As crianças de terra e de lata da ADDHU

A aventura de embarcar numa associação humanitária no Quénia começou durante uma viagem ao Nepal. Laura Vasconcellos é o rosto principal da ADDHU - Associação para a Defesa dos Direitos Humanos. Em conversa com a RTP, explica por que razão vive para esta causa. Mostra-se triste com o facto de a pobreza infantil ser ainda uma realidade no século XXI.

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Com uma missão atual bem definida, a ajuda humanitária, a ADDHU nasceu como associação. Tornou-se uma ONGD (Organização Não Governamental para o Desenvolvimento) pouco tempo depois de se instalar no Quénia.

À frente desta associação que visa ajudar parte da comunidade infantil em Nairobi, no Quénia, está uma portuguesa: Laura Vasconcellos."Toda esta ideia surgiu sobretudo de alguma preocupação, não vou dizer revolta, porque revolta é muito duro, não é bem isso, de alguma preocupação pelos Direitos Humanos constantemente violados numa série de países que eu visitei".

Laura explica que toda esta aventura humanitária começou quando decidiu tomar em mãos o combate contra as violações dos Direitos Humanos que existem um pouco por todo o mundo.

Mas foi sobretudo na Ásia, durante uma viagem à Birmânia, que esta portuguesa sentiu de perto a necessidade de ajudar a população mais carenciada.

"Comecei inicialmente por tentar sensibilizar as pessoas para os Direitos Humanos. Mas foi a Birmânia que me incentivou a começar todo este processo. Mais tarde apercebi-me, depois de uma viagem ao Quénia, de que a defesa dos Direitos Humanos passa pela ajuda humanitária, sobretudo crianças".

Uma viagem-diagnóstico, explica Laura, que realizou após um pedido de ajuda que chegou de lá.

“Eu comecei a perceber que defenderia melhor os Direitos Humanos, ou também defenderia os Direitos Humanos, se aliasse a informação à ajuda humanitária. E foi isso que comecei a fazer, nos fins de 2007, princípios de 2008”.


ADDHU, uma ONGD contra a indiferença
Devidamente registada no Ministério dos Negócios Estrangeiros e reconhecida no Quénia, a ADDHU surge quase como um ato de revolta, explica Laura Vasconcellos, coordenadora da ONGD portuguesa.

Com quase dez anos de missão em Nairobi, Laura sente-se feliz com tudo o que construiu, sobretudo sempre que olha para o sorriso das crianças de "terra e de lata" que ajuda.

"Toda esta ideia surgiu sobretudo de alguma preocupação, não vou dizer revolta, porque revolta é muito duro, não é bem isso, de alguma preocupação pelos Direitos Humanos constantemente violados numa série de países que eu visitei", explica.

"Eu sempre viajei muito e isso também abre os horizontes e comecei a perceber, sobretudo quando fui à Birmânia, onde estive um mês e meio, que havia coisas que as pessoas não sabiam. Que se calhar seria melhor saberem de modo, enfim… que um indivíduo sozinho não consegue mudar o mundo, mas se formos todos e tivermos pelo menos a consciência do que se passa, talvez, eu acredito nisso, talvez as coisas mudem".


Uma população jovem
Atualmente com cerca de 47 milhões de habitantes, o Quénia, localizado na África Oriental, fronteira com o Oceano Índico, entre a Somália e a Tanzânia, apresenta ainda um forte crescimento da população desde meados do século XX.

Apesar de no final da década de 1990 o Governo local e o apoio técnico internacional terem estimulado o uso de contracetivos, devido à onda epidémica de HIV/SIDA, a taxa de fertilidade caiu de cerca desde o final dos anos 1970. Atualmente a média é de três crianças por família."Estamos numa grande crise de valores neste momento no mundo e eu prezo muito isso. E através da educação tudo se muda. Aliás, sem educação não vamos a parte nenhuma".

É nas grandes cidades que a população procura maios de subsistência.

Com fracos recursos e índices de escolaridade diminutos, grande parte da  população que chega às cidades, na busca de melhores condições de vida,  aglomera-se em bairros de lata das periferias, sobretudo junto à capital, Nairobi.

Sem recursos, meios de sustentação ou um planeamento familiar organizado, a necessidade de ter filhos torna-se quase imperativa, como forma de obtenção de rendimento familiar. As crianças caem facilmente na delinquência.

Segundo a norte-americana CIA, no ano passado 40 por cento da população queniana tinha até 14 anos de idade.


As crianças do bairro de lata
É dentro do contexto sociocultural deficitário em Nairobi que a ADDHU atua: chega a esta população com ajuda alimentar, roupa e alguma informação familiar; localiza e identifica algumas crianças em seios familiares economicamente mais deficitários, com forte potencial educativo.

Mas a esfera de atuação não se restringe aos bairros de lata. Com a crescente preocupação de dar um pouco mais a crianças identificadas com forte potencial humano, a ADDHU construiu um centro comunitário que alberga 33 menores e que dá pelo nome de Wanaleia.

