Coreia do Norte prepara-se para "diálogo e confronto" com os EUA

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Reuters

O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, disse na quinta-feira que o país deve estar preparado para o “diálogo e confronto”, “especialmente para o confronto”, com os EUA. Esta foi a primeira referência direta de Kim Jong-un a possíveis negociações com a Administração norte-americana desde que Joe Biden tomou posse como Presidente dos Estados Unidos.

Durante o terceiro dia da sessão plenária do partido único norte-coreano, que decorreu na quinta-feira, Kim Jong-un anunciou que a Coreia do Norte deve preparar-se para o “diálogo e confronto” com os EUA, salientando que precisam “especialmente de estar totalmente preparados para o confronto” a fim de “proteger a dignidade e interesses” do Estado.

O líder norte-coreano deixou ainda claro que o país reagirá “brusca e prontamente” a qualquer acontecimento e "concentrará esforços para assumir o controlo estável da situação na península coreana".

Esta é a primeira vez que Kim Jong-un se dirige diretamente à Administração norte-americana desde que Joe Biden tomou posse como Presidente dos Estados Unidos, em janeiro. Em meados de março, a Administração Biden anunciava que a Coreia do Norte estava a ignorar as várias tentativas de contacto por parte dos EUA para discutir questões relacionadas com o seu armamento nuclear. Depois de Pyongyang ter recusado repetidamente os esforços para estabelecer uma comunicação diplomática, o Conselho de Segurança das Nações Unidas impôs sanções económicas após os disparos de mísseis por parte da Coreia do Norte.

Os recentes comentários do líder norte-coreano surgem em resposta “às novas tendências políticas da Administração Biden", explica a agência de notícias estatal KCNA, depois de o Presidente norte-americano ter apresentado a estratégia de Washington em relação a Pyongyang.

No final do mês de maio, Biden anunciou que vai optar pelo "envolvimento diplomático" com Seul no sentido de fazer com que Pyongyang tome "medidas pragmáticas que reduzam as tensões", tendo como objetivo final a desnuclearização da Península da Coreia. O Presidente dos Estados Unidos afirmou que o programa nuclear da Coreia do Norte, juntamente com a do Irão, apresenta “sérias ameaças à segurança americana e à segurança do mundo” e que, por isso, vão trabalhar em “estreita colaboração” com os seus aliados “para enfrentar as ameaças representadas por esses dois países por meio da diplomacia e também de uma forte dissuasão".

Na altura, a Coreia do Norte acusou o Presidente norte-americano de procurar manter uma "política hostil, como foi feito pelos EUA durante mais de meio século”.
Política de “esperar para ver”
Os especialistas consideram que as palavras de Kim Jong-un mantêm a habitual retórica belicista do regime combinada com a disposição para a reabertura da via diplomática, uma atitude que ainda não tinha sido demonstrada desde a tomada de posse de Joe Biden.

Vipin Narang, especialista em assuntos nucleares do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos, disse à agência Reuters que os comentários de Kim Jong-un continuam a espelhar uma política de “esperar para ver”, enquanto se abstém de provocar a Administração Biden.

“Parece sugerir que Pyongyang pensa que a bola está do lado do campo dos EUA neste momento e está a esperar para ver como será a abordagem do Governo de Biden”,
explicou Narang.

"Dados os relatos sobre a comida na Coreia do Norte e a situação da Covid-19, presume-se que Kim também está feliz por evitar um confronto num futuro próximo"
, afirmou ainda o especialista.

Durante a sessão plenária do partido desta quinta-feira, Kim Jong-un referiu-se também à escassez de produtos básicos, como alimentos ou medicamentos, que atinge o país devido às sanções internacionais, ao mau ano agrícola e ao isolamento provocado pela crise sanitária. Na quarta-feira, o líder norte-coreano admitiu que o país estava a enfrentar uma “situação de tensão alimentar”.

Yang Moo-jin, professor da Universidade de Estudos da Coreia do Norte em Seul, disse que Kim Jong-un parecia estar a enviar uma mensagem a Washington de que estará disposto a voltar às negociações a certa altura.

"Apesar de mencionar o confronto, ele absteve-se de criticar tanto o Sul quanto os Estados Unidos, enquanto destacava a necessidade de manter uma situação geopolítica estável", afirmou Yang, citado pela Reuters.

Washington e Pyongyang permanecem em desacordo sobre os programas nucleares e os mísseis balísticos da Coreia do Norte. Após o fracasso do Executivo do ex-presidente Donald Trump em resolver o conflito da desnuclearização, o líder norte-coreano, Kim Jong-un, instou o novo Governo do presidente, Joe Biden, a propor novas alternativas para retomar o diálogo, alertando que Pyongyang está a preparar novos testes de armas.

Durante a sua campanha eleitoral, Biden, por sua vez, apelidou Kim Jong-un de “bandido” e disse que apenas se encontraria com o líder norte-coreano se este concordasse com a redução da capacidade nuclear. Por sua vez, nas véspera da tomada de posse de Biden, a Coreia do Norte fez uma demonstração de força com um desfile militar que exibiu um novo míssil, descrito pela agência KCNA como "a arma mais poderosa do mundo".

c/agências
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