Clima. Sistema da Corrente do Golfo pode colapsar já em 2025

Um estudo publicado esta terça-feira na revista Nature admite que o sistema de Circulação Meridional do Atlântico, AMOC, que integra a Corrente do Golfo, pode entrar em colapso em qualquer momento já a partir de 2025, muito antes do apontado em previsões anteriores. O evento deverá provocar alterações profundas no clima do Hemisfério Norte do planeta e por extensão em todo o globo.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Nadador em La Jolla, Califórnia, a 26 de julho de 2026 Mike Blake - Reuters

De acordo com as conclusões de uma equipa da Universidade de Copenhaga, a análise estatística de diversas variáveis coloca o ponto de não retorno da alteração do AMOC algures em torno de 2050, num intervalo entre 2025 e 2095, se se mantiverem as atuais emissões de gases com efeito de estufa.

"Penso que devíamos estar muito preocupados", afirmou o professor Peter Ditlevsen, que liderou o estudo. "Isto seria uma mudança muito, muito grande. O AMOC não se desligou nos últimos 12.000 anos".

O sistema de Circulação Meridional do Atlântico transporta águas tropicais quentes para o Ártico, onde arrefecem e afundam, correndo depois para o sul. Atualmente esta corrente é rápida e forte. Pode contudo enfraquecer e abrandar, alterando o clima, como já sucedeu noutras épocas, de acordo com estudos paleoclimáticos.

O AMOC já colapsou e recomeçou diversas vezes ao longo das idades do gelo que ocorreram entre 115.000 e 12.000 anos atrás.

Um colapso do ritmo atual do AMOC teria consequências dramáticas para o planeta e os ecossistemas oceânicos como um todo, afetando gravemente a precipitação na Índia, na América do Sul e na África Ocidental e levando à descida em até 10º das temperaturas na Europa, ao incremento da frequência de tempestades e à subida do nível do mar na costa leste dos Estados Unidos da América. Poderia igualmente afetar negativamente a floresta tropical da Amazónia e os lençóis de gelo da Antártida.

Estudos anteriores detetaram já que a circulação das águas no AMOC está a desacelerar. Em 2021, uma análise publicada na revista Nature, concluiu que o AMOC abrandou de forma significativa nos últimos 150 anos, face aos anteriores 1500, estando no seu ponto mais lento em 1600 anos.

Há dois anos, o Sexto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, colocava contudo a ocorrência do ponto crítico de alteração da circulação do AMOC apenas no século XXII.

Os analistas de Copenhaga sustentam que esta data é demasiado conservadora.

"Prevemos com alto grau de confiança, que o ponto crítico poderá ocorrer tão cedo como meados do século (2025-2095 é uma conclusão com 95 por cento de confiança)" referem.

A alteração do AMOC e da Corrente do Golfo é um dos cinco pontos de não retorno das alterações climáticas, mencionados por cientistas globais, que podem estar já a ocorrer e que incluem ainda o desaparecimento dos glaciares da Gronelândia e da Antártida, o desaparecimento da floresta da Amazónia e o degelo do permafrost.

O colapso previsto do AMOC pode vir a ocorrer para já de forma apenas parcial e local, por exemplo no Mar do Labrador, os seus efeitos contudo seriam à mesma significativos.
Alteração do ciclo
O estudo de Peter e de Susanne Divletsen baseou-se em dados da temperatura oceânica à superfície coligidos desde 1870, para explicar as mudanças na força das correntes do AMOC ao longo do tempo.

Os autores sublinham esta necessidade porque a monitorização contínua do AMOC através de uma combinação de instrumentos de medição, só se iniciou em 2004. Entre esse ano e 2012 "foi observado um declínio do AMOC, mas são necessários mais anos de registos para compreender o significado" do fenómeno, explicam no artigo, admitindo ainda que as suas conclusões possam ter de ser revistas caso "estejam a intervir outros mecanismos" no processo de recolha de dados.

Os analistas mapearam então as informações num sistema de previsão de um ponto particular de mudança matemática conhecido como "bifurcação de ponto de sela". Os dados corresponderam "surpreendemente bem", afirmou Ditlevsen ao Guardian. A extrapolação da análise permitiu estimar a ocorrência provável do ponto crítico. 

A incerteza da estimativa tem sido contudo apontada por outros cientistas, precisamente devido à extrapolação.

A importância da temperatura da água à superfície não pode ser descartada como indicador, uma vez que ela é parte integral da dinâmica da circulação da água oceânica, a qual ocorre em ciclos de mil anos.

Em grandes profundidades, a água fria corre em direção ao Pólo Sul, curvando-se aí para norte e dividindo-se em vários braços, devido aos continentes. Estas correntes vão aquecendo e sobem à superfície, movendo-se na direção oposta à da água fria.

Ao chegar ao Árctico, em redor do Pólo Norte, a água volta a arrefecer. Como esta massa aquática oriunda do sul é mais salina do que a água no pólo, a refrigerada densifica-se e afunda-se nas profundezas, reiniciando o ciclo. A sobreabundância de água doce na área altera contudo este ritmo.

A influência das alterações climáticas no colapso do AMOC é por isso transversal à maioria dos estudos mais recentes, devido ao degelo das calotes polares sob o efeito do aumento das temperaturas globais. O influxo da água doce até agora retida nos glaciares estaria a tornar as águas do Atlântico menos densas e menos salgadas, alterando o comportamento de circulação da corrente.

A nova análise pressupõe que se mantenham as actuais emissões de gases de efeito de estufa. Ao Live Science, a bióloga Susanne Divletsen, co-autora do estudo, confessou-se mesmo assim "perplexa" com os resultados.

"Considerando que continuamos a fazer o mesmo de sempre em relação às emissões, o ponto de não-retorno esperado irá dar-se muito mais cedo do que esperávamos”, explicou.
Conclusões não-consensuais
Uma série de fatores influencia contudo toda a dinâmica oceânica para além das temperaturas à superfície da água e da salinidade desta, incluindo as massas terrestres e a pressão atmosférica, cujas flutuações causam por exemplo fenómenos como o El Niño.

Por esta razão, as conclusões do estudo dos Divletsen não são consensuais, com alguns cientistas a notar incertezas quanto à relação entre a evolução da temperatura à superfície do sistema de Circulação Meridional do Atlântico e a força com que este se move. 

Os principais críticos referem que a fundamentação física do estudo é "extremamente instável", por assentar na hipótese de que o colapso demonstrado em modelos simplificados é um retrato fiel da realidade.

Peter Divletsen defende contudo as suas conclusões. "Os nossos resultados, de certa forma, incomodam-me", referiu à Live Science. "Porque, se o horizonte temporal para o início deste possível colapso é tão curto e o seu impacto tão significativo, temos que agir imediatamente".

Em abril, maio e junho, as temperaturas de superfície do mar bateram recordes de calor, de acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Na Florida há notícia de águas a mais de 38º, acarretando perigos para os bancos de corais. E, no Atlântico Norte, em alguns locais perto da Terra Nova as temperaturas estão cinco a seis graus celsius mais quentes do que o normal.

Os efeitos destes aumentos na circulação do AMOC estão ainda por estudar.
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