Trata-se de um espaço de acolhimento e ensino registado pelo pelo departamento de menores do Governo queniano, que Laura refere como obrigatório, visto que "é importante trabalhar dentro da lei nestes países, sob o risco de não se chegar a lado nenhum".

"Mesmo assim ficamos sujeitos a corrupção, chantagem, etc.", desabafa.

"Um centro que só existe devido a permanente perseverança na procura de soluções económicas para alimentar este sonho", refere Laura Vasconcellos.
Donativos são fonte de financiamento
A fonte de financiamento da ADDHU é o cidadão comum, porque a coordenadora deste projeto comunitário acredita que é através dester que se pode chegar a algum lado.

"Evidentemente que nós precisamos de ajuda, sobretudo financeira. Nada disto se faz sem a ajuda financeira. E há uma coisa que as pessoas Às vezes têm um bocadinho de dificuldade em entender: mas não podemos mandar leite para o Quénia? Não, não podem. Não passa, fica na alfândega, não dá. Há leite no Quénia. Nós precisamos é de dinheiro para comprar o leite".

"As pessoas têm uma certa desconfiança, eu percebo, mas tudo isto passa pela ajuda do cidadão comum, que é aquele que ajuda com o coração, porque acredita na mudança, porque acredita que pode fazer a diferença. Portanto nós prezamos muito a ajuda que temos, que é praticamente exclusiva do cidadão do mundo", frisa.


Laura Vasconcellos, de 63 anos, casada e com dois filhos, refere que “há que fazer dos jovens em Portugal, como no Quénia, agentes de mudança”.

E porque não aproveitar os recursos doados e trazê-los para Portugal? Laura é perentória e diz: “Disparate. É o país deles. Porque é que eu tenho de os trazer para aqui, se eu posso fazer lá um trabalho, que os vai ajudar a ter uma vida mais digna e que também vai ajudar o país no futuro. Esta é a minha visão”.
Trabalho voluntário e com poucas ajudas
Laura Vasconcellos diz que só em Nairobi há 300 mil crianças, meninos de rua, que não vão à escola, porque esta é paga. “Porquê? Porque não há escolas públicas no Quénia, assim como não há saúde pública”.

A coordenadora da ADDHU refere que mesmo as escolas primárias que são entre aspas públicas, existe uma propina a pagar: "São péssimas como escolas, sem condições, a maioria sem casas de banho, têm que ir ao mato ou onde quer que seja, e depois todos eles têm que usar uniformes".

"Portanto há sempre gastos que estão inerentes à ida à escola. E esses gastos, como a família não tem dinheiro, não pode suportar. Portanto não vão para a escola. Com a premissa de ajudar quem não consegue chegar surge a ADDHU”, diz.

“Nós damos escola e alimentação. Porquê? Porque se não dermos alimentação os miúdos não vão à escola. Porque os pais mandam os miúdos para a escola, porque sabem que eles comem e se ficarem em casa não têm comida".

"Aliando estas duas coisas, um miúdo, no bairro de lata, custa-nos dez euros por mês, 33 cêntimos por dia, de facto", faz notar a responsável pela ADDHU.

"No centro Wanaleia é diferente, porque aí os miúdos não têm casa. Somos nós a família, portanto temos de pagar a renda da casa, a luz, o gás, a alimentação, tudo, tudo, as escolas, as propinas, os uniformes, tudo o que é preciso. Os desodorizantes, o champô, essas coisas todas, não é? Aí cada padrinho dá 55 euros por mês".

O centro tem funcionários, mas grande parte do trabalho é administrativo. É graças ao sistema de voluntáriado que a complementaridade é feita e muito do trabalho educativo com as crianças é realizado por esta mão de obra preciosa."Uma coisa a que estes miúdos não estão habituados é brincar. Porque nunca puderam brincar, nunca tiveram a oportunidade de brincar nem sabem muitas vezes brincar".

O voluntariado sobretudo é sobretudo português, diz Laura: "À vontade, 90 por cento da ajuda que temos é de Lisboa para cima, para o norte. Portanto temos muitos voluntários que vêm do norte. Isto até dava um estudo sociológico interessante".

O que fazem os voluntariados no dia-a-dia nestas populações?

"O que eles podem oferecer mais, para além desta ajuda material, visto que estão a ajudar a construir ou a fazer qualquer coisa, é trazer a presença do outro, do diferente, do mundo exterior aqueles miúdos, que de outra maneira não tinham. Adoram, os miúdos adoram ter lá voluntários. Porque vêm de Portugal, vêm da Europa, que fantástico".

Um desencanto

A coordenadora do projeto humanitário mostra-se ainda mais preocupada quando caem por terra promessas de ajuda, porque os proponentes até "acham giro" ajudar, mas deixam de pagar por desencanto.

"Embora eu tenha muitos padrinhos, que já são padrinhos das minhas crianças há oito anos, desde que as primeiras entraram, umas vão saindo e entrado outras, uns que acham muita graça começam a doar, mas depois passado três ou quatro meses não é que não acreditem, mas desencantam-se. Um desencantamento que às vezes me custa entender".

Que desencanto é esse?

