A ascensão da extrema-direita do norte ao sul da Europa

por Rachel Mestre Mesquita - RTP
Comício de abertura da campanha eleitoral do partido espanhol de extrema-direita Vox em Puerto Almerimar, El Ejido, a 6 de julho de 2023 Jon Nazca - Reuters

Em Espanha, onde se realizam este domingo eleições antecipadas, Santiago Abascal, líder do partido da extrema-direita Vox, a terceira força política no país desde 2019, poderá vir a governar em coligação com o Partido Popular, de Alberto Feijóo, na próxima legislatura, segundo os números das sondagens. Um pouco por toda a Europa, sopram ventos em direção à extrema-direita. Porquê?

Cada vez mais se fazem sentir os efeitos do recrudescimento da extrema-direita no Velho Continente: eleição após eleição, os partidos da direita moderada e da direita radical, denominados conservadores, populistas, soberanistas ou nacionalistas, têm conquistado o apoio do eleitorado.

Suécia, Itália, Finlândia, Grécia, Alemanha - multiplicam-se os países europeus que têm celebrado vitórias de pendor populista e pactos de direita e de extrema-direita nas eleições legislativas, regionais e locais dos últimos meses.

Espanha poderá ser o próximo país na lista
, com o cenário da formação de um governo partihado pelo Partido Popular (PP), de Alberto Feijóo, e o Vox, de Santiago Abascal. Isto de acordo com as possibilidades traçadas pelas sondagens e após a vitória da direita e da extrema-direita espanholas nas eleições regionais e locais de 28 de maio.

No último ano, a extrema-direita conseguiu resultados nunca antes alcançados em democracia: em Itália tornou-se a primeira força política do país, na Suécia e na Finlândia converteu-se na segunda maior de ambos os países, entrou nos governos e impôs o seu programa eleitoral, na Grécia conseguiu uma representação sem precedentes no Parlamento e na Alemanha conseguiu conquistar o seu primeiro governo regional.

Tudo começou na Suécia, em setembro do ano anterior, depois de os Democratas Suecos (SD) liderados por Jimmie Akesson - um partido conservador e nacionalista e com raízes neonazis - terem chegado ao poder, através da coligação com o partido conservador Moderados, do atual primeiro-ministro Ulf Kristersson, e se ter tornado a segunda maior força política do país.

O maior triunfo da extrema-direita na Europa, até agora, aconteceu semanas depois em Itália, com a vitória do partido conservador Irmãos de Itália (Fdl), historicamente neofascista, que venceu as eleições legislativas com 26 por cento dos votos e converteu a sua líder, Giorgia Meloni, em primeira-ministra. O domínio do Parlamento italiano só foi possível através de uma coligação com os partidos da direita tradicional, a Força Itália (Fl) do falecido Silvio Berlusconi, liderada por Antonio Tajani, e da extrema-direita da Liga Norte (LN), liderada por Matteo Salvini.
Seguiu-se a Finlândia. Depois do êxito nas eleições de abril de 2023, com 20 por cento dos votos, apenas uma diferença de 0,2 por cento para o mais votado, o movimento extremista Partido dos Finlandeses (PS), conhecido como “Verdadeiros Finlandeses”, de Riikka Purra, conseguiu entrar na coligação liderada pelo atual primeiro-ministro Petteri Orpo, do Partido de Coligação Nacional (PCN), um partido da direita tradicional.

O Partido dos Finlandeses garantiu não só o cargo de vice-primeira-ministra à líder do partido, Riikka Purra, como um terço de ministérios importantes no atual Governo. Além disso, o atual presidente do Parlamento finlandês e ex-presidente do partido Verdadeiros Finlandeses, Jussi Halla-aho, anunciou a intenção de apresentar a candidatura às presidenciais, marcadas para janeiro de 2024.

No passado mês de junho, na Grécia, com uma vitória clara (40,5 por cento dos votos), o partido conservador de direita Nova Democracia (ND), de Kyriakos Mitsotakis, garantiu um novo mandato. E a extrema-direita também aumentou a presença no Parlamento grego: entre o partido da direita cristã ortodoxa Niki, o partido neonazi Espartanos, apoiado pelo ex-líder da Aurora Dourada, e os ultranacionalistas da Solução Grega (EL), conseguiu quase 13 por cento dos votos.

O último avanço da extrema-direita aconteceu na Alemanha, onde a Alternativa para a Alemanha (AfD), de Robert Sesselmann, ganhou com 53 por cento dos votos as eleições regionais para o condado de Sonneberg, na Turíngia, no leste do país, no passado dia 25 de junho.
Em muitos outros países europeus a extrema-direita não integra governos, mas tem conseguido resultados inéditos nas últimas eleições: desde Portugal à Estónia, passando pela França, Áustria e Letónia, nas legislativas, mas também pela Bélgica, Países Baixos, Alemanha e Espanha nas regionais.
Finalmente, a ascensão da extrema-direita aparenta dirigir-se para a Península Ibérica, com um cenário de pacto entre o Partido Popular e o Vox.

O Vox pretende chegar à Moncloa
depois de ter conseguido alcançar o poder executivo nas comunidades autónomas, com o recurso a um discurso populista, nacionalista e ruralista, a promessa de luta contra a imigração e a eliminação de direitos e liberdades sociais, como a lei do Aborto, a lei da Eutanásia ou a lei de Garantia da Liberdade Sexual, “Apenas Sim é Sim”.

O líder da extrema-direita espanhola, Santiago Abascal, considera que o Chega, liderado por André Ventura, pode alcançar o mesmo poder em Portugal.
A correspondente da RTP em Espanha, Ana Romeu, assistiu ao comício do VOX em Guadalajara, na comunidade autónoma de Castela La Mancha.

Depois de anos de avanços sociais na Europa, assiste-se a um momento de reação conservadora, muitas vezes capitalizando os efeitos das diversas crises
- financeira, humanitária, energética, climática, sanitária ou ainda da guerra na Ucrânia. As forças ditas populistas assentam o discurso político nas dificuldades socioeconómicas, no desencantamento, na desconfiança das elites e na incerteza, apresentando-se como a mudança de rumo que resolve todos os problemas.

Os cidadãos da UE terão várias eleições decisivas pela frente: em Espanha, já este domingo, na Polónia, em novembro de 2023, e na Bélgica e na Europa, em junho de 2024.
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