"De plena saúde". Líder Supremo do Irão altera cúpula de comando

"De plena saúde". Líder Supremo do Irão altera cúpula de comando

A Guarda Revolucionária do Irão reforçou a sua influência operacional nas estruturas do poder de Teerão, especialmente com duas de seis novas nomeações anunciadas, esta segunda-feira, pelo gabinete do Líder Supremo, Mojtaba Khamenei. As alterações são tidas como uma mudança de rumo na liderança de Teerão.

Graça Andrade Ramos - RTP / Adicionar como fonte informativa
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e o conselheiro do Líder Supremo do Irão, Mohsen Rezaei, na cerimónia de despedida do falecido Líder Supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei. Foto: Reuters

Um general da Guarda Revolucionária foi nomeado como chefe das Forças Armadas, e um veterano da mesma Guarda é o novo representante do Líder Supremo no Conselho Supremo de Segurança Nacional (CSSN), a instituição de segurança mais importante do país. 

Um comunicado no site de Khamenei anunciou que "o major-general Ali Abdollahi foi nomeado chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. O brigadeiro-general Ahmad Vahidi foi também nomeado comandante-chefe da Guarda Revolucionária, com a patente de major-general." 

Nomeações que representam as primeiras nomeações militares de alta patente de Khamenei desde que assumiu o cargo de Líder Supremo no início da guerra no Médio Oriente.

Ali Abdollahi, general da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), chefiava até agora o Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, uma importante estrutura de comando conjunto, responsável pela supervisão e coordenação das operações militares.

Já Mohammad Baqer Zolqard foi afastado do cargo de secretário do CSSN, enquanto representante de Khamenei, sendo substituído por Mohsen Rezaei, um comandante de 71 anos, veterano da Guarda e que regressa ao centro das decisões de segurança da República islâmica, após anos de atividade política fracassada.
Sai Zolqadr, entra Rezaei
Baqer Zolqadr sucedeu a Ali Larijani, morto num ataque israelita em março de 2026.

O seu afastamento, escassos quatro meses depois, levou a especulações sobre divisões profundas na cúpula do poder iraniano num cenário de cinco meses de conflito militar com os Estados Unidos e Israel.
O representante do Líder Supremo é o secretário do Conselho e quem exerce maior influência operacional nas ações daquele organismo, apesar da liderança formal pertencer ao Presidente.
A escolha de Rezaei é eventualmente explicada pela sua proximidade com Mojtaba Khamenei, de quem se tornou uma espécia de tradutor das declarações mais enigmáticas do Líder Supremo.

Por exemplo, quando Khamenei declarou que discordava "em princípio" da orientação dada ao Memorando de Entendimento de Islamabad, nas negociações de paz com Washington, Reazei interveio, para explicar que, "quando o Líder diz que tinha uma visão diferente em princípio, significa que o caminho que tinha em mente era melhor do que aquele que o conselho de facto seguiu".

Rumores recentes indicavam que Zolqadr havia pedido demissão, tendo esta sido rejeitada por Masud Pezeshkian. O Presidente iraniano, considerado um moderado no plano político iraniano, terá perdido a aposta.

O secretário agora substituído era criticado sobretudo pelos ataques a embarcações que transitavam pelo Estreito de Ormuz durante o cortejo fúnebre do anterior Líder Supremo, o ayatolla Ali Khamenei, e pelo seu desempenho geral.

Domingo, um dia antes da sua substituição, Zolqadr fez duras exigências aos Estados Unidos para que reabrissem o Estreito de Ormuz, incluindo a de nunca mais ameaçar o Irão, de "compensar completamente" Teerão pelos danos causados ​​durante a guerra e de descongelar "incondicionalmente" os ativos iranianos.
Dúvidas rodeiam Rezaei
Depois de dias de especulação sobre o destino de Zolqadr, a nomeação de Rezaei levou de imediato a questões sobre o rumo que o Irão está a tomar e sobre a credibilidade do novo secretário junto da opinião pública iraniana. Rezaei detém alguns dos segredos mais bem guardados da guerra Irão-Iraque dos anos 80 e dos anos da fundação da IRGC. Apesar disso, tem sido um alvo frequente da sátira política iraniana.


Em 1997, o novo secretário do CSSN despiu o uniforme e dedicou-se à política, tendo sido candidato à presidência quatro vezes, tendo desistido em 2005 e sido derrotado em 2009, 2013 3 2021. Obteve no máximo 3,9 milhões de votos.

A sua promessa mais ousada tornou-o alvo da sátira.

Em 2015, Rezaei disse que, se os Estados Unidos atacassem, o Irão faria pelo menos mil americanos reféns só na primeira semana e poderia arrecadar vários milhares de milhões de dólares por cabeça para os libertar - "e isso também resolveria os nossos problemas económicos", referiu.

