Líder da oposição de Israel quer Egito a "assumir responsabilidade" de Gaza

Yair Lapid, ex-primeiro ministro e atual líder da oposição de Israel, apresentou esta terça-feira, em Washington DC, um plano alternativo para o "dia seguinte" de Gaza pós Hamas, defendendo a tutela egípcia alargada do enclave por um período mínimo de oito anos.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Yair Lapid, líder da oposição de Israel, reunido com o secretario de Estado dos EUA, Marco Rubio, durante a visita deste a Jeruslém a 16 de fevereiro de 2025 Evelyn Hockstein - Reuters

Nesse período, tropas egípcias seriam enviadas para Gaza juntamente com forças dos Estados do Golfo e "seriam criadas as condições para a autogovernação em Gaza e o processo de desmilitarização total de Gaza será concluído", propôs Lapid, durante um colóquio na Fundação para a Defesa das Democracias.

Ao longo dos oito anos de tutela egípcia, a Autoridade Palestiniana passaria ainda por reformas significativas na corrupção, no apoio ao terrorismo e na educação, a fim de se preparar para eventualmente assumir o controlo de Gaza, sugeriu Lapid.

Já as ameaças imediatas à segurança seriam tratadas por um mecanismo conjunto Israel-Egito-EUA, após a conclusão do acordo de cessar-fogo com o Hamas e da libertação de todos os reféns detidos em Gaza. O Hamas administra Gaza desde 2007 e a tensão com Israel foi uma constante até explodir no ataque ao sul de Israel e no rapto de 250 reféns israelitas a 7 de outubro de 2023. A operação liderada pelo grupo islamita palestiniano levou a 15 meses de guerra, em que Israel devastou o território. Um frágil acordo de tréguas tem permitido a libertação de reféns mas a segunda fase das conversações, sobre o destino de Gaza, tarda em iniciar-se.

"Israel não pode concordar que o Hamas permaneça no poder", considerou Lapid, traçando depois um cenário das dificuldades quanto ao controlo do território.

"A Autoridade Palestiniana não está disposta nem é capaz de gerir Gaza num futuro próximo. A ocupação israelita não é desejável nem possível. Um estado constante de caos é ao mesmo tempo uma ameaça à segurança e um desastre humanitário", enunciou.

A única solução seria então entregar ao Egipto a responsabilidade pela gestão de Gaza durante oito anos, opcionalmente até 15 anos. 

"O Egipto é um parceiro estratégico fundamental e um aliado fiável há quase cinquenta anos", afirmou Lapid,

Atualmente, o Egito é também "um Estado sunita forte, moderado e pragmático e um ator crucial na região. O Presidente Abdel Fattah al-Sissi é uma força estabilizadora no Médio Oriente e em África. Ele é um lutador de longa data contra o fanatismo religioso", acrescentou.
Última oportunidade
A sugestão de Yair Lapid surge no mesmo dia em que as Nações Unidas consideraram estarmos "talvez perante a última oportunidade" de implementar a solução de dois Estados, Israel e Palestina.

"O Médio Oriente vive hoje uma transformação rápida, de escala e impacto incertos, mas que representa uma oportunidade histórica", disse Sigrid Kaag, enviada da ONU para o processo de paz na região, ao Conselho de Segurança.

"As pessoas da região podem sair deste período em paz, segurança e dignidade, mas também pode ser a nossa última oportunidade de alcançar a solução de dois Estados", alertou, pedindo o fim da colonização israelita da Cisjordânia e das operações militares de Isreal naquela área, assim como a manutenção do cessar-fogo atual em Gaza "a qualquer preço".

Dado que a resolução do conflito só pode ser "política", a comunidade internacional deve garantir que "Gaza continua a ser parte integrante de um futuro Estado palestiniano" e de uma unificação de Gaza e da Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, defendeu a relatora.

O destino de Gaza parece contudo cada vez mais fora desta solução.
Contraponto a Trump
De acordo com fontes israelitas, Yair Lapid já terá apresentado o seu plano aos mais altos responsáveis da Administração Trump, apesar deste ter ideias diferentes para a Faixa de Gaza. O presidente dos EUA avançou há semanas com o plano de arrasar os escombros e de criar no enclave um "resort" de luxo, levando os palestinianos que ali vivem a retirar-se para outros países vizinhos.

Egito e Líbano já recusaram a proposta de Trump, mas o Cairo poderia aceder ao plano de Lapid se, como este propõe, tal significasse ver a sua dívida externa paga pela comunidade internacional, de forma a ajudar a economia egípcia a recuperar e a apoiar al-Sissi.

Caso contrário, a "liderança do regime estará em risco. Isso é uma má notícia para nós todos", declarou o chefe da oposição de Israel.

Lapid deu o seu apoio a alguns elementos da visão de Donald Trump para Gaza, descartando a expulsão dos palestinianos do enclave e lembrando que o Egito quer evitar que estes se transfiram para o seu território.

“De notar que a proposta não contradiz a ideia apresentada pelo Presidente Trump, segundo a qual os Estados Unidos e a comunidade internacional vão reconstruir Gaza”, disse Lapid. "Muito pelo contrário. Cria as condições, as condições para a reconstrução de Gaza."

A expulsão de palestinianos de Gaza tem sido condenada pela comunidade internacional.

"Não pode haver deslocamento forçado", afirmou Sigrid Kaag. "Os palestinianos devem ser capazes de retomar as suas vidas, reconstruir e construir um futuro para Gaza", apelou a relatora da ONU para a região.

Os países do Golfo, o Egipto e a Jordânia realizaram uma cimeira “informal” em Riade na passada sexta-feira para discutir um plano alternativo ao projecto de Donald Trump, mas poucos detalhes foram divulgados.

Está prevista outra cimeira árabe no Egipto a 4 de Março.

O custo da reconstrução da Faixa de Gaza está estimado em mais de 53 mil milhões de dólares, segundo a ONU.
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