Mundo
Coreia do Norte impede entrada de sul-coreanos em complexo industrial comum
A Coreia do Norte começou esta quarta-feira a impedir a entrada de trabalhadores sul-coreanos em Kaesong, um complexo industrial em território norte-coreano que é operado em conjunto pelos dois países da Península Coreana. Na véspera Pyongyang tinha anunciado a reativação de um complexo nuclear encerrado há cinco anos, onde se fabricava plutónio. É mais um passo no tenso braço-de-ferro que desde há semanas opõe o regime de Kim Jong-un aos Estados Unidos e à Coreia do Sul.
“O Norte indicou-nos esta manhã que apenas vai autorizar as partidas de Kaesong e proibir os trajetos para o complexo”, disse o porta-voz do Ministério sul-coreano da Unificação.
“O Governo da Coreia do Sul lamenta profundamente a proibição das entradas e apela a que ela seja imediatamente levantada”, acrescentou o porta-voz Kim Hyung-seok
Símbolo de cooperação e barómetro de tensões
A zona de Kaesong foi inaugurada em 2004 para servir de símbolo de cooperação entre Coreia do Norte e Coreia do Sul. No complexo industrial funcionam 120 empresas sul-coreanas que dão trabalho a 50 mil trabalhadores do Norte.
Roupas, sapatos, relógios e utensílios de cozinha são alguns dos artigos fabricados e os lucros são vistos como fundamentais para a debilitada economia norte-coreana.
Algumas centenas de empregados do Sul também operam no local numa base rotativa. As entradas são autorizadas numa base diária, mas os trabalhadores estão autorizados a pernoitar nas instalações, que ficam a cerca de dez quilómetros da fronteira.
Centenas de sul-coreanos em Kaesong
Segundo o Governo sul-coreano, Pyongyang não autorizou a deslocação dos 484 sul-coreanos que deviam hoje ir trabalhar no complexo. Dos 861 empregados do Sul que estavam nas instalações industriais, 446 tinham partida marcada, mas apenas nove tinham regressado ao seu país até às 12h00 locais.
Alguns deles terão decidido ficar voluntariamente para garantir as operações das suas empresas, por não estar assegurada a sua rendição.
Seul contempla recurso à força
Seul já avisou dispor de um plano de emergência que prevê um eventual recurso à força para garantir a segurança dos cidadãos que trabalham em Kaesong.
Não é a primeira vez que Pyongyang decide impedir os acessos à zona industrial. Em 2009 o acesso dos sul-coreanos foi proibido por um breve período, como retaliação pelos exercícios militares conjuntos que os Estados Unidos e a Coreia do Sul desenvolvem anualmente.
Nessa altura, centenas de empregados sul-coreanos ficaram retidos durante algumas noites nas instalações.
Com exceção dessa interrupção, o complexo tem permanecido aberto, apesar das sucessivas crises entre os países vizinhos. O seu funcionamento é visto como um barómetro das relações inter-coreanas e um encerramento prolongado significaria uma forte escalada nas tensões regionais.
Barragem de retórica e provocações
Pyongyang tinha ameaçado fechar Kaesong na semana passada, no contexto da retórica agressiva que se seguiu às novas sanções que o Conselho de Segurança da ONU decretou para punir ensaios nucleares e de mísseis da Coreia do Norte.
A escalada de ameaças e provocações tem sido quase diária. Ontem o regime declarou que vai reativar o reator de Yongbyon, onde foi fabricado o plutónio para o seu programa nuclear. O local tinha sido encerrado há cinco anos na sequência de negociações com a comunidade internacional.
Nas últimas semanas, o regime de Kim Jong-un também ameaçou atacar as bases americanas na Ásia e várias ilhas sul–coreanas. Antes disso, tinha declarado como inválido o tratado de cessar-fogo que terminou em 1953 a Guerra da Coreia e ameaçado lançar um “ataque nuclear preventivo” contra os Estados Unidos.
Não há movimentações anormais de militares
Apesar desta violência verbal, fontes oficiais dos EUA dizem que não há quaisquer sinais de movimentações militares anormais do Norte que indiciem preparativos para um ataque.
A maioria dos observadores acredita que estas ameaças são principalmente destinadas a consumo interno, para tentar fortalecer as credenciais do jovem líder Kim Jong-un junto da população e dos militares. Aos 29 anos, a sua liderança estará longe de se consolidar num país onde, tradicionalmente, a idade e a experiência são valores prezados na classe dirigente.
Mesmo assim, a intensidade da retórica não é habitual e prende-se provavelmente com o facto de haver também uma nova liderança na Coreia do Sul: a recentemente eleita Presidente Park Geun-hye, que Kim Jong-un pretenderá assim “testar”.
