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COVID-19. Vacina precisa-se porém primeiros testes são só o princípio
O mundo espera ansioso pelo desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus, e os primeiros testes em já começaram a decorrer nos Estados Unidos. Na corrida estão pelo menos 35 empresas e instituições académicas e a maioria tem realizado testes em animais.
A necessidade da vacina é diretamente proporcional aos resultados, mitigados, das melhores e mais duras estratégias de contenção da doença respiratória designada por COVID-19 a nível mundial.
Só uma vacina será capaz de deter realmente a pandemia, acredita a maioria dos analistas.
Nos Estados Unidos, a corrida acelerou de tal modo que já está a circular a primeira, ou uma das primeiras, imagens de uma mulher a receber uma vacina contra o novo coronavírus, da responsabilidade do Centro de Investigação do Instituto Kaiser Permanente, em Seattle.
Trata-se ainda de um teste e vários voluntários estão a sujeitar-se ao procedimento.
A investigação foi desenvolvida em tempo recorde depois da explosão da pandemia na China.
Lisa Jackson, investigadora no Instituto Kaiser Permanente, diz que estão a testar primeiro a segurança da vacina e a resposta do sistema imunitário.
Estes testes em humanos constituem apenas o início do processo. A obtenção de resultados criteriosos – e a produção e depois distribuição da vacina – deverão ainda demorar vários meses.
Dezoito meses
A investigação de uma nova vacina só termina depois desta ser testada – em três fases de ensaios, que habitualmente têm de ser cumpridas rigorosamente - de forma a resolver eventuais problemas associados.
Numa vacina nova como a de combate ao COVID-19, a passagem à produção implica ainda toda uma nova linha de produção, ou adaptação de uma já existente – o que não fica barato e pode mesmo ser financeiramente inviável.
“Como a maioria dos imunologistas, não creio que tenhamos uma vacina pronta antes de 18 meses”, afirma Annelies Wilder-Smith, professora de doenças infeciosas emergentes na escola de Higiene e de medicina Tropical de Londres.
Um intervalo ainda assim extremamente rápido e assumindo que não existirão percalços.
Finalmente, ultrapassados todos estes obstáculos, irá surgir o problema de distribuição em massa da vacina pela população.
Velocidade nunca vista
No caso da vacina contra o Sars-CoV-2, que provoca a COVID-19, a investigação tem prosseguido a uma velocidade sem precedentes, por estar a beneficiar de dois fatores paralelos.
De um lado, ao esforço de descodificação do genoma do SARS-Cov-2, responsável pelo COVID-19, por parte de investigadores chineses, que o partilharam com equipas do mundo inteiro mal conseguiram obter a sequência, no início de janeiro.
Do outro lado, os investigadores de vacinas têm-se debruçado especialmente nos últimos anos sobre os coronavírus em geral – o mais conhecido e capaz de causar uma pandemia, é o responsável pela gripe comum.
Aperfeiçoaram os seus métodos, ao trabalhar sobre agentes patogénicos “protótipos”, aprofundando os seus conhecimentos sobre o desenvolvimento de vacinas para outros coronavírus.
Vários projetos de investigação estão a aplicar tecnologias absolutamente inovadoras – as quais, apesar de apresentarem riscos, prometem igualmente sucesso rápido - partindo de vacinas desenvolvidas há alguns anos, para tratar outros coronavírus.
Sars e Mers, que contributo
A vacina contra o Sars-CoV-2, produzida pela firma de biotécnica de Boston, Modema, tem assim como base a vacina desenvolvida há oito anos para tratar o MERS – Síndrome Respiratório do Médio Oriente. A empresa deverá iniciar os testes em humanos já no próximo mês.
Outra companhia, a americana Novavax, anunciou ter recuperado e adaptado vacinas desenvolvidas no início do século contra o SARS – Síndrome Respiratória Aguda Grave.
O Sars-CoV-2 partilha 80 a 90 por cento do material genético do vírus que causou o Sars – o que lhe dá o nome. Ambos consistem numa tira de RNA (ácido ribonucleico), dentro de uma cápsula esférica de proteína, coberta de picos.
Estes ligam-se aos recetores na superfície de células que cobrem o pulmão humano – em ambos os casos o mesmo tipo de recetor – permitindo ao vírus entrar na célula.
Uma vez no interior, o coronavírus utiliza o mecanismo reprodutor da célula para se replicar em série, até romper de novo para o exterior, matando a célula no processo.
Novas tecnologias
Todas as vacinas operam de acordo com o mesmo princípio básico, expondo parte ou todo o sistema imunitário humano ao elemento patogénico, numa dose muito baixa habitualmente ministrada sob a forma de uma injeção, para levar o sistema a produzir anticorpos.
