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Direitos Humanos. Maus tratos a idosos durante guerra não são exceção
Numa altura em que se desenha o início de um novo conflito, a Human Rights Watch alerta que os idosos são uma das faixas populacionais mais desprotegidas em contexto de guerra. A organização não-governamental apela às Nações Unidas para garantir a proteção dos civis seniores neste cenário, bem como a todas as partes, para pôr termo a abusos e facilitar a ajuda humanitária a essa faixa.
“Encontraram Deudonne escondido entre as mulheres. Enquanto era arrastado para fora dizia: meus filhos, olhem para mim. Sou velho e cego. Estava apenas a caminho do campo para procurar comida. Porquê matarem-me? Não lhe responderam. Apenas lhe deram um tiro no peito”, conta Edit, de 47 anos. Faz a descrição da execução sumária de Deueydonne Wabone, de 60 anos, pelo grupo armado Seleka, uma aliança de milícias rebeldes na República Centro-Africana.
“Existe uma necessidade urgente dos governos e da Organização das Nações Unidas de reconhecer os riscos específicos e as necessidades de ajuda para as pessoas mais velhas e atuem para protegê-las”, comentou Bridget Sleap, investigadora de direitos das pessoas mais velhas da Human Rights Watch.
Além das execuções, os idosos são um alvo fácil para detenções arbitrárias, tortura, rapto, violência sexual e destruição de propriedade, numa situação de conflito armado, do qual não podem ou decidem não fugir.
“Os soldados do BIR [Batalhão de Intervenção Rápida] usavam uniformes escuros com “BIR” escrito nos capacetes. Entraram na minha casa e pilharam-na. Tiraram o zinco do telhado. Dispararam para as paredes. Podia ver as marcas das balas. Destruíram a porta. Roubaram a minha televisão, rádio, cadeiras, camas e 300,000 CFA (cerca de 460 euros). Penso ter perdido 3 milhões CFA (cerca de 4.700 euros). Foi uma catástrofe. Fiquei sem nada. Todas as minhas coisas, todo o meu dinheiro. Vivo o dia a dia agora e por vezes sou forçado a mendigar. Isto é humilhante”, conta um homem de 61 anos, dos Camarões.
A denúncia é feita no estudo “No one is spared: abuses against older people in armed conflict”, repleto de descrições de atos de selvajaria, como o de que foi vítima o avô de “Mary”, no Sudão do Sul, em 2019.
“Queriam [três soldados do governo do Sudão do Sul] que eu carregasse bens (roubados), mas o meu avô impediu-os. Espancaram o meu avô de 70 anos, primeiro acusando-o de ser rebelde e depois mandaram-no carregar um cesto de cebolas, farinha e mandioca para as suas barracas. Depois enforcaram-no com uma corda. Quando sucumbiu ao peso, os soldados pontapearam-no e espancaram-no com um pau e uma corda”, detalhou a menina de Otogo.
O relatório analisa os padrões de abusos perpetrados contra pessoas entre os 50 e os 90 anos, durante 2013 e 2021, em 14 conflitos ocorridos no enclave Nagorno-Karaback (entre a Arménia e o Azebaijão), no Burkina Faso, Camarões (nas regiões anglófonas do Noroeste e do Sudoeste), Etiópia, Israel e Território da Palestina, Mali, Moçambique, Níger, República Centro-Africana, Síria, Sudão do Sul e Ucrânia.
Também são objeto de análise as experiências dos refugiados sírios mais velhos no Líbano e as atrocidades contra a minoria étnica Rohinga no Estado de Raquine em Myanmar. “Vi-os [soldados do Myanmar] empurrarem o tio do meu marido para o fogo. Vi-os a empurrarem-no de volta para a casa em chamas. Ele é fraco, talvez uns 80 anos… penso que queriam que toda a gente saísse e aqueles que não conseguiam eram atirados para o fogo”, descreveu uma mulher de etnia rohingya.
Os desalojados mais idosos também podem encontrar dificuldades acrescidas em chegar à ajuda humanitária. “Algumas organizações registaram as pessoas mais velhas, mas eu nunca fui registado porque nunca vieram a esta ilha. Também não existe nenhuma clínica aqui. Para ir ao médico tenho de ir a outra ilha ou ao continente”, descreveu um homem de 70 anos, cego, que em 2017 vivia no Sudão do Sul.
As entrevistas que constam do relatório foram feitas presencialmente ou ao telefone. Os relatos são das próprias vítimas de abusos, de familiares ou suas testemunhas, bem como de detidos, jornalistas, membros das forças armadas, membros de governo e diplomatas.
“Existe uma necessidade urgente dos governos e da Organização das Nações Unidas de reconhecer os riscos específicos e as necessidades de ajuda para as pessoas mais velhas e atuem para protegê-las”, comentou Bridget Sleap, investigadora de direitos das pessoas mais velhas da Human Rights Watch.
Apesar de o direito internacional humanitário e as leis da guerra reconhecerem a proteção dos civis mais velhos durante os conflitos armados, sendo por exemplo pedida a remoção segura de civis mais velhos das proximidades de alvos militares, o relatório mostra que não são poucas as exceções.
“As agências da ONU, missões de paz e atores humanitários devem garantir que todas as atividades de proteção e assistência incluam os idosos e suas necessidades específicas”, defendeu Bridget Sleap. “As pessoas mais velhas, com suas necessidades únicas de proteção, não devem mais ser vítimas invisíveis de conflitos armados”, sublinhou.