"O desencantamento é que deixam de pagar, deixam de se interessar. Nem sempre por dificuldades financeiras, porque às vezes até são pessoas que eu conheço e nem sempre por dificuldades financeiras. Não lhes apetece mais, pronto. Ah, já dei. Já dei quatro ou cinco meses, já chega. Mas não é bem assim, porque quando você toma a responsabilidade de apoiar uma criança, tem de ser até ela ter a escolaridade obrigatória, não é? No Quénia é o liceu todo até ao fim", enfatiza Laura.

"Saiu este ano a minha primeira menina que acabou o liceu. Tinha os avós em Nakuro. Foi ter com os avós. O Quénia não consegue arranjar qualquer tipo de emprego, nem numa loja, sem ter o ensino completo, portanto o secundário. Tudo isso custa dinheiro".

"As pessoas têm de ter a consciência de pelo menos tentar. Porque repare: cinquenta e cinco euros é dinheiro, é sim senhor, mas isto dividido por 11 pessoas são cinco euros por pessoa".

Laura Vasconcellos até admite que as que as pessoas não queiram dar dinheiro e não é por serem más: "Falta-lhes esse impulso ainda".

Xenofobia e racismo
Laura Vasconcellos considera, nesta entrevista à RTP, que a sociedade atual está cada vez mais xenófoba e racista. Com os constantes atentados, migrações em massa e falta de emprego, governos e população tendem a fechar-se sobre políticas pouco humanitárias.

Um dos sinais desta fobia é o decréscimo na ajuda voluntária e internacional. Laura diz que as coisas não estão fáceis, mas acredita no bom senso da humanidade.

"Eu sou uma pessoa positiva. Acredito que as pessoas são boas e acredito no bom senso da humanidade. E na ajuda ao próximo. Há-de sempre haver alguém que ajude o próximo. E eu espero que sim".

"Eu neste momento faço parte do Alto Comissariado para as Migrações na Comissão contra o Racismo e deparo-me com situações que me são relatadas e que eu reporto à Comissão para que sejam analisadas", adianta.
Educar os mais novos

Laura compreende a argumentação, mas tem de haver uma mudança de mentalidade e educação: "Por exemplo, você vive em França e tem regulamente escaramuças com jovens que até nasceram em França, mas que são descendentes de tunisinos, da Nigéria, desses países, não é? Muçulmanos. As pessoas estão um bocadinho fartas disso".

"Aqui em Portugal também dizem: ai não sei o quê, porque quando há problemas é sempre um preto, ou um cigano. Eu percebo que as pessoas tenham receio e que queiram recuperar a sua paz de espírito e o seu sossego. Eu percebo, mas não é através de fechar as portas a essas pessoas. É precisamente o contrário. É abrir as portas e tentar educar as pessoas que estão daqui para receber o outro".

Porque todas estas coisas que acontecem no mundo hoje em dia, que provocam milhares de refugiados, são situações que de certa forma são provocadas pelo Ocidente. Pelo comércio, pelo tráfico de armas, pelos interesses económicos e financeiros. Sejamos honestos".

"Mas há que abrir a mente. Sobretudo nos jovens, dar-lhes a conhecer, e os jovens são permeáveis, muito permeáveis. Muito mais do que as pessoas pensam. Aqui em Portugal, muito mais", vinca.


Porquê África?
E porque não apostar na resposta às carências em Portugal? Confrontada com a pergunta, Laura Vasconcellos admite essa realidade nacional. Só que para a presidente da associação humanitária a pobreza no país em nada se assemelha à realidade dos países em desenvovimento.

"Nós temos um sistema de saúde público bom. Não se queixem, porque não viram o outro lado da medalha. Temos saúde pública, escola pública. Eu estive em escolas, no mês de dezembro, porque é o mês dos Direitos Humanos, eu vi escolas no norte de Portugal em pequenas povoações fantásticas. Com tudo", acentuou.

"Porque também há fome em Portugal. Meus amigos, vamos ver e vamos definir fome, okai?", desafia.

"É preciso ser grato por aquilo que se tem. Porque quando se vê o reverso da medalha - uma criança de dois anos e meio que foi violada por não sei quantos miúdos de 14 anos, o rapazinho foi violado por rapazinhos e que o deixaram quase à morte com uma parte do intestino de fora, num monte de lixo, num bairro de lata - é que uma pessoa começa a pensar", relata.

"Mas afinal também há gente para ajudar em Portugal? Há. Mas há meios. Acionem os mecanismos que conseguem. Agora dá trabalho. Tem de acionar os mecanismos, não cai do céu. Ali [em Nairobi] não há mecanismos. Não há nada, nada".

Entre as prioridades de Laura Vasconcellos para o futuro está uma maior presença da coodenadora no centro comunitário queniano. Laura diz que é impossivel voltar atrás com este projeto humanitário e afirma querer ainda apostar em novas vertentes.

Quando um dia se reformar, explica com um sorriso, gostaria de ficar no Quénia, com uma pequena casa junto ao mar e a visita permanente das crianças, nessa altura adultas, que irá sempre querer ajudar.

Mais informação sobre esta instituição humanitária presente no Quénia em www.addhu.org.

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