Covid-19. Surtos proliferam em Espanha e autoridades temem descontrolo

O Ministério espanhol da Saúde registou 196 novos casos de infeção em apenas um dia, o maior aumento em três semanas. As autoridades temem que a identificação de dezenas de novos surtos possa conduzir novamente a um descontrolo da pandemia no país.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Susana Vera - Reuters

À semelhança de outros países, incluindo Portugal, o desconfinamento em Espanha está a dar lugar ao aparecimento de surtos localizados. Há, pelo menos, 12 surtos de Covid-19 ativos no país vizinho e as autoridades de saúde temem que Espanha volte ao cenário negro inicial.

O relatório epidemiológico de quarta-feira demonstra o maior aumento de novos casos nas últimas semanas: foram 196 novos casos de Covid-19 em apenas um dia. A comunidade de Madrid é onde se registam mais novos casos (50), seguido de Aragão (49), onde se observou uma maior subida de infetados. Espanha regista mais de 247 mil casos de infeção e 28.327 mortos devido à pandemia.

As autoridades de saúde explicam que sabiam que iriam surgir focos de infeção, mas o mais difícil é controlá-los a tempo, principalmente monitorizar os contactos dos infetados.

“Os surtos são expectáveis e podem ser assumidos, desde que controlados e limitados, algo que depende dos sistemas de saúde pública”, explica ao jornal El País Rafael Manuel Ortí Lucas, Presidente da Sociedade Espanhola de Medicina Preventiva, Saúde Pública e Higiene.

Eles precisam de estar cientes do acompanhamento dos contactos e o sistema que temos não é perfeito”, afirma Ortí Lucas. “Enquanto estiveram limitados a um matadouro, num determinado bairro com uma população de características especiais, num hospital onde um paciente pode contaminar outros, é aceitável. É o que está a acontecer e é previsível”, explica o especialista.

O que nos preocupa é que a comunidade escape devido a festas, eventos, ajuntamentos sociais em bairros ou ambientes de verão e não seja detetada pelos serviços públicos de saúde, que estarão enfraquecidos no verão”, acrescentou Ortí Lucas.

O maior receio das autoridades de saúde é, por isso, que os focos de infeção se transformem em transmissão descontrolada na comunidade, o que pode conduzir a uma segunda vaga da epidemia.

Na opinião de Ortí Lucas, embora na generalidade a resposta da sociedade seja boa, estão a observar “um relaxamento”. “O risco da doença continua e parece que, às vezes, é esquecido”, afirma Pedro Gullón, da Sociedade Espanhola de Epidemiologia.
Surtos sem padrão claro
O último relatório do Ministério da Saúde a ser tornado público foi anunciado na segunda-feira e dava conta de que existiam 12 surtos ativos no país, dos 36 que se detetaram desde que a epidemia foi considerada praticamente controlada em Espanha.

No entanto, o jornal El País explica que este número pode ser superior, dado que a definição de surto difere para cada comunidade, apesar de ter sido publicado um protocolo a 16 de junho que define um surto como “qualquer agrupamento de três ou mais casos confirmados ou prováveis de infeção ativos, nos quais foi estabelecido um vínculo epidemiológico”.

Para além disso, o Ministério da Saúde espanhol decidiu não tornar público os dados sobre as províncias que detêm surtos ativos ou o número de casos positivos em cada uma delas, argumentando que os dados “flutuam muito e algumas comunidades são mais sensíveis do que outras na hora de os definir”. Assim, apesar de as comunidades reportarem as informações ao ministério, eles não são tornados públicos e a transparência fica ao critério de cada autonomia.

Desta forma, o jornal espanhol procurou também obter o número de surtos ativos usando os dados fornecidos pelas comunidades e as informações jornalísticas. Neste âmbito, El País localizou 18 focos de infeção que somam mais de 330 casos positivos.

A análise do jornal concluiu que, ao contrário do que se observava há um mês, quando a grande maioria dos surtos se tinham originado em festas ou reunião familiares, agora não existe um padrão claro. Há surtos hospitalares, incluindo no País Basco e em Valladolid, assim como focos de infeção que se originaram em reuniões familiares e sociais, nomeadamente no município de Pamplona onde existem, pelo menos, 21 casos confirmados.

Existem também surtos nos locais de trabalho, sendo que o mais preocupante é em Huesca, localizado entre trabalhadores sazonais do setor de frutas. Quatro regiões deste município foram, por isso, obrigadas a recuar à fase 2 de desconfinamento, sob preocupações de que o surto seja transferido para a comunidade vizinha de Lérida.

Muitos destes focos correspondem também a casos importados, como caso de um barco eu chegou a Fuerteventura com 11 pessoas que testaram positivo à Covid-19. No município de Múrcia, um outro surto com 17 casos confirmados teve origem num caso importado da Bolívia.

Nos lares e casas de repouso, os mais afetados pela pandemia em Espanha, também existem focos de infeção. A vizinha Espanha é o segundo país europeu com mais mortes em lares de idosos, somando cerca de 19.500 óbitos nestas instituições.
Apelo aos mais jovens
Em vários países tem sido recentemente observada uma alteração que coloca a população mais jovem entre os mais infetados. Embora entre os mais recentes surtos em Espanha não tenham sido diretamente associados à camada mais jovem, os epidemiologistas estão preocupados com o aumento do número de festas onde as regras de distanciamento social não estão a ser respeitadas.

Segundo Fernando Simón, diretor do Centro de Controlo de Alertas e Emergências Sanitárias (CCAES), a idade média dos infetados desceu de 60 anos há um mês, para 50 neste momento. “Eles podem não sofrer, mas podem tornar-se transmissores”, alertou Simón aos mais jovens.

“Não é supérfluo abordá-los especificamente, porque talvez os meios de comunicação tradicionais não cheguem até vocês", refere Antoni Trilla, epidemiologista do Comité de especialistas do Governo espanhol. “Uma alta percentagem de menores de 35 anos vive com a família. Se houver transmissão entre os jovens, é fácil chegar aos idosos e talvez seja mais fácil relaxar porque não têm tanto risco pessoal ", conclui.

O executivo espanhol já anunciou que poderá voltar a decretar estado de emergência para impedir a mobilidade dos espanhóis. "Se chegar a um momento em que tenhamos uma situação grave, o Governo pode perfeitamente decretar o estado de emergência numa parte do território, ou na sua totalidade", avisou na terça-feria a vice-presidente do Governo espanhol, Carmen Calvo.
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