"Bom momento". Starmer reforça relações com China em visita a Pequim
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse ao presidente chinês, Xi Jinping, que deseja construir uma “relação sofisticada” entre os dois países.
O encontro dos dois líderes aconteceu esta quinta-feira em Pequim.
Num dos quatro dias da visita de Keir Starmer à China - a primeira de um primeiro-ministro britânico em oito anos - cerca de três horas de encontro com Xi Jinping apontam para uma reaproximação do Reino unido com o colosso asiático. Isto num contexto em que o presidente norte-americano Donald Trump agita as relações globais.
“A China é um interveniente vital no cenário global, e é essencial que construamos uma relação mais sofisticada, na qual possamos identificar oportunidades de colaboração, mas, é claro, também permitir um diálogo significativo sobre áreas em que discordamos”, referiu Starmer a Xi Jinping no início da reunião.Perante as dificuldades enfrentadas para alcançar o crescimento económico prometido, o primeiro-ministro britânico- eleito a julho de 2024- priorizou a melhoria das relações com a segunda economia do mundo.
O presidente chinês mostrou-se recetivo ao discurso de Starmer. "Podemos alcançar um resultado que resista ao teste da história", disse.
O gabinete do primeiro-ministro do Reino Unido declarou que os dois países irão manter “um diálogo franco e aberto sobre as áreas de divergência”, segundo a BBC.
Xi Jinping acrescentou que as relações com o Reino Unido atravessaram “reviravoltas” que não foram ao encontro dos interesses de nenhum dos dois países e que a China está agora pronta para desenvolver uma parceria a longo prazo. Segundo a Reuters, o almoço foi também marcado por temas como futebol inglês- paixão comum aos dois países- e Shakespeare.
Entre alguns dos temas discutidos estão a estabilidade global, o crescimento e as mudanças climáticas.
Starmer partilhou com os jornalistas no final da reunião, que houve ainda progressos nas negociações para reduzir tarifas sobre o whisky britânico e a isenção de vistos para viagens à China.
O primeiro-ministro britânico viajou acompanhado por mais de 50 líderes britânicos e ainda irá reunir-se, no decorrer desta quinta-feira, com o primeiro-ministro chinês Li Qiang.
Espera-se que o dia termine com uma sessão onde Starmer e Li assinam uma série de acordos, antes de seguirem para o jantar.
Os desafios da incerteza dos EUA
Starmer é o líder ocidental a intensificar mais recentemente os esforços diplomáticos com a China, num contexto em que várias potências procuram proteger-se da imprevisibilidade da Administração de Donald Trump.A iniciativa surge num momento de tensão entre Washington e os seus aliados tradicionais. As ameaças recorrentes de Trump de impor tarifas comerciais e a promessa de assumir o controlo da Gronelândia- território autónomo da Dinamarca- têm causado desconforto entre parceiros históricos como o Reino Unido.
A visita de Starmer a Pequim acontece logo após a do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, que assinou um acordo económico com a China, no passado domingo, para eliminar barreiras comerciais. Esta foi uma decisão que não agradou ao governo norte-americano que desacredita que Carney “esteja a fazer o melhor pelo povo canadiano", segundo uma entrevista citada pela agência espanhola EFE.
Confrontado sobre a questão de saber se considera Xi um parceiro fiável, Starmer respondeu de forma direta que “sim”.
O encontro, descreveu, decorreu num clima positivo e informal e foi também marcado pela oferta do primeiro-ministro do Reino Unido a Xi Jinping, uma bola de um jogo entre o Manchester United - clube preferido do presidente chinês - e o Arsenal, equipa apoiada por Starmer, segundo a Reuters.A visita do líder britânico a Pequim assinala uma mudança de estratégia face à linha seguida por governos conservadores anteriores, que impuseram limites ao investimento chinês por razões de segurança e denunciaram a repressão política em Hong Kong.
“Fiz a promessa há 18 meses, quando fomos eleitos para o Governo, de que faria a Grã-Bretanha voltar a olhar para o exterior”, afirmou Starmer, sublinhando que as decisões tomadas no estrangeiro influenciam diretamente o custo de vida e a segurança interna.
A nova abordagem foi criticada pela líder da oposição conservadora, Kemi Badenoch, que afirmou que não teria realizado a visita, alegando riscos associados à China.Os serviços de informação britânicos mantêm que Pequim desenvolve atividades regulares de espionagem, acusações rejeitadas pelas autoridades chinesas.
Apesar das reservas, Londres e Pequim anunciaram uma cooperação no combate às redes de imigração ilegal, com especial atenção ao uso de motores produzidos na China em pequenas embarcações, utilizadas na travessia do Canal da Mancha.Os dois países vão partilhar dados sobre cadeias de fornecimento, identificar rotas usadas por traficantes e trabalhar com fabricantes chineses para impedir que empresas legais sejam usadas por grupos criminosos.
Starmer confirmou ainda que abordou com Xi, de forma “respeitosa”, o caso de Jimmy Lai, empresário dos meios de comunicação social de Hong Kong e cidadão britânico, condenado em dezembro do ano passado por crimes contra a segurança nacional.À chegada a Pequim, na noite de quarta-feira, o primeiro-ministro britânico jantou no mesmo restaurante que recebeu Janet Yellen, do Departamento do Tesouro dos EUA, durante a sua visita à China em 2023.
Segundo a Reuters, foi divulgado um vídeo na rede social chinesa Weibo, em que se pode ver Starmer a praticar a pronúncia de “xie xie”, expressão chinesa para “obrigado”, enquanto interagia com funcionários do restaurante. O episódio ilustra o tom informal com que Londres procura relançar a relação com Pequim.
c/ agências