Erich Priebke encontra sepultura numa prisão italiana

Ninguém queria os restos mortais de Erich Priebke, o antigo capitão nazi das SS responsável pela execução de 335 pessoas no chamado massacre das Fossas Ardeatinas. O corpo do criminoso nazi, falecido aos 100 anos no dia 11 de Outubro passado, foi rejeitado pelo seu país natal, a Alemanha, e pelo seu país adoptivo, a Argentina. Não o quiseram nem a Igreja nem a Câmara de Roma, cidade onde passou os últimos 15 anos em prisão domiciliária. O diário italiano La Repubblica dá hoje conta de que o capitão das SS está sepultado nos terrenos de uma prisão, apenas assinalado com uma cruz.

RTP /
Enrique Marcarian, Reuters

Falecido sem um pedido de perdão nem tão pouco assumir responsabilidade pelo massacre de 335 pessoas em 1945 – retaliação pela morte de 33 soldados alemães -, com a morte de Erich Priebke deu-se ainda o caso de vir o seu advogado procurar transformar a cerimónia fúnebre numa homenagem pública ao criminoso nazi. Erich Priebke, antigo capitão das SS, foi condenado a prisão perpétua em 1998. Passou a última década e meia em prisão domiciliária. Nunca negou as suas convicções nazis, mas atribuía a responsabilidade do massacre das Fossas Ardeatinas ao próprio Hitler.

Com os tumultos que se seguiram a 15 de Outubro na localidade de Albano Laziale, para onde a família fizera transportar os restos mortais de Priebke, as autoridades italianas suspenderam as exéquias fúnebres e decidiram apreender o caixão, mantendo em segredo o seu destino final.

Durante semanas discutiu-se o local onde seria dada sepultura ao antigo capitão nazi. A preocupação fundamental era não fornecer aos movimentos de extrema-direita um novo local de peregrinações e homenagens ao nazismo. O assunto era demasiado quente para que alguém quisesse fornecer uma solução: nem a sua Alemanha Natal, nem a sua Argentina de adopção.

Esta quinta-feira chega finalmente a notícia de que Erich Priebke está sepultado no cemitério de uma prisão italiana. A assinalar o local, uma cruz de madeira sem nome ou datas, apenas um número.

“No meio da vegetação e delimitado por uma cerca, o local onde Priebke foi enterrado está assinalado por uma cruz de madeira no cemitério da prisão”, pode ler-se na crónica de Ezio Mauro, director do La Repubblica.
Operação secreta
Toda a logística do enterro de Priebke obedece aos guiões de filmes de agentes secretos. Primeiro é um director de uma penitenciária que é chamado à sede do Governo em Roma. Segue-se a ordem para funcionários da prisão limparem os acessos ao cemitério que já não eram percorridos à umas duas décadas.

Altos funcionários do Estado deslocam-se então ao aeródromo de Pratica di Mare, onde foi mantido o caixão. Levantam o corpo e transportam-no numa carrinha sob escolta até outro meio de transporte.

“Chega ao seu destino no domingo”, relata Ezio Mauro. Aí, são dois sub-oficiais que cavam a sepultura e deitam o criminoso à terra. Seguem-se as mensagens de função terminada para a unidade de crise responsável por este caso. Numa semi-liberdade enquanto vivo, Erich Priebke fica para a eternidade dentro dos muros de uma penitenciária italiana.
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