Epidemia de E.coli é causada por uma nova estirpe

A Organização Mundial de Saúde anunciou hoje que a bactéria de E.coli responsável por 18 mortes na Alemanha e Suécia pertence a numa nova estirpe nunca antes detetada. Os cientistas decifraram o código genético do microrganismo que já causou centenas de infeções na Europa. A fonte da contaminação continua por descobrir e a Rússia decidiu impor um embargo total à venda de legumes provenientes da União Europeia.

RTP /
Produtores espanhóis despejam 300 quilos de produtos hortícolas à porta do consulado alemão em Valência para protestar contra os prejuízos resultantes da identificação errónea dos pepinos espanhóis como fonte da epidemia de e-coli. Manuel Bruque, EPA

Os cientistas acreditam que a estirpe é uma mutação de dois tipos diferentes de bactéria E.coli, com genes agressivos que podem explicar a razão de o surto estar a ser tão amplo e perigoso.

“Esta é uma estirpe única que nunca tinha sido antes isolada em pacientes” declarou à Associated Press Hilde Kruse, um especialista em segurança alimentar da OMS. Segundo ele, a nova estirpe possui várias características que a tornam mais virulenta e capaz de produzir mais toxinas do que muitas outras estirpes de E.coli que existem naturalmente nos intestinos das pessoas.

"Altamente infecciosa e tóxica"As conclusões da OMS receberam uma confirmação independente vinda de Shenzen na China: “Esta E.coli é uma estirpe nova da bactéria que é altamente infecciosa e tóxica”, alertaram os cientistas do Instituto de Genómica da China.

Os estudos preliminares da sequência genética sugerem que a nova bactéria têm genes de dois grupos distintos de E-coli: E.coli Enteroagregativa (EAEC) e E.coli enterohemorrágica (EHEC).

“Parece que está a produzir duas toxinas que causam os danos e provocam diarreia sangrenta e danos nos tecidos, incluindo nos rins”, disse o Dr. Paul Wigley, Um especialista da Universidade de Liverpool ouvido pela BBC .

Origem continua a intrigar especialistasAté agora os especialistas não conseguiram descobrir o que está a provocar o surto, que já se espalhou a dez países europeus e está a fazer com que os consumidores receiem comer pepinos, tomates e alfaces.

Mais de 1500 pessoas já foram infetadas, incluindo 470 que desenvolveram uma rara complicação renal. O número de mortes já ascende a 18, na sua maioria na Alemanha, o país mais duramente atingido.

Os anteriores surtos de E.coli atingiram especialmente as crianças e os idosos mas o atual surto parece estar a atingir um número desproporcionado de adultos, especialmente mulheres.

Um dos aspetos mais invulgares é o número de casos se síndrome hemolítico urémico, uma complicação renal severa que destrói as células vermelhas do sangue e pode afetar também os sistema nervoso central.

Rússia proibiu totalmente os produtos hortícolas da UEEm consequência desta situação a Rússia decidiu proibir totalmente a importação e venda de todos os vegetais provenientes da União Europeia, que até agora apenas se aplicava aos produtos da Espanha e da Alemanha.

“O embargo estará em vigor até estarmos convencidos de que a situação está resolvida, ou seja, que a fonte da infeção foi localizada e se saiba como é transmitida e, ainda mais importante, quando o surto estiver contido e as pessoas deixem de ficar infetadas e a morrer” disse Gennady Onishcenko, chefe da Agencia Federal para a Saúde e Direitos dos Consumidores da Rússia.

A Comissão Europeia considerou “desproporcionada” a decisão das autoridades de Moscovo.

“A Comissão vai hoje escrever às autoridades russas e vamos manter os contactos com elas nos próximos dias, para tentar encontrar uma solução” disse Frederic Vincent, porta-voz da comissão para a Saúde.

"Poderemos nunca vir a saber" diz especialistaA tese de a infeção ter origem em pepinos espanhóis, inicialmente avançada pelas autoridades alemãs para explicar o surto, já foi completamente afastada e a origem da epidemia continua a ser um mistério. O chefe do Instituto Robert Koch, que está a monitorizar a situação na Alemanha, admitiu que o surto pode prolongar-se durante meses, e que “poderemos nunca saber” qual foi a fonte original.

