EUA. Relatório acusa príncipe saudita de aprovar a morte de Jamal Khashoggi

por Joana Raposo Santos - RTP
O assassinato de Jamal Khashoggi despoletou reações a nível global e manchou a imagem do príncipe saudita, Mohammad bin Salman. Ahmed Yosri - Reuters

Um relatório da inteligência norte-americana que deverá ser revelado ao público esta quinta-feira conclui que o príncipe herdeiro saudita aprovou o assassínio do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018. A Casa Branca já confirmou que está a ser preparada a divulgação do documento, até agora confidencial.

O presidente Joe Biden, que ainda recentemente anunciou que passaria a comunicar diplomaticamente apenas com o rei saudita e não com o príncipe herdeiro, disse já ter lido o relatório sobre a morte de Khashoggi.

Uma versão classificada do documento tinha já sido partilhada com membros do Congresso dos EUA no final de 2018, mas na altura a Administração Trump terá recusado divulgá-lo, apesar das exigências de legisladores e de ativistas dos Direitos Humanos.

No passado, vários órgãos de comunicação tinham já sugerido que as agências de inteligência norte-americanas possuíam um grau de confiança médio a elevado de que Mohammed bin Salman, líder de facto da Arábia Saudita, tinha ordenado a morte de Khashoggi.

A divulgação do relatório chega numa altura em que a Casa Branca enfrenta a pressão de grupos de defesa dos Direitos Humanos e de dissidentes sauditas para tomar medidas quanto às persistentes violações desses direitos por parte de Riade.

Os opositores da coroa sugerem a imposição de novas sanções pelos Estados Unidos, argumentando que tal poderá ajudar a virar a página após o “acolhimento de déspotas” que dizem ter marcado a Administração Trump.

Na semana passada, em entrevista à CNN, o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, tinha já revelado que a Administração Biden se preparava para reagir à divulgação do relatório classificado com “uma resposta adicional” que consistiria em responsabilizar os autores do crime, mas sem especificar de que forma.
Responsabilização da coroa saudita
Agnès Callamard, relatora especial das Nações Unidas que investigou a morte de Jamal Khashoggi, acredita que, “no mínimo” deveriam ser lançadas sanções sobre os bens pessoais e contas bancárias do príncipe bin Salman caso a inteligência norte-americana de facto comprove que foi este a ordenar ou incitar ao homicídio.

A responsável frisou a importância de Joe Biden exigir à Arábia Saudita a identificação do local onde se encontram os restos mortais do jornalista, que até hoje nunca foram localizados.

“Quanto tivermos mais informações, será impossível ao resto do mundo ignorar qualquer que seja a informação fornecida” pelo relatório, disse ainda Agnès Callamard, numa conferência da Universidade de Columbia.

Khalid Aljabri, exilado saudita no Canadá que já trabalhou para a família real, defendeu por sua vez que “a divulgação do relatório é um passo há muito aguardado e que deve ser acompanhado pela responsabilização [dos culpados] para que este tipo de crime bárbaro não volte a acontecer”.

“As sanções inofensivas da Administração Trump não impediram Mohammed bin Salman de perseguir outras pessoas. A Administração Biden deve tomar medidas mais eficazes, sancionando altos-funcionários e outras figuras políticas, instituições e entidades que contribuíram para o assassínio”, considerou, em declarações ao Guardian.
Penas de morte dos acusados foram anuladas
Jamal Khashoggi, jornalista saudita de 59 anos que residia nos Estados Unidos, era um forte crítico da família real do país de origem. A 2 de outubro de 2018 entrou no Consulado saudita em Istambul para recolher documentos necessários ao seu futuro casamento e nunca mais foi visto.

Na altura, a Arábia Saudita confessou que o jornalista morreu no edifício depois de as negociações para que regressasse ao país terem falhado. A Turquia acredita que foi estrangulado e desmembrado, apesar de nunca terem sido encontrados vestígios do corpo.

O assassinato despoletou reações a nível global e manchou a imagem do príncipe saudita, Mohammad bin Salman, que a CIA e vários governos acreditam ter orquestrado a morte do jornalista. As acusações foram sempre rejeitadas pela realeza.

No final de 2019, o procurador-geral da Arábia Saudita informou que cinco pessoas foram sentenciadas à morte devido ao envolvimento no caso do homicídio de Khashoggi e que outras três pessoas foram condenadas em penas de prisão de 24 anos.

Em setembro do ano passado, porém, a justiça saudita anulou as sentenças de morte e condenou os cinco sentenciados a 20 anos de prisão. As penas dos restantes foram reduzidas para entre sete a dez anos de prisão.
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