Mundo
Exército sírio reforça bombardeamentos contra bastião rebelde
A artilharia do Exército sírio voltou hoje a abater-se sobre Homs, o baluarte do movimento de contestação ao Presidente Bashar al-Assad. Em 24 horas, morreram pelo menos 95 civis. E a população da cidade teme que o regime esteja a preparar um assalto terrestre. Na frente diplomática, é debaixo de críticas que o ministro russo dos Negócios Estrangeiros dá início a conversações em Damasco. Serguei Lavrov acusa as chancelarias ocidentais de terem reagido com “histeria” ao veto de Moscovo e Pequim à resolução do Conselho de Segurança da ONU que apoiava o plano de paz da Liga Árabe para a Síria.
A nova vaga de disparos de artilharia começou a cair sobre Homs ao início da manhã. O Exército está a centrar os bombardeamentos na zona residencial de Baba Amr, à semelhança do que aconteceu na segunda-feira. Naquele bairro, descreveu à agência Reuters o ativista Mohammed al-Hassan, não há energia elétrica e “todas as comunicações estão cortadas”. Entre os habitantes da cidade ganha corpo o receio de que a chuva de balas de metralhadoras pesadas e granadas de morteiro dê lugar a uma ofensiva terrestre para esmagar a rebelião contra o regime de Bashar al-Assad.
As autoridades de Damasco negam que os ataques estejam a incidir sobre zonas residenciais. Damasco alega ter abatido, nos últimos bombardeamentos, “dezenas de terroristas” apostados em fomentar a cisão do país. Os relatos recolhidos a partir da cidade contam uma história diferente: o correspondente da BBC em Homs testemunhou bombardeamentos contra bairros civis durante a noite, enquanto a população tentava sepultar os mortos em valas comuns.
Em declarações à Reuters, a oposicionista Catherine al-Talli, do Conselho Nacional Sírio, avaliou as últimas movimentações do Exército, que estará agora a um quilómetro das zonas bombardeadas, como uma tentativa de demonstrar que Bashar al-Assad mantém as rédeas do poder e está em condições de permanecer na Presidência pelo menos até 2014, ano em que termina o mandato. Uma estratégia desenhada para coincidir com a deslocação do ministro russo dos Negócios Estrangeiros a Damasco.
“Assad precisa de parecer forte diante dos russos. Ele não conseguiu controlar Homs desde a eclosão da revolta e, agora que viu que não enfrenta qualquer ameaça real por parte da comunidade internacional, parece que quer acabar com a cidade. Há sinais de televisão em direto de Baba Amr e o mundo inteiro pode ver o bombardeamento indiscriminado de civis. Isto não o demoveu”, denunciou Al-Talli.
“Histeria”
É com a repressão contínua em pano de fundo que Serguei Lavrov inicia, na capital da Síria, uma ronda de contactos com figuras do regime. Depois de ter inviabilizado, com a China, a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que secundava o plano de paz da Liga Árabe - a apelar à saída de cena de Bashar al-Assad -, o Governo russo tem sido um dos alvos preferenciais da reprovação das diplomacias ocidentais. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, classificou mesmo como uma “farsa” o posicionamento de russos e chineses.
A porta-voz do Departamento de Estado dos EUA Victoria Nuland exortou entretanto o ministro russo dos Negócios Estrangeiros a “utilizar esta oportunidade para tornar absolutamente claro ao regime de Assad o quão isolado está e encorajar Assad e o seu povo a aproveitarem o plano da Liga Árabe e a providenciarem uma transição”.
Lavrov respondeu à letra. A reação ocidental ao veto de Moscovo, redarguiu o governante russo, aproxima-se da “histeria”. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia garante que a deslocação a Damasco tem por finalidade obter uma “rápida estabilização da situação na Síria”. O Governo chinês está agora a ponderar, por seu turno, o envio de missões diplomáticas a países da Ásia ocidental e do norte de África para impulsionar uma “solução política” para o terramoto político e social da Síria.
