês e Israel atingiu níveis nunca vistos desde os confrontos em 2006. A duas forças intensificaram os confrontos desde 8 de outubro, um dia após o início da contraofensiva israelita na Faixa na Gaza, desencadeada pelo ataque do Hamas. 

Os dois lados aumentaram o alcance dos seus ataques nas últimas semanas. O Hezbollah lançou drones e rockets contra alvos das Forças de Defesa de Israel a 50 quilómetros da fronteira. Muitas das aldeias e cidades israelitas perto da fronteira estão desertas.Mais de 60 mil israelitas foram retirados da área depois de o Hezbollah ter começado a atacar o norte de Israel com armamento mais sofisticado.

“No geral, a intensidade e os tipos de sistemas de armas utilizados aumentaram acentuadamente”, disse Mike Knights, membro do Instituto de Política para o Médio Oriente, com sede nos EUA, onde acompanha os ataques. “Isso complica a tarefa israelita e representa um aumento no custo financeiro”, descreveu Knights à Reuters.

O grupo libanês começou a lançar rockets "Burkan" com ogivas de 450 a 900 quilos, que causaram danos significativos às bases das FDI ao longo da fronteira.

Por sua vez, a Agência Nacional de Notícias do Líbano avançou, na passada quinta-feira, que aviões de combate israelitas sobrevoaram o sul do território libanês a baixa altitude e ultrapassaram a barreira do som “em vários pontos do espaço aéreo do país”.

A mesma situação repetiu-se na zona de Zahrani, a mais de 45 quilómetros da fronteira comum, enquanto que em Kaoutariyet al Siyad, a uma distância semelhante, os militares do Hezbollah lançaram balões incendiários e provocaram um incêndio do lado de Israel, de acordo com a mesma fonte.Já esta terça-feira, o exército israelita revelou ter atacado um complexo do Hezbollah em Baalbek, cidade do leste do Líbano, perto da fronteira com a Síria.

Peranta as hostilidades, o comunicado da ONU acentua que “centenas de vidas já foram perdidas, dezenas de milhares de pessoas deslocadas, casas e meios de subsistência destruídos, em ambos os lados da Linha Azul. Os incêndios florestais causados pelas explosões estão a devastar as comunidades e o ambiente”.
EUA advertem que “Irão pode intervir”
A Administração norte-americana de Joe Biden manifestou-se preocupada com a escalada de violência entre Israel e o Hezbollah, deixando claro a Telavive que está contra a ideia de “uma guerra limitada” no Líbano. Alertou ainda para o perigo de alastramento motivando a intervenção do Irão no conflito, elevando ainda mais o nível de tensão do conflito.

As autoridades dos EUA temem que a situação no Líbano esteja a chegar a um ponto que pode não ter retorno. Washington ainda tem esperança de conseguir fazer progressos diplomáticos e reduzir a tensão. Entende que é essencial “prevenir uma guerra total entre Israel e o Hezbollah, isto porque pode levar à destruição generalizada no Líbano”.

Um dos cenários para os quais a Administração norte-americana alerta Israel é o de que o “Líbano pode receber militantes de milícias pró-iranianas da Síria, do Iraque e até do Iémen que estarão com vontade de se juntar aos combates”.
Matemática de Israel
De acordo com Dahlia Scheindlin, comentadora e analista política israelita, o Governo israelita pode não alinhar com algumas vozes que defendem um ataque com impacto no Líbano. "Telavive pode temer que o Hezbollah desfira ataque aos postos militares e as comunidades israelitas fronteitiças como fez o Hamas", defende Scheindlin.

A analista explica que as opiniões dividem-se. Enquanto uns não acreditam que o Hezbollah deixará de atacar Israel caso seja alcançado um cessar-fogo em Gaza, outros defendem que será necessário combater o Hezbollah para que os cidadãos deslocados regressem em segurança às suas casas no norte.

“Não creio que existam vozes suficientes [em Israel] que descrevam as consequências devastadoras dos ataques [do Hezbollah] à infraestrutura civil em Israel”, sublinha, porém, Scheindlin.

Para já, o general Ori Gordin, das Forças de Defesa de Israel, afirma: “Continuaremos a lutar com força e inteligência até que a tarefa seja concluída – devolver a segurança ao Norte. Esta responsabilidade é clara e repousa sobre nossos ombros”.
Matemática do Hezbollah
Michael Young, analista e editor sénior do think tank Carnegie Middle East Center, em Beirute, argumenta que o Hezbollah pretende alertar Israel de que tem a capacidade de causar estragos.

“Estas são todas mensagens para Israel: não pensem que hoje vencerão uma guerra ou que uma guerra avançará com os vossos apelos ou vos trará mais influência”, explica Young. Acredita ainda que “cada lado está a preparar-se para uma negociação”. De qualquer forma. acrescenta que a violência deverá aumentar à medida que ambas as forças tentam garantir trunfos. 

“O Hezbollah foi claro. No dia em que os combates em Gaza cessarem será o dia em que os combates no sul do Líbano também terminarão”, afirmou Young. “O Hezbollah não quer uma situação cinzenta na fronteira libanesa porque isso significa que Israel pode continuar a atacá-los e a assassinar os seus combatentes”, insiste.
Eixo da Resistência e a teia de interesses
Diversos grupos armados iraquianos e outras fações da rede de aliados regionais do Irão constituem o Eixo da Resistência. Estes grupos iraquianos, que se juntaram à guerra civil síria em apoio do presidente Bashar al-Assad, aliado do Irão, ganharam uma posição segura nos territórios perto da fronteira com Israel.