EUA respondem com demonstrações de poderio
Ao contrário de vezes anteriores, Seul e Washington não parecem estar dispostos a apostar numa política de apaziguamento. O responsável pela diplomacia americana John Kerry considerou ontem que as ações da Coreia do Norte são “perigosas” e “impensadas”.
“Deixem-me ser perfeitamente claro. Os Estados Unidos vão defender-se a si próprios e ao seu aliado no tratado, a República da Coreia”, disse Kerry após uma reunião com o seu homólogo sul-coreano, Yun Byung-se.
O secretário de Estado americano deixou também claro que os Estados Unidos “não aceitarão uma Coreia do Norte que seja um estado nuclear” e que são capazes de proteger os seus aliados na região - Coreia do Sul e Japão.
Despachados navios com sistemas antimíssil
Nos últimos dias, os Estados Unidos têm respondido à retórica norte-coreana com uma série de voos bem publicitados de aviões militares sobre a Coreia do Sul. Entre eles contam-se os avançados bombardeiros furtivos B-2 e os clássicos B-52.
Além disso, o Pentágono estacionou na região o contratorpedeiro da classe Aegis USS John McCain, equipado com um avançado sistema de defesa antimísseis e um segundo navio, o USS Decatur, foi igualmente enviado para a região.
"As coisas já foram longe demais"
Ontem, face ao avolumar das tensões, o secretário-geral da ONU, ele próprio um sul-coreano, avisou que a crise já tinha “ido longe de mais” e apelou a conversações urgentes.
“As coisas têm de começar a acalmar-se . Não há necessidade de a República Popular da Coreia estar em rota de colisão com a comunidade internacional. As ameaças nucleares não são um jogo”, disse Ban Ki-moon.
China "seriamente preocupada" apela à calma
A China, o principal aliado da Coreia do Norte, já se manifestou entretanto "seriamente preocupada" com o agravamento das tensões na península coreana. Um alto representante do governo chinês encontrou-se terça-feira com os embaixadores das duas Coreias e dos Estados Unidos para apelar à calma.
"Ontem à tarde o vice-ministro dos negócios estrangeiros Zhang Yesui encontrou-se com os embaixadores da Coreia do Norte e do Sul e dos Estados Unidos, para lhes manifestar sérias preocupações acerca da atual situação na península", disse em Pequim um porta-voz do ministério dos Negocios Estrangeiros.
"Na atual situação, a China acredita que todos os lados devem manter a calma e exercer contenção, e não tomarem ações que sejam mutuamente provocativas e, certamente, evitar ações que piorem a situação" disse o porta-voz, acrescentando que a China espera que todas as partes possam resolver o problema "através de conversações".
“O Governo da Coreia do Sul lamenta profundamente a proibição das entradas e apela a que ela seja imediatamente levantada”, acrescentou o porta-voz Kim Hyung-seok
Símbolo de cooperação e barómetro de tensões
A zona de Kaesong foi inaugurada em 2004 para servir de símbolo de cooperação entre Coreia do Norte e Coreia do Sul. No complexo industrial funcionam 120 empresas sul-coreanas que dão trabalho a 50 mil trabalhadores do Norte.
Roupas, sapatos, relógios e utensílios de cozinha são alguns dos artigos fabricados e os lucros são vistos como fundamentais para a debilitada economia norte-coreana.
Algumas centenas de empregados do Sul também operam no local numa base rotativa. As entradas são autorizadas numa base diária, mas os trabalhadores estão autorizados a pernoitar nas instalações, que ficam a cerca de dez quilómetros da fronteira.
Centenas de sul-coreanos em Kaesong
Segundo o Governo sul-coreano, Pyongyang não autorizou a deslocação dos 484 sul-coreanos que deviam hoje ir trabalhar no complexo. Dos 861 empregados do Sul que estavam nas instalações industriais, 446 tinham partida marcada, mas apenas nove tinham regressado ao seu país até às 12h00 locais.
Alguns deles terão decidido ficar voluntariamente para garantir as operações das suas empresas, por não estar assegurada a sua rendição.
Seul contempla recurso à força
Seul já avisou dispor de um plano de emergência que prevê um eventual recurso à força para garantir a segurança dos cidadãos que trabalham em Kaesong.
Não é a primeira vez que Pyongyang decide impedir os acessos à zona industrial. Em 2009 o acesso dos sul-coreanos foi proibido por um breve período, como retaliação pelos exercícios militares conjuntos que os Estados Unidos e a Coreia do Sul desenvolvem anualmente.
Nessa altura, centenas de empregados sul-coreanos ficaram retidos durante algumas noites nas instalações.
