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Clima. Sistema da Corrente do Golfo pode colapsar já em 2025
Um estudo publicado esta terça-feira na revista Nature admite que o sistema de Circulação Meridional do Atlântico, AMOC, que integra a Corrente do Golfo, pode entrar em colapso em qualquer momento já a partir de 2025, muito antes do apontado em previsões anteriores. O evento deverá provocar alterações profundas no clima do Hemisfério Norte do planeta e por extensão em todo o globo.
De acordo com as conclusões de uma equipa da Universidade de Copenhaga, a análise estatística de diversas variáveis coloca o ponto de não retorno da alteração do AMOC algures em torno de 2050, num intervalo entre 2025 e 2095, se se mantiverem as atuais emissões de gases com efeito de estufa.
O sistema de Circulação Meridional do
Atlântico transporta águas tropicais quentes para o Ártico, onde
arrefecem e afundam, correndo depois para o sul. Atualmente esta corrente é rápida e
forte. Pode contudo enfraquecer e abrandar, alterando o clima, como já
sucedeu noutras épocas, de acordo com estudos paleoclimáticos.
O AMOC já colapsou e recomeçou diversas vezes ao longo das idades do gelo que ocorreram entre 115.000 e 12.000 anos atrás.
Um
colapso do ritmo atual do AMOC teria consequências dramáticas para o planeta e os ecossistemas oceânicos como um todo, afetando gravemente a precipitação na Índia, na
América do Sul e na África Ocidental e levando à descida em até 10º das temperaturas na Europa, ao incremento da frequência
de tempestades e à subida do nível do mar na costa leste dos Estados Unidos da América.
Poderia igualmente afetar negativamente a floresta tropical da Amazónia e os lençóis
de gelo da Antártida.
Estudos anteriores detetaram já que a circulação das águas no AMOC está a desacelerar. Em
2021, uma análise publicada na revista Nature, concluiu que o AMOC abrandou de forma significativa nos últimos 150 anos, face aos anteriores 1500, estando no seu ponto mais lento em 1600 anos.
Há dois anos, o Sexto Relatório de Avaliação do Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, colocava contudo a ocorrência do ponto crítico de alteração da circulação do AMOC
apenas no século XXII.
Os analistas de Copenhaga sustentam que esta data é demasiado conservadora.
"Prevemos com alto grau de confiança, que o ponto crítico poderá ocorrer
tão cedo como meados do século (2025-2095 é uma conclusão com 95 por
cento de confiança)" referem.
A alteração do AMOC e da Corrente do Golfo é um dos cinco pontos de não retorno das alterações climáticas, mencionados por cientistas globais, que podem estar já a ocorrer e que incluem ainda o desaparecimento dos glaciares da Gronelândia e da Antártida, o desaparecimento da floresta da Amazónia e o degelo do permafrost.
O colapso previsto do AMOC pode vir a ocorrer para já de forma apenas parcial e local, por exemplo no Mar do Labrador, os seus efeitos contudo seriam à mesma significativos.
Alteração do ciclo
O estudo de Peter e de Susanne Divletsen baseou-se em dados da
temperatura oceânica à superfície coligidos desde 1870, para explicar as
mudanças na força das correntes do AMOC ao longo do tempo.
Os autores
sublinham esta necessidade porque a monitorização contínua do AMOC através de uma combinação de instrumentos de medição, só se iniciou em
2004. Entre
esse ano e 2012 "foi observado um declínio do AMOC, mas são necessários mais
anos de registos para compreender o significado" do fenómeno, explicam
no artigo, admitindo ainda que as suas conclusões possam ter de ser
revistas caso "estejam a intervir outros mecanismos" no processo de
recolha de dados.
A incerteza da estimativa tem
sido contudo apontada por outros cientistas, precisamente devido à extrapolação.
A importância da temperatura da água à superfície não pode ser
descartada como indicador, uma vez que ela é parte integral da dinâmica da
circulação da água oceânica, a qual ocorre em ciclos de mil
anos.
Em grandes profundidades, a água fria corre em direção ao Pólo Sul, curvando-se aí para norte e dividindo-se em vários braços, devido aos continentes. Estas correntes vão aquecendo e sobem à superfície, movendo-se na direção oposta à da água fria.
Em grandes profundidades, a água fria corre em direção ao Pólo Sul, curvando-se aí para norte e dividindo-se em vários braços, devido aos continentes. Estas correntes vão aquecendo e sobem à superfície, movendo-se na direção oposta à da água fria.
A influência das alterações climáticas no colapso do
AMOC é por isso transversal à maioria dos estudos mais recentes, devido ao
degelo das calotes polares sob o efeito do aumento das temperaturas
globais. O influxo da água doce até agora retida nos glaciares estaria a tornar as águas do Atlântico menos densas e menos salgadas, alterando o comportamento de circulação da corrente.
A nova análise pressupõe que se mantenham as actuais emissões de gases de efeito de estufa. Ao Live Science, a bióloga Susanne Divletsen, co-autora do estudo, confessou-se mesmo assim "perplexa" com os resultados.
"Considerando
que continuamos a fazer o mesmo de sempre em relação às emissões, o
ponto de não-retorno esperado irá dar-se muito mais cedo do que
esperávamos”, explicou.
Uma série de fatores influencia contudo toda a dinâmica oceânica para além das temperaturas à superfície da água e da salinidade desta, incluindo as massas terrestres e a pressão atmosférica, cujas flutuações causam por exemplo fenómenos como o El Niño.
Por esta razão, as conclusões do estudo dos Divletsen não são consensuais, com alguns cientistas a notar incertezas quanto à relação entre a evolução da temperatura à superfície do sistema de Circulação Meridional do Atlântico e a força com que este se move.
Os principais críticos referem que a fundamentação física do estudo é "extremamente instável", por assentar na hipótese de que o colapso demonstrado em modelos simplificados é um retrato fiel da realidade.
Peter Divletsen defende contudo as suas conclusões. "Os nossos resultados, de certa forma, incomodam-me", referiu à Live Science. "Porque, se o horizonte temporal para o início deste possível colapso é tão curto e o seu impacto tão significativo, temos que agir imediatamente".
Em abril, maio e junho, as temperaturas de superfície do mar bateram recordes de calor, de acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Na Florida há notícia de águas a mais de 38º, acarretando perigos para os bancos de corais. E, no Atlântico Norte, em alguns locais perto da Terra Nova as temperaturas estão cinco a seis graus celsius mais quentes do que o normal.
Os efeitos destes aumentos na circulação do AMOC estão ainda por estudar.