Borrell questiona apelos dos EUA à contenção a par das armas para Israel

por Inês Moreira Santos - RTP
"A UE não está a fornecer armas a Israel, outros estão" Sergey Dolzhenko - EPA

O alto representante da União Europeia para a Política Externa admitiu esta segunda-feira estar "muito preocupado" com o anúncio, por parte de Benjamin Netanyahu, de uma ofensiva sobre Rafah sem plano de evacuação. A caminho de uma reunião com representantes da agência da ONU para os refugiados palestinianos (UNRWA), Josep Borrell criticou também a postura dos Estados Unidos, que apelam à contenção em Gaza mas continuam a fornecer armas ao Estado hebraico.

"Estou feliz por saber que dois reféns foram libertados, mas também estou muito preocupado com a situação na fronteira com o Egito, onde parece estarem a decorrer novas operações militares por parte das forças israelitas”, afirmou Borrell aos jornalistas, em reação ao anúncio israelita de que operacionais do exército, do Shin Beth - serviço de segurança interna - e da polícia libertaram dois reféns do Hamas.

Mas as preocupações do diplomata europeu mantêm-se: “Netanyahu tem pedido a retirada de 1,7 milhão de pessoas sem dizer para onde essas pessoas podem ser levadas”.

Além disso, considerou que a “situação com o Egito é muito tensa”
e admitiu estar “extraordinariamente preocupado”.

"Até o presidente dos EUA disse ontem [domingo] que as operações [militares de Israel] já são desproporcionadas, excessivas, que o número de vítimas mortais é intolerável", sustentou o chefe da diplomacia europeia, à entrada para uma reunião com os ministros da UE com a pasta do desenvolvimento, em Bruxelas.No domingo, Joe Biden pediu ao primeiro-ministro de Israel que garantisse a segurança dos 1,3 milhões de palestinianos concentrados em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, cidade anunciada como próximo alvo de operações militares israelitas.

Num telefonema com Benjamin Netanyahu, o presidente norte-americano "reafirmou a opinião de que uma operação militar em Rafah não deve prosseguir sem um plano credível e exequível para garantir a segurança e o apoio ao mais de um milhão de pessoas que aí se encontram abrigadas”.

A população desta cidade, perto da fronteira egípcia, mais do que quintuplicou nas últimas semanas, com a chegada de centenas de milhares de pessoas que fogem da guerra. Mais de 1,3 milhões de palestinianos refugiaram-se ali e a comunidade internacional está preocupada com a sua proteção após Netanyahu ter ordenado ao exército, na sexta-feira, que preparasse uma ofensiva em Rafah.
Borrell pede “mais do que palavras”
“O número de pessoas mortas (…) é insuportável”, disse Josep Borrel antes da reunião com a UNRWA, acrescentando que o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, estava “a implorar” a Netanyahu “para parar de matar pessoas”.

O chefe da diplomacia europeia pediu, por isso, a Washington "mais do que palavras".

"A UE também acredita que o número de vítimas mortais é intolerável, há possibilidade de o fazer baixar? A UE não está a fornecer armas a Israel, outros estão", acrescentou.

Nas últimas horas, uma vaga de bombardeamentos noturnos das Forças de Defesa de Israel sobre Rafah, no sul da Faixa de Gaza, matou perto de uma centena de palestinianos. A cidade próxima da fronteira com o Egito é agora o foco da máquina de guerra do Estado hebraico.

O Governo de Israel afirmou que a operação da última noite é parte de um plano destinado a libertar reféns capturados pelo movimento radical palestiniano a 7 de outubro. O Hamas, por sua vez, já veio avisar que ações deste tipo vão minar quaisquer possibilidades de um novo acordo para a libertação de mais cidadãos israelitas cativos – mais de uma centena permanecem em condições incertas

Entretanto, os governantes europeus reúnem-se esta segunda-feira com o subsecretário-geral das Nações Unidas e responsável pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA) Philippe Lazzarini.

O responsável da principal agência das Nações Unidas com a missão de apoiar a população palestiniana vai fazer um ponto de situação sobre as contribuições para a organização e também o inquérito que está em curso para averiguar a alegada participação de elementos da organização nos atentados de 7 de outubro de 2023 em Israel. A acusação foi feita por Telavive e levou vários países a suspenderem o apoio à agência.

Portugal e outros países optaram pelo reforço das contribuições, face à suspensão do financiamento de outros países, como o Reino Unido e a Alemanha.

c/ agências
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