Coreia do Norte abandona tom conciliatório

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O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, ao lado de Kim Jong-un, o líder norte-coreano, durante uma visita a Pyongyang
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A menos de um mês do encontro histórico entre os líderes norte-americano e norte-coreano, marcado para 12 de junho em Singapura, Pyongyang avisa que todo o processo de aproximação nos últimos meses poderá ceder caso os Estados Unidos insistam num processo de desnuclearização unilateral.

As últimas semanas de progresso ao nível diplomático entre Pyongyang e o resto do mundo podem estar em risco, assim como a cimeira entre Donald Trump e Kim-Jong-un prevista para o próximo mês. Em rutura com o tipo de discurso adotado nos últimos meses, a Coreia do Norte ameaçou anular o encontro com o Presidente norte-americano, referindo-se aos exercícios militares conjuntos dos Estados Unidos e Coreia do Sul como uma “provocação”.

Num comunicado publicado pela agência noticiosa estatal norte-coreana KCNA, Pyongyang não está disposta a aceitar apoio e assistência económica na troca de um abandono unilateral do seu programa nuclear.

Kim Kye Gwan, um responsável do Ministério norte-coreano dos Negócios Estrangeiros citado no artigo, refere mesmo que o país “não tem a expetativa de obter da parte dos Estados Unidos “compensações económicas e benefícios em caso de abandono” das armas nucleares.

“Se eles [Estados Unidos] tentarem encostar-nos a um canto e forçar o abandono unilateral da força nuclear, não estaremos mais interessados neste tipo de conversações e temos de reconsiderar a cimeira que se aproxima”, disse ainda o responsável.

Na declaração norte-coreana, faz-se um aviso direto a Donald Trump para que não siga “os passos dos seus predecessores”. Ao recusar-se a negociar com a Coreia do Norte - a menos que o país desista as suas armas nucleares – o atual Presidente “será recordado como um Presidente com menos sucesso que os seus antecessores, longe das suas ambições iniciais de sucesso sem precedentes”.
Pyongyang recusa “modelo líbio”

O comunicado desta terça-feira faz ainda referências diretas a John Bolton, o polémico assessor de Donald Trump para assuntos de Segurança, que se referiu recentemente à utilização do “modelo líbio” para alcançar a desnuclearização da Coreia do Norte.

Para o líder norte-coreano, as palavras de John Bolton indicam “uma tentativa de impor ao nosso Estado o destino que tiveram a Líbia ou o Iraque”, cujos regimes “colapsaram devido à cedência total dos seus países perante grandes potências”.

“É absolutamente absurdo arriscar-se a comparar a Coreia do Norte, um Estado com armas nucleares, à Líbia, que estava na altura no estágio inicial do desenvolvimento nuclear. O mundo sabe bem que o nosso país não é a Líbia nem o Iraque, que conheceram um destino miserável”, refere ainda.

Numa crítica mais pessoal, o comunicado de terça-feira destaca que a Coreia do Norte “não esconde” o sentimento de “repugnância” em relação ao novo conselheiro de Donald Trump.

A comparação da atual situação da Coreia do Norte ao “modelo líbio” não foi, de facto, a mais feliz por parte da administração norte-americana. O caso remonta a dezembro de 2003, quando o então líder Muamar Khadafi aceitou desmantelar o programa nuclear, bem como os programas de armas químicas e biológicas, ao fim de vários meses de negociação.

No entanto, oito anos mais tarde e perante uma situação caótica vivida no país, as forças da NATO ajudaram a destronar o regime déspota que regia o país desde 1969, e Khadafi acabaria por morrer às mãos dos rebeldes. Na visão da Coreia do Norte, o regime líbio teria sobrevivido à intervenção ocidental caso tivesse mantido o seu programa de armas nucleares.

O responsável norte-coreano diz no comunicado desta terça-feira que a Coreia do Norte tinha “grandes esperanças” sobre o encontro de junho, mas perante as declarações recentes, considera “lamentável que os Estados Unidos estejam a fazer provocações ainda antes da cimeira, ao fazerem estas declarações ridículas”.

Segundo a CNN, alguns analistas sugerem que o foco da declaração norte-coreana nesta questão pode ser indicativa de uma crítica cerrada a John Bolton, e que poderá servir para pressionar os Estados Unidos a afastarem o conselheiro para a Segurança apontado por Donald Trump. No passado, Bolton chegou a defender que qualquer ataque preventivo na Coreia do Norte seria “perfeitamente legítimo”.
Encontro com Seul cancelado

Também na terça-feira, as autoridades norte-coreanas decidiram desde logo anular o encontro de alto nível marcado para hoje, quarta-feira, com a Coreia do Sul, uma decisão que surge menos de três semanas depois de uma cimeira histórica que juntou Kim Jong-un e Moon Jae-in, no final de abril.

A mudança de tom e de atitude perante Seul surge na sequência de “distúrbios militares provocatórios”, em referência aos exercícios militares conjuntos entre Estados Unidos e Coreia do Sul.

Para Pyongyang, a operação “Max Thunder”, um exercício militar que acontece todos os anos e que a Coreia do Norte vê como desestabilizador da paz na Península, vai contra o espírito da declaração, assinada no mês passado, em que os dois países concordaram em cessar todas as atividades hostis mútuas.