Xiitas iraquianos do grupo Kataib Hezbollah, apoiado pelo Irão, elevam as bandeiras do partido enquanto caminham por uma rua pintada com as cores da bandeira israelita. Bagdade, 25 de julho de 2014 | Thaier al-Sudani - Reuters

Os ataques de fações iraquianas, incluindo os Kataib Hezbollah e Nujaba, são motivo de preocupação crescente para Washington. Estas movimentações também têm sido vistas com desconforto entre algumas forças no Irão, que, sendo aliado do Eixo, precisou de “calibrar cuidadosamente os seus próprios compromissos com Israel para evitar conflitos regionais generalizados”, disseram membros das milícias à Reuters, que falaram sob condição de anonimato.

“Estas fações poderiam envolver o Eixo em algo que ele não quer atualmente”, alegou um dirigente do Eixo da Resistência, descrevendo a opinião entre grupos pró-Irão.

Hussein al-Mousawi, porta-voz de Nujaba, uma das principais fações xiitas armadas no Iraque que participa em ataques contra Israel, argumentou que as hostilidades foram "uma evolução natural do papel dos grupos iraquianos e visavam aumentar o custo da guerra em Gaza". Pretendem atacar em qualquer lugar, pelo tempo que for necessário, segundo alegaram à agência noticiosa.

“As operações realizadas pela Resistência não estão limitadas por fronteiras temporais ou espaciais”, esclareceu Mousawi. “Nós, como resistência, não tememos as consequências, desde que tenhamos razão e representemos a vontade popular e oficial”, acentuou.

O Governo iraquiano, que equilibra cuidadosamente as suas alianças com Washington e Teerão, não aprova oficialmente os ataques, mas tem sido "incapaz ou relutante" em impedi-los.

Israel vê o Iraque como um estado vassalo iraniano e como principal corredor de armas do Irão para outros grupos armados, incluindo o Hezbollah.
Israel com olho na Síria
Por sua vez, Israel intensificou ataques secretos na Síria, contra locais de armas, rotas de abastecimento e comandantes ligados ao Irão, disseram sete autoridades regionais e diplomatas.

Um ataque aéreo israelita, a 2 de junho, matou 18 pessoas, incluindo um conselheiro da elite da Guarda Revolucionária do Irão. O alvo era um local clandestino fortificado de armamento, perto de Alepo.

A disparar para todos os lados, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, deixou claro na semana passada que o seu país estava preparado para "uma acção muito forte" na sua fronteira com o Líbano.

Para Imad Salamey, professor associado de ciências políticas na Universidade Libanesa-Americana, “Israel enfrenta desafios significativos em múltiplas frentes, incluindo ameaças à segurança regional e dinâmicas políticas internas”, argumentou à Al Jazeera.

Acredita que uma invasão israelita não deve estar iminente, mas estima que, caso se cumprisse, "provavelmente resultaria numa severa condenação internacional e em relações tensas com aliados importantes, especialmente os Estados Unidos, o que complicaria o apoio a Telavive”.
Poder ainda mais nacionalista
Entretanto, o ministro do Gabinete de Guerra de Israel, Benny Gantz, da ala centrista do Governo israelita, apresentou a sua demissão no último domingo. “Netanyahu está a impedir-nos de avançar para uma verdadeira vitória”, afirmou. “Por esta razão, deixamos hoje o governo de emergência, com o coração pesado, mas de todo o coração", afirmou.

Gantz defendia que a estratégia do primeiro-ministro incluísse a eliminação do Hamas, o regresso dos reféns de Gaza e o estabelecimento de um Governo alternativo no enclave palestiniano. Gantz, ao abandonar o Governo, deixa a coligação maioritária nas mãos de Netanyahu, que passa a precisar mais do apoio dos seus aliados de extrema-direita.

Continua. em aberto as próximas movimentações, agora que a tendência mais nacionalista concentra o poder de Telavive.

Entretanto, também no domingo, as Forças de Defesa de Israel "eliminaram um esquadrão terrorista no sul do Líbano que lançava mísseis antiaéreos contra aviões de combate israelitas que operavam nos céus libaneses", indica o comunicado militar de Telavive.

Já na segunda-feira o Hezbollah anunciou que a sua "defesa antiaérea" tinha "abatido um drone Hermes 900 equipado com mísseis preparado para efetuar ataques" contra as suas regiões. A destruição do míssil foi corroborada por Israel. O grupo islamita também reivindicou neste dia a responsabilidade por vários ataques, onde num deles utilizou uma "esquadrilha de 'drones'" contra uma posição israelita nos Montes Golã ocupados por Israel.

Nos últimos oito meses, as hostilidades na fronteira Israelo-Libanesa causaram as mortes de mais de 480 pessoas, sobretudo do lado libanês. Nas fileiras do Hezbollah foram confirmadas as mortes de mais de 300 milicianos, alguns deles na Síria, bem como cerca de 90 civis. Israel regista as mortes de 25 pessoas no norte, dez das quais civis.
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