Eixo franco-alemão dá impulso à candidatura de Durão

Paris e Berlim colocaram esta quinta-feira um ponto final nos rumores sobre possíveis hesitações no apoio a um segundo mandato de Durão Barroso na Comissão Europeia. O Presidente francês e a chanceler alemã garantem estar "sem ambiguidade" ao lado do antigo primeiro-ministro português, mas querem ver aclarado o programa de "intenções" do candidato.

RTP /
"Uma designação prematura minaria tanto a Comissão como o próximo Parlamento Europeu", argumenta o presidente do PSE Olivier Hoslet, EPA

Os líderes políticos do eixo franco-alemão precisaram de dois dias para cimentar o apoio ao desígnio conservador de um segundo mandato de Durão Barroso na chefia do executivo comunitário.

A candidatura do presidente da Comissão Europeia foi formalizada na terça-feira depois do convite formal da presidência checa da União, pela voz do primeiro-ministro Jan Fischer. Quase de imediato, tanto a chanceler alemã como o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, o socialista Bernard Kouchner, afirmavam que dificilmente "imaginariam" outro candidato. Ficava, no entanto, a faltar uma declaração de apoio que não deixasse espaço para a dúvida em torno da solidez do apoio a Durão Barroso. Uma dúvida alimentada nas últimas semanas quer pelo Eliseu, quer pela cúpula do Governo alemão, que pareciam querer condicionar o desenho do próximo executivo comunitário à sobrevivência do Tratado de Lisboa.

Paris e Berlim, assegurou esta quinta-feira o Presidente francês, vão "apoiar a candidatura de Barroso sem ambiguidade". Mas exigem, também, "que ele formalize as suas intenções na véspera do seu segundo mandato". Nas palavras de Nicolas Sarkozy, ladeado por Angela Merkel em Paris, trata-se de apoiar "o senhor Barroso e um programa, ou um programa e o senhor Barroso". O antigo governante português está, na óptica do eixo franco-alemão, vinculado "a um dever, que é proteger os europeus".

A indigitação de Durão Barroso para o segundo mandato, de 2009 a 2014, deverá ter lugar já na próxima semana, no decurso da cimeira de chefes de Estado e de Governo da União Europeia. O objectivo é inscrever a eleição do presidente da Comissão Europeia na sessão constituinte do Parlamento Europeu, que vai decorrer em Estrasburgo de 13 a 15 de Julho.

Reeleição "está longe de ser um acto consumado"

Durão viu os seus objectivos reforçados com o ascendente do Partido Popular Europeu nas eleições para o fórum parlamentar de Estrasburgo. Após o escrutínio, o PPE, que agrupa os eurodeputados portugueses do PSD e do CDS-PP, garante 267 dos 736 lugares do Parlamento Europeu (36,69 por cento).

No flanco oposto, a reeleição continua a encontrar obstáculos. Em comunicado emitido esta quinta-feira em Bruxelas, o presidente do PSE, Poul Nyrup Rasmussen, acentuou a oposição aos desígnios dos conservadores, ao reiterar que os socialistas europeus "não podem apoiar a reeleição de Barroso".

"Não somos, de forma alguma, os únicos a opor-nos a outros cinco anos de Barroso. Ele é o candidato do PPE e agora, tal como antes, a sua reeleição está longe de ser um acto consumado", escreve o presidente do PSE, afastando-se das posições já assumidas por vários dirigentes da sua família política. Entre os quais o primeiro-ministro português, José Sócrates, e os seus homólogos espanhol, José Luís Rodriguez Zapatero, e britânico, Gordon Brown. Os três surgem ao lado de Durão Barroso.

Para Poul Nyrup Rasmussen, "uma designação prematura minaria tanto a próxima Comissão como o próximo Parlamento Europeu".

Paris e Berlim em campanha

O PSE averbou a maior derrota nas eleições entre os 27, que se realizaram entre 4 e 7 de Junho. Dos 217 parlamentares que mantinham na anterior câmara, com 785 assentos, os socialistas europeus passam para 159 num total de 736 (21,60 por cento contra 27,64 por cento). A Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa (ALDE) é a terceira família política em Estrasburgo, com 81 assentos no Parlamento Europeu (11,01 por cento).

No horizonte da União Europeia está também a perspectiva de uma segunda consulta popular sobre o Tratado de Lisboa na República da Irlanda, sem a qual as reformas institucionais traçadas para o funcionamento de uma Europa a 27 não poderão avançar - muitas das quais foram recuperadas do Tratado Constitucional que os eleitores franceses e holandeses rejeitaram há quatro anos.

Nicolas Sarkozy e Angela Merkel esperam que o segundo referendo irlandês, ditado por imperativos constitucionais, tenha lugar em Setembro ou Outubro deste ano. Desta feita, o eixo franco-alemão promete envolver-se directamente na campanha pelo sim.

"A senhora Merkel e eu vamos fazer tudo o que for possível para ajudar os irlandeses a fazerem uma escolha por Lisboa. Se for necessário, estarei pronto para viajar até à Irlanda", frisou o Presidente francês.

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