“Este exercício tem-nos como alvo e que está a acontecer na Coreia do Sul, é um desafio flagrante à declaração de Panmunjom e uma provocação militar intencional, contrariando os desenvolvimentos políticos positivos na Península da Coreia”, refere a agência norte-coreana.

A operação Max Thunder deverá durar duas semanas e começa na próxima segunda-feira, contando com a forte participação dos Estados Unidos. Segundo o Governo sul-coreano, o líder da Coreia do Norte disse em março que “compreendia” a realização dos exercícios militares, mas que esperava que estes fossem alterados quando a situação na península fosse mais pacífica.

O encontro de ontem foi cancelado com apenas algumas horas de antecedência, quando os dois países vizinhos preparavam uma reunião bilateral na localidade fronteiriça de Panmunjom para debater a redução da tensão militar e o recomeço das reuniões das famílias separadas desde a Guerra da Coreia. O encontro servia também para lançar as negociações para o acordo de paz definitivo para este conflito, que terminou em 1953 com um armistício.
Preparativos da cimeira continuam

A reviravolta diplomática ocorrida nas últimas horas não deverá, no entanto, comprometer a cimeira do próximo mês. Num telefonema com o ministro sul-coreano dos Negócios Estrangeiros, Kang Kyung-hwa, o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, o responsável em Washington garantiu que os preparativos para a cimeira de Singapura vão continuar, sem deixar de “ter em mente” as ações recentes da Coreia do Norte.

“O ministro Kang e o secretário de Estado Pompeo concordaram em continuar a cooperação próxima entre a Coreia do Sul e os Estados Unidos de forma a atingir a completa desnuclearização e o acordo de paz na Península Coreana”, refere o comunicado de Seul.

No mesmo sentido, o Departamento de Estado norte-americano indicou que vai “continuar a avançar” com os preparativos e que os Estados Unidos “não foram notificados” de qualquer alteração, garantiu a porta-voz Heather Nauert. O Presidente Donald Trump ainda não reagiu a estas recentes declarações.

Segundo refere a BBC, a súbita mudança de tom por Pyongyang surpreendeu os responsáveis norte-americanos, com os analistas a verem nesta alteração uma tentativa de fortalecer a posição de força da Coreia do Norte antes do início das conversações.

Pyongyang sabe que qualquer cancelamento da conferência de Singapura – que seria o primeiro encontro de sempre entre um líder norte-coreano e um Presidente norte-americano – representaria um enorme falhanço daquela que poderia ser apontada como a maior conquista diplomática da Administração Trump.

Ainda que permaneçam dúvidas sobre o significado da desnuclearização para os dois países, Donald Trump tem mostrado otimismo com perante os últimos desenvolvimentos, incluindo a suspensão de testes com mísseis, o encerramento de instalações para testes nucleares, ou a libertação de três prisioneiros norte-americanos.
Pyongyang quer mostrar posição de força

Na próxima semana, o Presidente sul-coreano Moon Jae-in desloca-se a Washington para uma visita ao homólogo norte-americano. Um encontro que terá em vista a preparação da cimeira de junho, mas que deverá ter também em conta os recentes desenvolvimentos.

Agora, e após as várias cedências, a Coreia do Norte volta a abandonar a linguagem conciliatória dos últimos meses. Segundo os analistas, Pyongyang exige ser tratada de igual forma pelos pares, neste caso Washington e Seul, e não como o elo mais fraco de um acordo a que cedeu após a pressão internacional e a aplicação de sanções económicas multilaterais.

“Kim pretende participar nesta cimeira, mas os norte-coreanos estão irritados com os responsáveis da administração Trump, que sugerem que foi a pressão exercida que os trouxe à mesa das negociações”, considerou Jeffrey Lewis, um especialista em temas de proliferação nuclear, em declarações à CNN.

Já a analista da BBC Laura Bicker recorda que as aspirações nucleares da Coreia do Norte estão diretamente relacionadas com a sobrevivência do regime. “Por isso, comparar a desnuclearização da Coreia do Norte com a Líbia ou o Iraque, como John Bolton fez no passado domingo, não lhes vai dar grande conforto. Ambos os regimes colapsaram”, destaca.

A Coreia do Norte quer chegar a Singapura numa posição de força e a recente insistência por parte de Mike Pompeo, no domingo, em como os Estados Unidos estariam dispostos a manter as sanções económicas caso Pyongyang não prescinda por completo do programa de armas nucleares, não veio ajudar.

“A sugestão por parte da administração Trump que a Coreia do Norte pode ser comprada é algo que enfureceu Pyongyang. A Coreia do Norte nunca irá admitir que foi a pressão económica que forçou a desnuclearização”, sugere Tim Scharz da CNN.

Em declarações à agência Reuters, Joshua Pollack, do Instituto de Estudos Internacionais da Califórnia, considera que a predisposição norte-americana para manter as sanções, depois das várias concessões norte-coreanas, irritou os responsáveis em Pyongyang.

“Os norte-coreanos querem uma mudança no tom usado pelos Estados Unidos, e até agora não viram nada”, considera o perito.

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