Mundo
Cazaquistão. Ex-chefe de segurança detido por "alta traição", Presidente garante situação estabilizada
Após vários dias de tumultos, o antigo responsável da agência de segurança nacional do Cazaquistão, Karim Massimov, foi detido sob suspeita de "alta traição". A informação é avançada pela agência de segurança do país no mesmo dia em que o Kremlin confirma que Presidente russo, Vladimir Putin, e o homólogo cazaque, Kassym-Jomart Tokayev, conversaram sobre a atual situação de crise num "longo" telefonema.
O Comité de Segurança Nacional (KNB) anunciou este sábado que o ex-diretor daquele órgão, Karim Massimov, de 56 anos, foi detido na última segunda-feira por suspeitas de “alta traição”.
Para além de ter chefiado a agência de segurança nacional, Massimov foi por duas vezes primeiro-ministro do país, tendo trabalhado em estreita colaboração com o ex-Presidente do país, Nursultan Nazarbayev.
A notícia surge no mesmo dia em que Moscovo confirma que Vladimir Putin e o Presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, estiveram em contacto numa “longa” conversa telefónica. O líder cazaque assegurou ao Kremlin que a situação no país está agora a estabilizar após vários dias de caos.
O Presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, ordenou nos últimos dias que as suas tropas “disparem para matar" sem aviso prévio contra os manifestantes, que considerou tratarem-se de “bandidos” e “terroristas”.
Na quinta-feira, um contingente de tropas da Rússia e de outros países aliados chegou ao país para assegurar a proteção de edifícios estratégicos, no âmbito da aliança militar da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, que abrange a Rússia e outras repúblicas ex-soviéticas.
Os protestos, que começaram no último domingo, visavam inicialmente o aumento dos preços do gás liquefeito - um dos combustíveis mais utilizados nos transportes do país - mas depressa se transformou num amplo movimento de contestação ao atual Governo de Takayev, no poder desde 2019, a quem acusam de estar sob a esfera de influência russa, mas também do ex-Presidente.
No telefonema com Vladimir Putin, o Presidente cazaque garantiu que a situação no país já começa a estabilizar, mas admitiu que os "terroristas" continuam a "atacar" em alguns locais.
Após vários dias de violência, as forças de segurança parecem ter recuperado o controlo nas ruas da principal cidade do Cazaquistão, Almaty.
De acordo com as agências Reuters e France Presse, algumas empresas e postos de abastecimento reabriram este sábado sob vigilância das forças de segurança, mas foram ouvidos ainda alguns disparos junto à praça principal da cidade.
O aeroporto de Almaty deverá permanecer encerrado pelo menos até domingo.
O enviado especial da BBC a Almaty conta que o cenário na cidade, na última sexta-feira, parecia retirado de “um filme sobre o apocalipse”.
“A conduzir à deriva pela cidade na sexta-feira, o cheiro a veículos queimados ainda pairava no ar. Poucas pessoas estavam cá fora, muitas estão com medo de sair à rua”, conta o enviado Abdujalil Abdurasulov.
Tensão Rússia-Ocidente
Em resposta à crise no Cazaquistão, a Alemanha anunciou no sábado que vai suspender as exportações de armas para o país. Uma proibição residual, no valor de 2,2 milhões de euros , mas “necessária”, de acordo com um porta-voz do ministério alemão da Economia, em declarações à agência France Presse.
Por sua vez, o Presidente chinês, Xi Jinping, elogiou as medidas “fortes” adotadas pelo homólogo cazaque em resposta a estes protestos.
Já os Estados Unidos, pela voz do secretário de Estado, Antony Blinken, admitiram preocupação com a situação no país, nomeadamente à luz da intervenção de tropas russas.
“Parece-me que as autoridades e o Governo do Cazaquistão têm capacidade para lidar com os protestos de forma adequada, respeitando os direitos dos manifestantes mas ao mesmo tempo mantendo a lei e a ordem. Por isso, não é perceptível a razão pela qual tiveram a necessidade de pedir ajuda externa. Estamos a tentar saber mais sobre este assunto”, afirmou o chefe da diplomacia norte-americana aos jornalistas.
A tensão no Cazaquistão surge na véspera de um momento crítico nas relações entre a Rússia e o Ocidente. Na próxima semana decorrem negociações entre Moscovo e Washington sobre a crise na Ucrânia, depois da mobilização de tropas russas nos últimos meses para perto da fronteira.
A Rússia nega as acusações ocidentais de que está a preparar uma invasão ao país, mas exige garantias de que a NATO não irá procurar expandir-se para leste.