Corrida contra o tempo. Partidos franceses em conversações para eleições antecipadas

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Teresa Suarez - EPA

A apenas 19 dias das eleições legislativas antecipadas, os partidos franceses reúnem-se de emergência para sondar potenciais aliados e definir a sua estratégia política. Apesar das divergências persistentes, os líderes dos quatro partidos de esquerda chegaram a acordo e anunciaram a "constituição de uma nova Frente Popular” como “uma alternativa” a Emmanuel Macron. Os partidos de extrema-direita também estiveram reunidos com o objetivo de forjar alianças, mas ainda não há nenhum acordo.

O anúncio da dissolução da Assembleia Nacional por parte do presidente francês na noite de domingo, logo após a vitória esmagadora da extrema-direita nas eleições europeias, apanhou todos de surpresa e deu início a uma corrida contra o tempo.

A 19 dias da primeira volta das eleições legislativas – a campanha mais curta da história da Quinta República – os partidos franceses iniciaram conversações de emergência logo na segunda-feira para sondar potenciais alianças e definir uma estratégia política.

Após longas horas de reunião, os partidos de esquerda anunciaram, na noite de segunda-feira, que chegaram a acordo sobre “candidatos únicos” em “cada círculo eleitoral” para a primeira volta das eleições legislativas.

Apesar das divergências persistentes, os líderes dos quatro partidos de esquerda anunciaram a "constituição de uma nova Frente Popular que reúne as forças humanistas, sindicais, associativas e cidadãs de esquerda". O Partido Socialista, o Partido Comunista Francês, Os Verdes e a França Insubmissa prometem “construir uma alternativa a Emmanuel Macron e combater o projeto racista da extrema-direita”.Os partidos de extrema-direita também estiveram reunidos na segunda-feira para negociar uma aliança para as eleições de 30 de junho.


Jordan Bardella, cabeça de lista do Rassemblement National (RN) que venceu as eleições europeias, a líder do partido Marine Le Pen e a sua sobrinha Marion Maréchal – cabeça de lista do partido Reconquista, ex-rival de Le Pen nas eleições presidenciais de 2022 – reuniram-se na rede do RN para discutir uma possível coligação eleitoral.


No início da noite, Bardella disse que Maréchal tinha “uma abordagem construtiva em relação ao RN” e afirmou que espera conseguir uma maioria forte. “Estou perfeitamente preparado para conversar com pessoas que partilham a ambição de levar algumas de nossas ideias ao poder”, disse Bardella, avançando, porém, que ainda “nada foi decidido”.

Le Pen avançou ainda que está disposta a não apresentar candidatos do RN contra candidatos do partido Os Republicanos para “unir” a direita e a extrema-direita.

O partido RN anunciou também esta segunda-feira que Jordan Bardella, de 28 anos, será o candidato da extrema-direita francesa ao cargo de primeiro-ministro.
“Jogar a roleta russa com o destino do país”
A decisão arriscada do presidente francês de convocar eleições antecipadas está a ser vista como uma tentativa de unir os eleitores de centro e de esquerda para combater a ameaça da extrema-direita.

Macron reconheceu que a decisão “é grave e pesada”, mas encara-a como “um voto de confiança”. “Confiança em vós, meus caros compatriotas, na capacidade do povo francês de fazer a escolha mais correta para si própria e para as gerações futuras”, disse Emmanuel Macron.

No entanto, nem todos estão tão otimistas e contentes com a decisão do presidente francês. Yaël Braun-Pivet, uma importante figura do partido de Macron que atua como presidente da câmara baixa, expressou algumas dúvidas, indicando que formar uma coligação com outros partidos no parlamento francês poderia ter sido um caminho melhor.

Raphaël Glucksmann, que encabeçava a lista do Partido Socialista, disse que Macron “cedeu” a Bardella. “Este é um jogo muito perigoso de se jogar com a democracia e as instituições. Estou pasmo”, disse.

Valérie Pécresse, uma figura importante do partido conservador Os Republicanos, considera que dissolver a Assembleia “sem dar tempo a ninguém para se organizar e sem qualquer campanha é jogar a roleta russa com o destino do país”.

A primeira volta das eleições legislativas vai decorrer a 30 de junho e a segunda volta a 7 de julho. Os partidos têm entre a próxima quarta-feira e domingo, às 18h00, para apresentar as candidaturas. A campanha eleitoral arranca na próxima segunda-feira.
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