Com exceção dessa interrupção, o complexo tem permanecido aberto, apesar das sucessivas crises entre os países vizinhos. O seu funcionamento é visto como um barómetro das relações inter-coreanas e um encerramento prolongado significaria uma forte escalada nas tensões regionais.
Barragem de retórica e provocações
Pyongyang tinha ameaçado fechar Kaesong na semana passada, no contexto da retórica agressiva que se seguiu às novas sanções que o Conselho de Segurança da ONU decretou para punir ensaios nucleares e de mísseis da Coreia do Norte.
A escalada de ameaças e provocações tem sido quase diária. Ontem o regime declarou que vai reativar o reator de Yongbyon, onde foi fabricado o plutónio para o seu programa nuclear. O local tinha sido encerrado há cinco anos na sequência de negociações com a comunidade internacional.
Nas últimas semanas, o regime de Kim Jong-un também ameaçou atacar as bases americanas na Ásia e várias ilhas sul–coreanas. Antes disso, tinha declarado como inválido o tratado de cessar-fogo que terminou em 1953 a Guerra da Coreia e ameaçado lançar um “ataque nuclear preventivo” contra os Estados Unidos.
Não há movimentações anormais de militares
Apesar desta violência verbal, fontes oficiais dos EUA dizem que não há quaisquer sinais de movimentações militares anormais do Norte que indiciem preparativos para um ataque.
A maioria dos observadores acredita que estas ameaças são principalmente destinadas a consumo interno, para tentar fortalecer as credenciais do jovem líder Kim Jong-un junto da população e dos militares. Aos 29 anos, a sua liderança estará longe de se consolidar num país onde, tradicionalmente, a idade e a experiência são valores prezados na classe dirigente.
Mesmo assim, a intensidade da retórica não é habitual e prende-se provavelmente com o facto de haver também uma nova liderança na Coreia do Sul: a recentemente eleita Presidente Park Geun-hye, que Kim Jong-un pretenderá assim “testar”.
EUA respondem com demonstrações de poderio
Ao contrário de vezes anteriores, Seul e Washington não parecem estar dispostos a apostar numa política de apaziguamento. O responsável pela diplomacia americana John Kerry considerou ontem que as ações da Coreia do Norte são “perigosas” e “impensadas”.
“Deixem-me ser perfeitamente claro. Os Estados Unidos vão defender-se a si próprios e ao seu aliado no tratado, a República da Coreia”, disse Kerry após uma reunião com o seu homólogo sul-coreano, Yun Byung-se.
O secretário de Estado americano deixou também claro que os Estados Unidos “não aceitarão uma Coreia do Norte que seja um estado nuclear” e que são capazes de proteger os seus aliados na região - Coreia do Sul e Japão.
Despachados navios com sistemas antimíssil
Nos últimos dias, os Estados Unidos têm respondido à retórica norte-coreana com uma série de voos bem publicitados de aviões militares sobre a Coreia do Sul. Entre eles contam-se os avançados bombardeiros furtivos B-2 e os clássicos B-52.
Além disso, o Pentágono estacionou na região o contratorpedeiro da classe Aegis USS John McCain, equipado com um avançado sistema de defesa antimísseis e um segundo navio, o USS Decatur, foi igualmente enviado para a região.
"As coisas já foram longe demais"
Ontem, face ao avolumar das tensões, o secretário-geral da ONU, ele próprio um sul-coreano, avisou que a crise já tinha “ido longe de mais” e apelou a conversações urgentes.
“As coisas têm de começar a acalmar-se . Não há necessidade de a República Popular da Coreia estar em rota de colisão com a comunidade internacional. As ameaças nucleares não são um jogo”, disse Ban Ki-moon.
China "seriamente preocupada" apela à calma
A China, o principal aliado da Coreia do Norte, já se manifestou entretanto "seriamente preocupada" com o agravamento das tensões na península coreana. Um alto representante do governo chinês encontrou-se terça-feira com os embaixadores das duas Coreias e dos Estados Unidos para apelar à calma.
"Ontem à tarde o vice-ministro dos negócios estrangeiros Zhang Yesui encontrou-se com os embaixadores da Coreia do Norte e do Sul e dos Estados Unidos, para lhes manifestar sérias preocupações acerca da atual situação na península", disse em Pequim um porta-voz do ministério dos Negocios Estrangeiros.
"Na atual situação, a China acredita que todos os lados devem manter a calma e exercer contenção, e não tomarem ações que sejam mutuamente provocativas e, certamente, evitar ações que piorem a situação" disse o porta-voz, acrescentando que a China espera que todas as partes possam resolver o problema "através de conversações".