Cazaquistão. Mais de 160 mortos e quase 6.000 detenções nos protestos dos últimos dias

O Governo do Cazaquistão garantiu este domingo que a situação no país já se encontra "estabilizada" após os protestos violentos dos últimos dias. As autoridades cazaques adiantam ainda que houve 5.800 detidos em resultado das manifestações e pelo menos 164 mortos.

RTP /
Pavel Mikheyev - Reuters

Os tumultos dos últimos dias provocaram pelo menos 164 mortos. De acordo com a agência France Presse, este último balanço das autoridades cazaques não foi verificado de forma independente.

Só na cidade de Almaty, onde ocorreram os distúrbios mais violentos, morreram 103 pessoas, indicou a imprensa local com base nas informações do Ministério da Saúde.

A presidência do Cazaquistão indicou este domingo que 5.800 pessoas foram detidas, incluindo “um número significativo de estrangeiros”, no âmbito de 125 diferentes investigações aos tumultos dos últimos dias.

Durante uma reunião do gabinete de crise este domingo, o Presidente Kasim-Yomart Tokayev foi informado de que " a situação estabilizou” em todas as regiões do país.

"As forças de segurança libertaram todos os edifícios administrativos e restabeleceu-se o trabalho dos serviços públicos e outros sistemas básicos", informou a Presidência, em comunicado.

No entanto, o regresso à normalidade faz-se entre os escombros visíveis dos protestos. O Ministério cazaque do Interior, citado pela imprensa local este domingo, indica que os danos materiais causados pela violência dos últimos dias foram estimados inicialmente em cerca de 175 milhões de euros.

Mais de 100 empresas e bancos foram pilhados e mais de 400 veículos destruídos. A Presidência liderada por Tokayev adiantou que será criada uma comissão constitucional para liquidar as consequências dos distúrbios, o que inclui a reconstrução de edifícios públicos e outras instalações fundamentais para o funcionamento das cidades afetadas.

O aeroporto de Almaty deveria reabrir esta segunda-feira, mas deverá permanecerá fechado "até que a situação se estabilize", disseram as autoridades no domingo.

A calma relativa parece ter voltado a Almaty desde sábado, com a polícia a disparar alguns tiros ocasionais para evitar que os moradores se aproximassem da praça central da cidade, observou um correspondente da agência France Presse.

No entanto, de acordo com o responsável municipal de Almaty, Erzhan Bakakumarov, aquela cidade continua a ser o centro da resistência dos manifestantes, onde estão a ter lugar confrontos esporádicos entre a polícia e grupos de homens armados.

"Os guerrilheiros continuam a oferecer resistência armada. Há sinais de estabilização, mas também há focos de resistência", disse Erzhan Babakumarov à televisão cazaque Jabar 24.

Ainda assim, indica que a última noite já foi "relativamente tranquila", pelo que já começaram os trabalhos de reparação do mobiliário urbano e dos mercados, adiantou ainda.

O Presidente cazaque, Kasim-Yomart Tokayev, recusou qualquer diálogo com os manifestantes, tendo na última sexta-feira autorizado as autoridades e forças de segurança a “disparar para matar” durante os protestos.

No último sábado, as autoridades cazaques anunciaram a detenção do ex-diretor dos serviços de segurança, Karim Massimov, a primeira grande figura detida sob suspeita de “alta traição”.

Os protestos, que começaram há precisamente uma semana, no primeiro domingo do ano, e visavam inicialmente o aumento dos preços do gás liquefeito - um dos combustíveis mais utilizados nos transportes do país - mas depressa se transformaram num amplo movimento de contestação ao atual Governo de Tokayev, no poder desde 2019.

Os manifestantes pedem mudanças e acusam o atual Presidente de estar sob a esfera de influência russa, mas também de antigas lideranças.

Nursultan Nazarbayev foi Presidente do país por várias décadas e a família do ex-chefe de Estado continua a ser uma das mais poderosas da cidade de Nursultan, a capital do país a que dá o nome.

Na quinta-feira, um contingente de tropas da Rússia e de outros países aliados chegou ao país para assegurar a proteção de edifícios estratégicos no âmbito da aliança militar da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, que abrange a Rússia e outras repúblicas ex-soviéticas.

A situação no Cazaquistão vem adensar ainda mais a tensão entre Estados Unidos e Rússia numa semana importante para as negociações entre Moscovo e Washington sobre a situação de tensão na Ucrânia.

No entanto, o Kremlin já veio indicar que não pretende falar do Cazaquistão nas negociações que se iniciam este domingo em Genebra.

“O que iríamos discutir com os americanos [sobre o Cazaquistão]? Esse é um assunto que não nos preocupa”, disse Sergei Riabkov, vice-ministro russo dos Negócios Estrangeiros, em declarações à agência de notícias Interfax.

(com agências internacionais)
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