Estes possuem uma espécie de memória que os faz reproduzir-se de novo em caso de exposição ao vírus na sua forma natural.
A imunização é alcançada geralmente através da utilização de formas do vírus enfraquecidas ou tornadas inativas através do calor ou de químicos.
Estes métodos têm desvantagens significativas. Por exemplo, a forma viva pode continuar a evoluir no corpo do hospedeiro e pode recuperar alguma da sua virulência, fazendo-o adoecer e levando a que sejam necessárias doses sucessivamente maiores para desenvolver o grau de proteção requerido.
Algumas das investigações sobre o COVID-19 têm usado este método, enquanto outras se viraram para uma tecnologia mais recente.
Uma destas – a que a Novavax está a utilizar – constrói uma vacina “recombinante”, extraindo o código genético contido num pico à superfície do Sars-CoV-2, a qual é a parte do vírus mais capaz de provocar uma reação imunitária em seres humanos. Esse código é então colado no genoma de um bacterium ou levedura – o que força o organismo a produzir grandes quantidades da proteína.
Outras estratégias, ainda mais recentes, ultrapassam a fase da proteína e produzem vacinas a partir das próprias instruções genéticas recolhidas. A técnica está a ser usada pela Modema e por outra empresa alemã, a CureVac. Estão ambas a tentar produzir vacinas a partir do próprio RNA.
"Nunca se sabe onde se vai tropeçar"
A Cepi, uma coligação de esforços para desenvolver inovações que preparem para situações de epidemia, baseada em Oslo, Noruega, tem liderado esforços para financiar e coordenar o desenvolvimento da vacina contra o COVID-19.
“A nossa experiência com o desenvolvimento de vacinas é que nunca se sabe onde se vai tropeçar”, explicou Richard Hatchett, presidente do Conselho de Administração do Cepi, ao jornal britânico The Guardian, referindo que a diversidade é a chave para o sucesso.
Na atual fase, estes tropeções deverão surgir na fase dos testes. Os ensaios clínicos, essenciais para a aprovação dos reguladores, desenvolvem-se geralmente em três fases.
A primeira, envolve umas dezenas de voluntários saudáveis e testa a segurança da vacina e analisa os seus efeitos adversos.
A segunda, envolve várias centenas de pessoas, habitualmente numa zona do planeta afetada pela doença, e analisa o nível de eficácia da vacina. A terceira fase faz o mesmo mas envolve milhares de pessoas.
Só raramente uma vacina passa as três fases sem quaisquer problemas de risco ou de eficácia. Conseguir identificar os problemas é essencial, pelo que nenhuma fase pode ser acelerada ou ignorada.
O Sars-CoV-2 é um agente patogénico novo nos humanos e muitas das tecnologias utilizadas para desenvolver vacinas são também novas. Por exemplo, até agora, nenhuma vacina feita com base em código genético – RNA ou ADN - foi aprovada até agora.
Outras pedras no caminho
Uma vacina desenvolvida nos anos 60 do século XX, que tentou tratar um vírus comum que provoca constipações em crianças, acabou por agravar os sintomas durante os ensaios clínicos e levou as crianças a apanhar o vírus.
O mesmo efeito foi observado numa vacina desenvolvida contra o Sars. Esta foi depois aperfeiçoada para eliminar o problema, mas, agora que está a ser adaptada contra o Sars-CoV-2, terá de ser submetida a testes de segurança especialmente severos, para afastar hipóteses dos sujeitos desenvolverem a COVID-19.
Existe ainda um outro problema, potencialmente. Mal seja aprovada, a vacina contra o COVID-19 será necessária em áreas muito vastas e muitas das organizações na corrida para a desenvolver não têm capacidade para a produzir em massa.
As empresas que fabricam vacinas normalmente estão focadas na produção de um determinado produto e alterar as linhas de fabrico para um a nova vacina de sucesso incerto, simplesmente não é financeiramente viável.
A Cepi e outras organizações semelhantes procuram atenuar estes riscos e levar as empresas a investigar e produzir vacinas novas extremamente necessárias.
A coligação de Oslo, que pretende investir paralelamente na investigação à vacina contra o Sars-CoV-2 e no incentivo à sua produção, apelou no início de março a donativos de dois mil milhões de dólares.
Mesmo após ultrapassar esse obstáculo, será ainda necessário obter as licenças e os financiamentos, através da aprovação política para um programa de imunização global.
O grande problema será garantir que a vacina chegue a quem dela precisa, mesmo se o seu país não tem fundos para a adquirir, ou se tem de a fazer chegar a determinados grupos da população mais fragilizados.