Coreia do Sul. Novo presidente conservador pode agitar a península

por Joana Raposo Santos - RTP
As conversações entre a Pyongyang e Seoul estão paradas desde 2019. Kim Hong-Ji -Reuters

A Coreia do Sul elegeu o candidato da oposição Yoon Suk Yeol para a presidência, num contexto de elevado descontentamento com as políticas económicas no país. A vitória pode significar um novo futuro para toda a península coreana, com o recém-eleito líder a defender uma postura mais dura com a vizinha Coreia do Norte, em relação à qual quer ver "menos submissão".

O novo presidente sul-coreano vai tomar posse num período turbulento para o país e o caminho que traçar pode vir a agitar a região. Yoon Suk Yeol, do Partido do Poder Popular, alcançou a vitória por uma margem mínima na quarta-feira, superando o rival Lee Jae-myung por menos de um ponto percentual.

Recém-chegado à política, o novo líder conservador passou 27 anos no cargo de procurador-geral. Agora, ver-se-á perante uma série de desafios ao substituir o presidente liberal Moon Jae-in, a 10 de maio.

No topo da sua agenda estão ameaças vindas da Coreia do Norte, assim como a escalada de tensões entre parceiros sul-coreanos, os Estados Unidos e a China. A nível doméstico, o descontentamento do povo com a economia, as lutas pela igualdade de género e o aumento de casos de covid-19 virão ocupar grande parte do seu tempo.

Ao contrário do seu antecessor, Yoon tem vindo a prometer uma postura mais rígida em relação à vizinha Coreia do Norte, que não deverá passar pelo diálogo nem pela reconciliação pacífica.

As relações entre as duas Coreias foram, aliás, um dos temas mais falados durante a campanha eleitoral. Só em 2022, o país do Norte realizou nove testes de mísseis, incluindo um novo tipo de “míssil hipersónico”, o que provocou elevada condenação pelo Sul.
Novo presidente defende maior "defesa nacional" e menos "submissão"
As conversações entre a Pyongyang e Seoul estão paradas desde 2019, quando uma cimeira entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte não obteve os resultados desejados.

Durante a campanha presidencial, Yoon Suk Yeol prometeu reforçar as forças militares do país, chegando até a sugerir o lançamento de um ataque preventivo caso visse sinais de uma eventual ofensiva contra Seoul.

O novo líder prometeu também contrariar a até agora “política subserviente” da Coreia do Sul em relação ao Norte, dizendo não pretender aliviar as sanções nem preparar um tratado de paz até que Pyongyang “realize ativamente esforços para uma completa desnuclearização”.

Em janeiro, Yoon Suk Yeol tinha assegurado que as portas para o diálogo e diplomacia “estarão sempre abertas”, mas que o caminho para a paz será baseado “numa forte postura de defesa nacional, não de submissão”.

“Construiremos uma poderosa força militar que possa seguramente evitar qualquer provocação e proteger a segurança e as propriedades dos nossos cidadãos, salvaguardando a integridade territorial e a soberania da nossa nação”, declarou.
Tensão entre Norte e Sul pode reacender-se
Especialistas em política internacional alertam, porém, que esta linha de atuação mais dura pode piorar as relações entre o Norte e o Sul da península coreana. Alguns temem mesmo que as tensões militares regridam para os níveis observados em 2017, quando os testes nucleares de Pyongyang provocaram demonstrações de força militar por Seoul e Washington.

Na altura, o então presidente Donald Trump chegou a ameaçar “lançar fogo e fúria como o mundo nunca viu”.

“É improvável que se dê qualquer progresso nas negociações sobre desnuclearização, a menos que o próximo Governo elabore uma sofisticada solução nesse sentido que seja aceite tanto pela Coreia do Norte, como pelos Estados Unidos”, explicou à CNN o diretor do Centro para Estudos Norte-coreanos, Cheong Seong-chang.

Esta quinta-feira, o presidente dos Estados Unidos falou ao telefone com o recém-eleito homólogo sul-coreano e convidou-o a visitar a Casa Branca. Joe Biden disse esperar que as relações bilaterais com a Coreia do Sul sejam aprofundadas e defendeu que “a coordenação estreita com as políticas da Coreia do Norte será muito importante”.
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