Erdogan em entrevista à RTP: “A UE não tem cumprido as suas promessas em relação à Turquia”

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Em entrevista à RTP, o Presidente turco criticou a falta de apoio por parte dos aliados da NATO e da União Europeia. Recep Tayyip Erdogan lamentou ainda o apoio dos Estados Unidos a forças curdas no combate ao Estado Islâmico em território iraquiano e sírio e recusou acusações de “deriva autoritária” apontadas ao regime turco.

Depois de um referendo histórico que aprovou o novo sistema presidencial, em abril, e precisamente onze meses após a tentativa falhada de golpe de Estado, o Presidente turco falou à RTP sobre o estado atual da Turquia e deixou críticas sonantes aos países aliados e ao Ocidente.

Desde logo, Erdogan censura a atuação de Bruxelas para com Ancara no âmbito do processo de adesão à comunidade.

“A Turquia tem esperado à porta da União Europeia. Durante muito tempo, fomos mantidos à espera”, refere o líder turco, destacando que o pedido de adesão à UE foi entregue há 54 anos e que o seu país tem sido discriminado perante outros.

“Não há nenhum país nos novos estados-membros que tenha sido tão bem sucedido como a Turquia no cumprimento dos requisitos. A União Europeia não tem cumprido as suas promessas em relação à Turquia”, aponta.

Pode ver a entrevista na íntegra aqui.
“Práticas nazis e fascistas”
Sobre a questão dos refugiados, o Presidente turco refere que o país alberga atualmente “três milhões de sírios e iraquianos” e que já investiu 25 milhões de dólares. Segundo os acordos com a UE, a Turquia deveria ter recebido seis mil milhões de euros até ao final de 2016 para conter a vaga migratória, mas Erdogan diz que apenas foram recebidos 725 milhões de euros até ao momento.

“Se não houver lealdade e solidariedade, como é que podemos suportar este fardo? Temos feito todos os possíveis e vamos continuar a fazê-lo”, reitera.

A marcar a atualidade nas relações entre vários países europeus e a Turquia estiveram também as recentes acusações de Erdogan, que se referiu a alguns governos europeus como “nazis”, numa troca azeda de palavras sobretudo com responsáveis alemães e holandeses.

Para o Presidente turco, registam-se agora, tal como no passado, “práticas nazis, fascistas, algumas implementadas e impostas aos meus cidadãos ou a pessoas de origem turca”, lembrando também as polémicas que envolveram, já este ano, dois ministros do Governo turco em solo europeu durante a campanha para o referendo de abril.
Operações na Síria e Irão
Em relação aos Estados Unidos, Erdogan é crítico quanto ao apoio de Washington e de Moscovo a forças curdas, nomeadamente o IPG, no assalto que decorre por estes dias à cidade de Raqa.

O líder turco refere que os norte-americanos “estão a agir com essas organizações terroristas e a providenciar armas, infelizmente”, uma preocupação que levou pessoalmente até Donald Trump durante a visita oficial que fez aos Estados Unidos, em maio.

“Desejamos-lhes a melhor sorte naquilo que estão a fazer. Mas se houver a menor agressão contra o nosso país não os iremos consultar, não colaboraremos com ninguém e faremos o que for necessário”, reitera.

Para o Presidente turco, a posição do Irão no que diz respeito à estabilidade do Médio Oriente tem sido construtiva e destaca que o regime de Teerão está “a trabalhar para encontrar uma solução para o problema sírio”, em conjunto com a Rússia e a Turquia nas conversações de Astana. Erdogan lembra ainda que os Estados Unidos e Arábia Saudita também foram convidados para estas conversações.


Terrorismo e Islão
Na entrevista à RTP, Erdogan recusou fazer ligações entre o islão e o terrorismo. Oficialmente declarado como país secular desde o início do século XX, a Turquia conta com grande tradição islâmica entre a população.

Para o sucessor de Ataturk, o primeiro Presidente e o fundador da República da Turquia, organizações terroristas como o Estado Islâmico ou a al-Qaeda “nada têm que ver com o Islão”.

“Nós, como muçulmanos, opomo-nos a todos os tipos de terrorismo”, refere o líder turco, acrescentando que esse tipo de atuação “é algo que não tem lugar na nossa fé”.
Bloqueio ao Qatar
Acerca do recente bloqueio diplomático ao Qatar, incluindo a Arábia Saudita, Erdogan explica porque é que a Turquia decidiu colocar-se ao lado do pequeno estado do Golfo Pérsico.

“O que está a ser imposto ao Qatar não está certo. É uma armadilha montada ao Qatar”, refere o Presidente turco, apesar de acreditar que o diálogo e os esforços diplomáticos poderão encontrar uma saída. Erdogan espera mesmo que a questão se resolva “até ao final do mês do Ramadão” e que a Riade desempenhe "o papel de irmão mais velho”.

Erdogan não responde diretamente se Ancara está disposta a “entrar em guerra” num eventual conflito que resulte desta tensão no Golfo. “Não esperamos nem desejamos isso”, responde. No entanto, lembra que tanto a Turquia como a França e os Estados Unidos contam com bases militares no território do pequeno emirado árabe.
“Deriva” autoritária?
Relativamente às questões de foro interno, Erdogan recusa as acusações de deriva autoritária e diz que essas acusações chegam de países que “desrespeitam a Turquia”.

O Presidente turco lembra a tentativa de golpe de Estado a 15 de julho de 2016, há precisamente 11 meses, provocado por um “grupo gulenista no interior das Forças Armadas”, e que foi ignorado por supostos aliados.

“No Ocidente nem se lembraram de telefonar a dizer que lamentavam o que estava a acontecer na Turquia. São os mesmos que agora questionam se a Turquia caminha rumo a um regime autoritário”, critica.



Erdogan diz que essa acusação é injusta e relembra que países aliados que pertencem à NATO só contactaram Ancara “semanas depois” da tentativa de golpe.

“Alguns albergam nos seus países vários conspiradores que fugiram após o golpe, incluindo a Grécia e a Alemanha, países da NATO nossos aliados. Porque defendem terroristas? Para que é que temos um acordo sobre a extradição de criminosos?” questiona.

Quanto às acusações de aproveitamento da tentativa de golpe para reprimir toda a oposição, Erdogan garante que a Turquia “é um país civilizado” e que as notícias incriminatórias do regime “são puras mentiras” e fazem parte de uma “desinformação” perante as informações governamentais.
"Responsabilizar os culpados"
Sobre os milhares de detidos nas prisões turcas, o Presidente refere que “a maior parte esteve pessoalmente envolvida na tentativa de golpe” e que os gulenistas se encontravam "infiltrados" em vários organismos do Estado.

"Estamos simplesmente a responsabilizar os culpados", reiterou o chefe de Estado, lembrando que a noite de tentativa de golpe causou a morte de 249 pessoas.

Erdogan voltou a criticar Washington, que continua a recusar o pedido de extradição de Fetullah Gulen, um dos maiores opositores do atual regime turco e que é apontado como responsável pela tentativa de golpe de Estado.

De forma a reafirmar o funcionamento regular da democracia na Turquia, o Presidente lembrou o recente referendo sobre o novo sistema presidencial. Erdogan lembra que o escrutínio foi monitorizado pela OSCE e que o referendo foi aprovado por 52 por cento dos turcos.

O referendo foi criticado na imprensa ocidental por se traduzir numa transição de mais poderes para o Presidente, mas Recep Tayyip Erdogan prefere destacar que o resultado dessa votação veio permitir que o chefe de Estadote esteja associado enquanto membro de um partido político.

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