DGS diz que risco em Portugal "é baixo"Por cá o diretor-geral da Saúde afirma que Portugal tem um baixo risco para a infeção, mas reconhece que há motivos para que a DGS se mantenha preocupada e atenta à situação.

"No que respeita a Portugal, o risco é muito baixo, muito pequeno e é sobretudo relacionado com aqueles que tenham viajado recentemente para a Alemanha", declarou, Francisco George à margem do Congresso dos Enfermeiros que hoje decorre em Lisboa.

Para quem esteve recentemente na Alemanha e que adoeça de forma súbita com um quadro gastrointestinal, a DGS recomenda a ida aos serviços hospitalares, referindo a sua passagem por aquele país.

O diretor-geral da Saúde adiantou ainda que o surto tem estado "muito circunscrito à zona de Hamburgo e região norte da Alemanha", mas sem excluir que a fonte do problema possa estar em qualquer ponto da cadeia, "da quinta ao prato".

Graves prejuízos em Espanha e PortugalO surto provocou graves prejuízos aos horticultores espanhóis que viram, numa primeira fase, a suspeita recair sobre os seus produtos. O Governo de Madrid garante que vai pedir compensações financeiras à Alemanha e a Bruxelas.

Em Portugal os horticultores também estão a ser penalizados. Ainda sem números concretos, o responsável da Federação Nacional de Organizações e Produtores de Frutas e Hortícolas, domingos dos Santos, aponta para perdas de "vários milhões de euros" e garantiu à Lusa que a situação é bastante grave.

"Tem de se fazer um levantamento sério entre os produtores mas a situação é dramática", afirmou, acrescentando que se for necessário, os produtores vão pedir ao ministério da Agricultura “algumas medidas compensatórias".

"Não interessa se nós exportamos para a Rússia. Desde que se proíba a importação de produtos da UE na Rússia, os produtores espanhóis ou franceses vão pressionar os mercados mais próximos e nós vamos ser garantidamente afetados", sublinhou o presidente da Federação.

Governo vai pedir compensações a Bruxelas O Governo português defende que a Comissão Europeia deve compensar os produtores pelos prejuízos causando pela bactéria E.Coli, que poderão atingir centenas de milhões de euros e levar a falências.

"Foi uma irresponsabilidade muita grande da Alemanha ao ter provocado um pânico em toda a União Europeia acusando a Espanha de estar a fornecer pepinos infetados com aquela bactéria, o que está a afetar toda a produção na Europa e em Portugal particularmente", afirmou hoje à agência Lusa o ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e das Pescas, António Serrano.

Na próxima semana, o ministro vai transmitir à Comissão Europeia (CE) as preocupações do Governo português e "dizer que a CE deve responsabilizar os Estados que iniciaram este processo, garantindo que possam vir a ser ressarcidos todos os produtores portugueses pelos prejuízos que já tiveram e pelos que possam vir a ter no futuro".

Segundo António Serrano, os produtores de vegetais, principalmente pepino e tomate, "não conseguem vender" e estão a ter um prejuízo semanal de dois milhões de euros.

No entanto, "não sabemos a extensão dos prejuízos que pode vir no futuro, depende da velocidade com que a confiança no consumo seja restaurada e espero que isso aconteça rapidamente, se não os prejuízos podem assumir valores de centenas de milhões de euros" e levar a "algumas falências no setor", afirmou o responsável pela pasta da Agricultura.

Ministro: Produtos nacionais são de toda a confiança"Espero que a Comissão esteja atenta e considere Portugal neste plano de ajuda que acho que tem de ser implementado na Europa", acrescentou.

O ministro da Agricultura alerta todos os portugueses que "todos estes produtos hortícolas são de qualidade e cumprem todos os requisitos de segurança alimentar, não oferecem perigo e devem continuar a comprar produtos hortícolas nacionais".
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