Israel admite "erro grave" no ataque em Gaza que matou trabalhadores humanitários

por Cristina Sambado - RTP
Israel Defense Forces/Handout via Reuters

O exército israelita admitiu esta quarta-feira ter cometido um "erro grave" após um ataque que matou sete funcionários da ONG World Central Kitchen na Faixa de Gaza, uma tragédia que causou consternação internacional.

Foi "um erro grave" que "não deveria ter acontecido", avançou o chefe do Estado-Maior israelita, Herzi Halevi, numa mensagem de vídeo, referindo-se a "um erro de identificação" em "condições muito complexas".

Na terça-feira, o presidente israelita Isaac Herzog já tinha apresentado "sinceras desculpas" e "profunda tristeza" pelo ataque, que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu descreveu como "não intencional" e "trágico". A ONG norte-americana World Central Kitchen, uma das poucas que ainda opera no território palestiniano devastado por quase seis meses de guerra entre Israel e o Hamas palestiniano, anunciou a "suspensão das suas operações na região" na sequência do ataque de segunda-feira em Deir al-Balah (centro).

Vários países e organizações, incluindo a ONU, que denunciou o ataque como "desrespeitoso do direito humanitário internacional", condenaram-no como o mais mortífero a atingir trabalhadores humanitários internacionais desde o início da guerra a 7 de outubro.
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, revelou na terça-feira que estava "indignado" e "de coração partido", afirmando que Israel "não estava a fazer o suficiente" para proteger os voluntários que ajudam a população palestiniana "esfomeada".


"Isto é inaceitável. Mas é o resultado inevitável da forma como a guerra está a ser conduzida", observou o secretário-geral da ONU, António Guterres, reiterando o apelo a um cessar-fogo imediato, à libertação dos reféns e à entrada de ajuda humanitária em Gaza.


A morte dos sete membros da World Central Kitchen eleva o número total de trabalhadores humanitários mortos neste conflito para 196, "incluindo mais de 175 funcionários da ONU", acrescentou.
Indignação internacional
A WCK afirmou estar "devastada" pela morte dos membros da sua equipa, "heróis" cujos nomes, fotografias e nacionalidades publicou no X durante a noite: Saifeddine Issam Ayad Aboutaha, 25 anos, palestiniano; Lalzawmi (Zomi) Frankcom, 43 anos, australiano; Damian Sobol, 35 anos, polaco; Jacob Flickinger, 33 anos, americano-canadiano, bem como John Chapman, 57 anos, James (Jim) Henderson, 33 anos e James Kirby, 47 anos, britânicos.


"Estou desolada e chocada com o facto de nós, a World Central Kitchen e o mundo, termos perdido belas vidas hoje devido a um ataque seletivo das forças israelitas", acrescentou a presidente, Erin Gore.

Desde o início da guerra, a WCK tem participado em operações humanitárias, fornecendo refeições no território palestiniano, onde a maioria dos cerca de 2,4 milhões de habitantes está ameaçada de fome, segundo a ONU. Em meados de março, ajudou a enviar o primeiro navio de ajuda humanitária de Chipre para Gaza através de um corredor marítimo.

Os Estados Unidos, aliados históricos de Israel, apelaram a uma investigação "rápida e imparcial". O Reino Unido convocou o embaixador israelita na terça-feira para expressar a sua "condenação inequívoca".

O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, afirmou esta quarta-feira que tinha transmitido a Netanyahu a "raiva" do povo australiano "perante esta tragédia".

Na segunda-feira, um correspondente da AFP viu cinco corpos e três passaportes estrangeiros junto aos restos mortais das vítimas. Os corpos dos seis ocidentais deverão ser levados esta quarta-feira para o posto fronteiriço de Rafah, com vista ao seu repatriamento, revelou Marwan al Hams, diretor do hospital Abu Najar, nesta cidade que faz fronteira com o Egito.Cerca de 33 mil mortos em Gaza
Desde o início da guerra, várias ONG que operam em Gaza afirmaram que os seus colaboradores ou instalações foram atingidos por ataques israelitas.

Devido à dificuldade de levar ajuda humanitária por terra para o território sob bloqueio israelita, um primeiro navio de ajuda humanitária chegou a Gaza a partir de Chipre em meados de março.


Mas um segundo navio, o Jennifer, que se encontrava perto da costa de Gaza, deu meia volta e regressou ao seu ponto de partida com cerca de 240 toneladas de alimentos por entregar, após o ataque que levou à suspensão das atividades da WCK.Pelo menos 32.916 pessoas, na sua maioria civis, foram mortas nas operações israelitas, pontuadas por bombardeamentos incessantes, segundo o ministério da saúde do Hamas.

A 7 de outubro, comandos do Hamas infiltrados a partir de Gaza levaram a cabo um ataque no sul de Israel que causou a morte de pelo menos 1.160 pessoas, sobretudo civis, segundo uma contagem da AFP baseada em dados oficiais. Segundo Israel, cerca de 250 pessoas foram raptadas e 130 delas continuam reféns em Gaza, 34 das quais mortas.

Com o objetivo de destruir o Hamas, Israel lançou uma campanha de intensos bombardeamentos aéreos sobre Gaza, seguida de uma ofensiva terrestre que permitiu aos seus soldados avançar de norte a sul da pequena faixa de terra.
Rasto de destruição em Al Shifa
Na segunda-feira, após 18 dias de operações, as tropas israelitas retiraram-se do complexo hospitalar de Al Shifa, em Gaza, deixando para trás um rasto de destruição e cadáveres.

O exército declarou ter "matado mais de 200 terroristas e detido mais de 900 pessoas" e acusou o Hamas, considerado um grupo terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia, de utilizar o hospital como "centro de comando".

A Defesa Civil de Gaza, dirigida pelo Hamas, registou 300 mortes no hospital e nas suas imediações devido às operações israelitas."A condenação e a denúncia não são suficientes face aos crimes que continuam na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém", afirmou na terça-feira o novo primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana, Mohammed Mustafa.

Na madrugada de quarta-feira, o Ministério da Saúde do Hamas afirmou que 60 pessoas tinham sido mortas na Faixa de Gaza nas últimas 24 horas.

Em Jerusalém, pela quarta noite consecutiva, as famílias dos reféns detidos em Gaza e os opositores ao governo de Netanyahu reuniram-se à porta do Parlamento para manifestar a sua indignação face à política do primeiro-ministro.

"Estão a fazer uma campanha contra mim, contra as famílias dos reféns, viraram-se contra nós. Chamam-nos 'traidores' quando o traidor é Netanyahu, um traidor do seu povo, dos seus eleitores, do Estado de Israel", gritou Einav Zangauker, cujo filho é refém em Gaza.

Na quarta-feira, quatro polícias israelitas ficaram feridos num ataque com um carro de assalto a um posto de controlo em Kochav Yair, no centro de Israel, informou a polícia, acrescentando que o agressor tinha morrido.

c/ agências
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