Coreia do Norte testa sistema de mísseis. EUA alertam para "grave escalada"

por Carla Quirino - RTP
Estação de Lançamento Espacial, na Coreia do Norte Agência Central de noticias Norte Coreana | Reuters

O Pentágono veio esta semana sinalizar que a Coreia do Norte voltou a testar mísseis balísticos intercontinentais. O Departamento da Defesa dos Estados Unidos estima que dois dos mais recentes lançamentos não terão demonstrado o potencial do novo sistema. Mas classifica estas movimentações como "grave escalada" na já tensa situação da Península Coreana.

Nos dias 26 de fevereiro e 4 de março ocorreram lançamentos, a partir do solo norte-coreano, de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM, na sigla inglesa), com recurso a um novo sistema, de acordo com os Estados Unidos.

John Kirby, assessor de imprensa do Pentágono, declarou em comunicado que a Coreia do Norte não teria intenção de "demonstrar o alcance ou a capacidade dos ICBM, mas provavelmente estaria a ensair este novo sistema antes de realizar um teste de alcance total no futuro, potencialmente disfarçado como o lançamento de um foguetão espacial".

Os meios estatais de comunicação da Coreia do Norte não avançaram detalhes sobre os testes, mas referiram que estava a ser preparado o lançamento de um satélite espião militar. Os mesmos meios informaram que o líder norte-coreano, Kim Jong-un, havia visitado a denominada Estação de Lançamento Espacial.

Nesse relato da KCNA, é anunciado que Kim Jong-un tem planos para "construir uma série de novos elementos no campo de lançamento para enviar um satélite de reconhecimento militar e outros satélites multifuncionais usando foguetes como transportadores", num futuro próximo.
ICBM
Nos planos de Pyongyang está também um míssil balístico com suficiente capacidade para transportar várias ogivas. Esse projétil poderá ter uma capacidade tal que dificultará a interceção por parte das estruturas defensivas norte-americanas, ainda de acordo com o Pentágono.

As autoridades norte-americanas recordam que a Coreia do Norte revelou o míssil Hwasong-17 durante um desfile em outubro de 2020, arma que foi apelidada de "monstro" por especialistas.

Os dois últimos lançamentos da Coreia do Norte envolveram o Hwasong-17, embora apenas com capacidade limitada. Os testes terão utilizado somente o primeiro de dois estágios do projétil, afirmou Joshua Pollack, investigador do James Martin Center for Nonproliferation Studies.

Segundo os serviços de defesa sul-coreanos e japoneses, os mísseis percorreram apenas uma distância de 300 quilómetros e atingiram uma altitude máxima de 550-600 quilómetros. Estima-se que o Hwasong-17 tenha um alcance máximo de cerca de 13 mil quilómetroso.

A Coreia do Norte pode estar a testar um "veículo pós-impulso" (também chamado de "autocarro") usado para lançar várias ogivas nucleares de um grande ICBM como o Hwasong-17, escreveu no Twitter Jeffrey Lewis, especialista no Programa de Não Proliferação Nuclear do Instituto Middlebury de Estudos Internacionais em Monterey.


ICBM norte coreano | Twitter de Jeffrey Lewis


O desenvolvimento deste sistema - conhecido como veículo de reentrada de múltiplos alvos independentes (MIRV) – decorre devido à dificuldade de construção de sistemas de lançamento móveis de misseis intercontinentais.

"Os norte-coreanos tiveram dificuldade em construir camiões muito grandes que sejam confiáveis e capazes de transportar e lançar esses mísseis", disse Ankit Panda, especialista em política nuclear do Carnegie Endowment for International Peace. Ao colocar várias ogivas num único míssil, reduzem a necessidade de lançadores móveis, observou Panda.

Nestes últimos dois testes , a Coreia do Norte aparentemente usou um sistema de lançamento móvel colocado num aeroporto perto de Pyongyang. Mas a visita de Kim às instalações de lançamento de satélites de Sohae poderá indiciar futuros lançamentos de satélites, sustentam os especialistas.
"Grave escalada"
Para os Estados Unidos, quaisquer destas movimentações "são uma violação descarada de várias resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aumentam desnecessariamente as tensões e correm o risco de desestabilizar a situação de segurança na região". Kirby acrescenta que "Os Estados Unidos condenam veementemente esses lançamentos".

O Comando norte-americano do Indo-Pacífico diz ter intensificado, nas últimas horas, "atividades de vigilância e recolha de informações e reconhecimento no Mar Amarelo, bem como para garantir maior prontidão entre as nossas forças de defesa de mísseis balísticos na região".

A CNN observa que as autoridades norte-americanas não detalharam o que significaria "prontidão".
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