EUA. Judeus vítimas dos motins e solidários com manifestantes

por Graça Andrade Ramos - RTP
Pilhagens em Los Angeles, nos motins de 30 para 31 de maio 2020 Reuters

Em Los Angeles, uma das comunidades judaicas mais antigas foi alvo de vandalismo e de anti-semitismo, a coberto dos recentes motins. Já em Minneapolis, os judeus colocaram-se ao lados dos que protestam e que pedem para respirar.

Duas faces da mesma moeda, face aos extremismos que saíram à rua em dezenas de cidades norte-americanas desde segunda-feira passada, na sequência da morte do afro-americano George Floyd durante a sua detenção pela polícia de Minneapolis, no Minnesota.A coberto dos protestos #blm - Black Lives Matter - outras forças têm aproveitado para semear o caos e aprofundar ainda mais as divisões da sociedade americana.

Apontam-se dedos da extrema-esquerda à extrema-direita, passando por anarquistas e pela influência russa.

Na noite de sábado para domingo, em los Angeles, a fúria dessas forças desconhecidas voltou-se contra a poderosa comunidade judaica norte-americana.

A violência levou nessa noite à detenção de quase 400 pessoas. Na confusão, em Fairfax, na zona alta da cidade, sinagogas e lojas kosher foram vandalizadas e saqueadas.

Provas de que estes não foram alvos casuais da turba, os graffiti anti-semitas inscritos nas paredes de alguns templos: "F*.. Israel" e "Palestina Livre".
Reparar divisões
A reação da comunidade foi de repúdio a tal estigma.

O diretor regional do Comité Judaico Americano, Richard S.Hirschhaut, lamentou que "certos manifestantes em Los Angeles tenham recorrido à violência e ao vandalismo."

"Os epítetos escritos nas paredes não fazem nada para promover a causa da paz ou da justiça, aqui ou em qualquer lado", acusou.

Elan S. Carr, Enviado Especial para Acompanhar e Combater o Antisemitismo, referiu que "estes graffitti vêm provar que o #antiZionismo é #antiSemitismo."

Liora Rez, diretor do observatório Stop Antisemitismo, condenou igualmente as frases, num comunicado enviado ao Jewish Journal. "Voltamos a ver vil anti-semitismo disfarçado de ativismo", escreveu.

A Liga Anti-Difamatória Los Angeles, uma plataforma que procura combater o ódio aos judeus, publicou imagens das paredes inscritas, sob a pergunta "digam-me, este horrível ódio ainda diz respeito a #blm ou #georgefloyd?".


Pouco antes, na sua página Twitter, afirmara a sua solidariedade com a comunidade negra norte-americana, "mais uma vez sujeita a dor e sofrimento às mãos de um sistema injusto e racista".
Solidariedade em Minneapolis
Todas as comunidades judaicas convivem com velhos fantasmas de perseguições de séculos anteriores. Abraçar a dor das comunidades negras atingidas por atitudes racistas nos Estados Unidos é um curto passo.

Ainda mais quando alguém pertence, em simultâneo, a ambos os grupos, como sucede a Shahanna McKinney Baldin, milhares de quilómetros para nordeste de Los Angeles, precisamente em Minneapolis, onde tudo começou na semana passada.

Shahanna é judia afro-americana, educadora, e trabalha para o EDOT - um organismo que investe na colaboração entre diferentes comunidades. "Os judeus são um grupo diversificado, assim como os afro-americanos" referiu, ao The Jerusalem Post.

"Uma das razões porque a brutalidade policial contra as pessoas negras é uma questão judaica é que alguns dos que foram atingidos por ela são judeus. Outra razão porque a brutalidade policial contra as pessoas negras é uma questão judaica é que não está alinhada com os nossos valores judaicos - valores como Tzedek, Shalom, Al Ta'amod Al Dam Re'echa", explicou Shahanna, referindo-se à justiça, à paz e ao conceito não fiques sem reagir ao sangue do teu vizinho.

Ativistas judeus locais expressaram ao The Jerusalem Post o mesmo ponto de vista solidário e a sua reação aos motins das últimas noites.

Carin Mrotz, diretora executiva da organização Comunidade Judaica em Ação, apontou o dedo à polícia e à forma como tratou os manifestantes.

"Estive lá nos primeiros dias e todo o protesto foi muito pacífico. E depois assistimos a uma escalada intensa por parte da polícia, e começou realmente a ficar fora de controlo", referiu.

Já a intervenção da Guarda Nacional, que conseguiu acalmar os ânimos e que limpou as ruas, deixou sem resposta e sem reparação o "grande sofrimento das comunidades" após a morte de Floyd, há uma semana.

"Foi como, bem, sabem, os polícias locais portaram-se mal, por isso trouxemos os militares. Não creio que essa seja a solução para as comunidades que alguns dos nossos líderes eleitos acreditam ser", afirmou.
Debater o racismo e o sistema
Tamar Ghidalia frequenta a sinagoga Shir Tikvah, em Minneapolis, e não consegue prevêr o que poderá suceder. "Vamos ver, dia a dia", afirmou.As comunidades minoritárias de Minneapolis Sul foram severamente atingidas nos motins e muitos dos negócios que vendiam os seus alimentos, por exemplo, desapareceram em fumo.

Ghidalia disse ao The Jerusalem Post que vê duas questões em causa no que está a suceder.

"Uma é local - o que as pessoas sentem é que [a morte de Floyd] foi uma morte sem sentido. A segunda é nacional - as pessoas começaram a protestar, também, porque é um sintoma de um problema maior, e é realmente sobre racismo."

O maior perigo, referiu por seu lado Mrotz, é que toda a violência nos "afaste ainda mais de um debate sobre o racismo inerente no nosso sistema policial e judicial".

"Preocupa-me que mais pessoas de cor e negras sofram, e não apenas fisicamente, nestes protestos", afirmou Mrotz. "Em Minneapolis, estamos a ver negócios de negros e de nativos destruídos. A minha preocupação, creio, é que isto nos afaste mais da justiça e da humanidade".

Para Shahanna, a solução é fazer pontes e criar laços.

"A nossa organização debruça-se sobre questões raciais e de diversidade étnica nas comunidades judaicas do Midwest", lembrou. "Trabalhamos na construção de alianças. Seguir em frente irá depender de alianças fortes, fundadas em relacionamentos fortes."
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