A ideia de que o Irão poderia livrar-se da crise económica usando prisioneiros de guerra americanos como moeda de troca tornou-se uma piada recorrente durante anos.

Em julho de 2026, Rezaei voltou à ribalta ao declarar o fim da era de "guerra e negociação simultâneas". Se Washington mantivesse os seus ataques, disse, o Irão passaria para uma "ofensiva em grande escala e aniquilação".
Reorganização interna
Em Teerão, as explicações para a nomeação de Reazei incluem uma expansão o papel do secretariado do Conselho, para o planeamento e coordenação de uma direção estratégica mais ampla.

Neste caso, referiu o jornal Nour News, a subida ao poder de Rezaei poderia marcar o início de uma transição para a "integração das capacidades nacionais", uma reorganização interna apresentada como reforma rotineira.

Um analista, Al Qolhaki, que seguiu a pressão para remover Zolqadr durante as últimas semanas, referiu-se à troca mais rápida de sempre de um secretário na história do Conselho.

Qolhaki também previu as novas nomeações militares, descrevendo-as como complementares ao novo papel de Rezaei, referiu a análise da RadioFreeEurope.

O orgão de comunicação de linha dura Raja News foi ainda mais longe, interpretando a remodelação como uma vitória.

Argumentou que a saída abrupta de Zolqadr da representação do Líder Supremo no Conselho não pode ser avaliada separadamente do processo de cessar-fogo, das negociações e da eventual ratificação do memorando de entendimento de Islamabad. 

O jornal insistiu que a medida oferecia mais uma confirmação de que o novo Líder Supremo, de facto, não concordava com a assinatura do memorando.

O analista político reformista Ahmad Zeidabadi adoptou por seu lado um tom notavelmente mais cauteloso, recusando-se a oferecer uma interpretação definitiva.

Escreveu que, considerando o historial de Zolqadr e Rezaei e as suas recentes declarações públicas, compreender a mudança a partir de fora da "intricada e confusa teia de relações de poder do Irão" é, se não impossível, "genuinamente muito difícil". 

Uma forma incisiva de sinalizar que os observadores externos, e talvez os próprios iranianos, simplesmente não têm visibilidade sobre o que realmente motivou a decisão.

As nomeações coincidem, além disso, com dúvidas sobre o estado de saúde de Khamenei, com rumores de que a sua vida estaria por um fio a par de divisões internas.
Apelo à unidade
Mojtaba Khamenei foi nomeado Líder Supremo em março, após a morte do pai, Ali Khamenei, em ataques de Israel e dos Estados Unidos no primeiro dia da guerra, a 28 de fevereiro, nos quais morreram também a mulher e outros familiares.

Desde então, não apareceu em público, nem sequer no funeral do pai e antecessor, no início de julho, tendo apenas divulgado comunicados que são lidos por apresentadores na televisão estatal ou partilhados nas redes sociais, o que alimentou rumores e especulações sobre o seu paradeiro e estado de saúde.

Nos últimos dias, vários meios de comunicação israelitas, entre os quais o Canal 14 e o The Jerusalem Post, noticiaram, citando fontes iranianas, que Khamenei se encontra num "estado muito grave" desde o bombardeamento israelita que matou o pai.

Esta segunda-feira, o Presidente iraniano procurou por fim aos rumores.


Masoud Pezeshkian afirmou, esta segunda-feira, após uma reunião de sete horas com Mojtaba Khamenei, no sábado, que o Líder está em "plena saúde física".

"Encontrei-me com o Líder da Revolução e discutimos todo o tipo de assuntos. Fisicamente, estava de plena saúde", afirmou Pezeshkian durante a reunião, conforme citado pela agência de notícias semioficial Tasnim.

"Ele ofereceu a sua orientação e eu levantei as preocupações e os problemas. Ele ouviu o que eu tinha para dizer com atenção", acrescentou. A agência de notícias oficial IRNA tinha anteriormente noticiado que Khamenei e Pezeshkian realizaram uma reunião de sete horas para discutir os desafios que o país enfrenta.

O mais importante, sublinhou, foi a ênfase dada por Khamenei à unidade.

"Todos os planos do inimigo visam criar divisão", disse Pezeshkian. "O que temos de fazer é impedir que as divisões surjam".

"Manter a unidade e a coesão foi o conselho mais importante que o Líder Supremo da Revolução enfatizou", disse Pezeshkian.

Acrescentou que a reunião se centrou principalmente nos meios de subsistência da população, no emprego e na habitação, bem como "nos problemas causados ​​pelas sanções".
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