Crime organizado latino-americano está a mudar a Europa

Crime organizado latino-americano está a mudar a Europa

Uma investigação do jornal The Guardian que durou quatro meses conclui que os cartéis estão cada vez mais presentes no Velho Continente e "podem estar a atuar em 16 países". O ponto mais visível desta "mudança" é o facto de as apreensões de cocaína terem mais do quintuplicado, na Europa, em dez anos.

Cristina Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Colin Davis - Unsplash

De acordo com o jornal, as redes criminosas latino-americanas têm estabelecido laços estreitos com organizações mafiosas da Europa. Cartéis e fações da Colômbia, Brasil, Equador, Venezuela, México e EUA operam em pelo menos 12 países europeus.
Entre 2014 e 2024, registou-se um aumento de 471 por cento na quantidade de cocaína apreendida. Foram também desmantelados mais laboratórios locais de processamento de derivados de cocaína.

Estes são dados recolhidos pela investigação do Guardian a partir de agências policiais e de inteligência, além de entrevistas a juízes, procuradores e especialistas de oito países.

Ainda assim, os valores podem ser mais elevados, uma vez que só estão contabilizados os grupos oficialmente identificados na Europa através de operações policiais, investigações transnacionais e processos judiciais em curso.
Fora desta contagem ficam os gangues que não têm presença física na Europa, mas que operam em joint ventures com as máfias europeias.
Entre os grupos identificados estão os cartéis mexicanos Sinaloa e Jalisco Nova Geração (CJNG), a máfia Clan del Golfo e as organizações guerrilheiras ELN e fações dissidentes das FARC, na Colômbia. A que se juntam o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), do Brasil, o Comboio de Aragua, da Venezuela e os gangues Barrio 18 e MS-13 (originários dos EUA) que predominam em El Salvador, Honduras, Guatemala e, em menor escala, no México.
De acordo com o Guardian, estas organizações estabeleceram uma presença mais marcante em Portugal, em Espanha, nos Países Baixos, na Bélgica e em França.

Nonentanto, as autoridades já registaram atividades destas organizações criminosas na Alemanha, na Roménia, na Croácia, na Eslováquia e na Bulgária.

O diretor do Observatório da Europa da Global Initiative Against Transnational Organized Crime (Gi-Toc) avisa que "há algo de novo a acontecer com a presença de grupos latino-americanos em regiões onde não existem infraestruturas preexistentes". Daniel Brombacher sublinha que o tráfico de droga "já não se limita aos tradicionais países de entrada". 
Por exemplo, "operações policiais recentes revelaram laboratórios de metanfetamina comandados por mexicanos no sul de França, no nordeste da Polónia e em Brandemburgo, a sul de Berlim. Grupos latino-americanos estão também a surgir na Roménia e na Bulgária, ao longo da rota dos Balcãs."

A isto junta-se outa conclusão. Um relatório inédito do Ministério Público de São Paulo, baseado em parte em dados da Agência Brasileira de Inteligência (a que o jornal The Guardian teve acesso) mostra que o PCC, atualmente o maior grupo criminoso do Brasil, opera em 16 países europeus, incluindo o Reino Unido, Irlanda, Islândia, Sérvia, Suécia, Suíça e Turquia.

Apesar de não ser recente a suspeita de que os cartéis e as fações latino-americanas procuram instalar-se na Europa, o cenário agora é outro.

Durante a última década, a produção de droga na América Latina quadruplicou e atingiu, em 2024, um recorde de cerca de 4.100 toneladas em 2024.
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