Aliados históricos dos EUA cedem influência à China face a isolacionismo de Trump
Os líderes do Reino Unido e do Canadá "inclinaram-se perante Pequim", observou hoje o analista Bill Bishop, numa análise aos recentes contactos diplomáticos com a China, que refletem um distanciamento em relação aos Estados Unidos.
"Tivemos dois dos mais firmes aliados históricos dos Estados Unidos, dois membros da NATO [...] efetivamente, de certa forma, a inclinarem-se perante Pequim", comentou o analista no seu boletim diário Sinocism.
A visita realizada na semana passada pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, à República Popular da China - a primeira de um chefe de Governo britânico desde 2018 - ocorre num momento em que outros líderes ocidentais, como os da França, Finlândia e Canadá, também procuram reforçar os laços com Pequim, numa tendência de diversificação de alianças face à imprevisibilidade da política externa norte-americana.
Apesar de Pequim não ter anunciado concessões de relevo à delegação britânica, Starmer regressou ao Reino Unido com a redução das tarifas sobre o whisky britânico de 10% para 5% e com a promessa de novas parcerias comerciais. Uma delegação empresarial de cerca de 50 empresas, incluindo a AstraZeneca, acompanhou o chefe do Governo, tendo sido anunciado um investimento de 15 mil milhões de dólares (12,7 mil milhões de euros) na China até 2030.
A visita foi precedida pela aprovação, por parte das autoridades britânicas, de um projeto para uma nova embaixada chinesa em Londres, bloqueado durante vários anos, bem como pelo abandono de um processo judicial por espionagem que envolvia cidadãos chineses.
Para Bishop, a estratégia de Pequim não visa substituir os Estados Unidos como aliado principal destes países, mas sim "explorar o espaço deixado por fissuras" nas relações tradicionais com Washington. A visita de Starmer, tal como a do primeiro-ministro canadiano, é interpretada como um sinal de abertura para relações mais pragmáticas com dois membros da NATO e da aliança de informação "Cinco Olhos".
"A China continua a ter uma enorme vantagem em cadeias de abastecimento críticas, como as terras raras", lembrou Bishop, referindo-se ao controlo chinês sobre minerais essenciais para a indústria.
Um relatório recente do grupo de reflexão European Council on Foreign Relations (ECFR) apontou num sentido semelhante. O documento concluiu que a política externa unilateral e transacional de Donald Trump está a provocar um realinhamento global, com vários países a considerar a China um ator mais previsível e, em certos casos, mais confiável do que os Estados Unidos.
Segundo o ECFR, apenas 16% dos europeus veem hoje os EUA como um aliado confiável. Entre os inquiridos em 21 países, apenas 10% acreditam que os EUA terão mais influência no mundo dentro de 10 anos, enquanto 36% apostam na China. O relatório sublinhou ainda que muitos cidadãos, tanto na Europa como no chamado Sul Global, já não vêem o mundo dividido entre dois blocos rivais, mas sim como um espaço multipolar, onde é possível manter boas relações com ambas as potências.
Para Bishop, o objetivo da China não é virar aliados ocidentais contra Washington, mas sim aproveitar as divisões que se alargaram. "Não se trata de os virar contra os Estados Unidos, mas sim de expandir o espaço de influência e negociação", afirmou.