Na segunda-feira, a dissensão diplomática ascendeu em dimensão com o encerramento da embaixada dos Estados Unidos em Damasco e com a chamada a Londres do representante diplomático da Grã-Bretanha na Síria. Entrevistado pela cadeia televisiva NBC, o Presidente norte-americano, Barack Obama, reiterou “a mensagem” de que “chegou a hora de Assad partir”.
“Os nossos medos tornaram-se realidade”
Organizações de defesa dos Direitos Humanos e ativistas sírios estimam em mais de sete mil o número de vítimas mortais da repressão desde o início da revolta, em março do ano passado. O último número calculado pelas Nações Unidas é de 5400 e remonta a janeiro – a confirmação de dados no terreno é cada vez mais difícil. Irredutível na acusação de que o movimento oposicionista está a ser alimentado por interesses externos, o Governo sírio afirma que foram mortos pelo menos dois mil elementos das forças de segurança.
De Berlim sai a proposta da formação de um grupo internacional de contacto para apertar ainda mais o nó em torno de Bachar al-Assad. Peter Wittig, embaixador alemão na ONU, descreveu a ideia como “uma coligação alargada de amigos da Liga Árabe e amigos da Síria, acima de tudo”.
“Os nossos medos tornaram-se realidade. Assad aproveitou a situação, uma vez mais, como uma licença para matar. É o triste rescaldo do veto”, lamentou o diplomata germânico.
Para já, o cenário de uma intervenção militar internacional em solo sírio suscita mais temores do que entusiasmo, quer entre os tradicionais aliados do regime, quer entre as lideranças políticas de europeus e norte-americanos. Teme-se que uma operação análoga aos ataques aéreos da NATO que ajudaram a derrubar Muammar Kadhafi na Líbia agrave ainda mais a carnificina. Isto num país marcado por profundas divisões sectárias que a revolta trouxe à superfície – a maioria da população de 22 milhões de pessoas é muçulmana sunita; a elite no poder pertence à minoria alauita.
Obama continua a defender que é possível divisar uma solução pacífica. Mas há sinais em sentido inverso na Administração democrata. Pouco depois das declarações do Presidente à NBC, o porta-voz da Casa Branca Jay Carney assegurava que Washington não iria retirar “quaisquer opções da mesa”.
As autoridades de Damasco negam que os ataques estejam a incidir sobre zonas residenciais. Damasco alega ter abatido, nos últimos bombardeamentos, “dezenas de terroristas” apostados em fomentar a cisão do país. Os relatos recolhidos a partir da cidade contam uma história diferente: o correspondente da BBC em Homs testemunhou bombardeamentos contra bairros civis durante a noite, enquanto a população tentava sepultar os mortos em valas comuns.
Em declarações à Reuters, a oposicionista Catherine al-Talli, do Conselho Nacional Sírio, avaliou as últimas movimentações do Exército, que estará agora a um quilómetro das zonas bombardeadas, como uma tentativa de demonstrar que Bashar al-Assad mantém as rédeas do poder e está em condições de permanecer na Presidência pelo menos até 2014, ano em que termina o mandato. Uma estratégia desenhada para coincidir com a deslocação do ministro russo dos Negócios Estrangeiros a Damasco.
“Assad precisa de parecer forte diante dos russos. Ele não conseguiu controlar Homs desde a eclosão da revolta e, agora que viu que não enfrenta qualquer ameaça real por parte da comunidade internacional, parece que quer acabar com a cidade. Há sinais de televisão em direto de Baba Amr e o mundo inteiro pode ver o bombardeamento indiscriminado de civis. Isto não o demoveu”, denunciou Al-Talli.
“Histeria”
É com a repressão contínua em pano de fundo que Serguei Lavrov inicia, na capital da Síria, uma ronda de contactos com figuras do regime. Depois de ter inviabilizado, com a China, a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que secundava o plano de paz da Liga Árabe - a apelar à saída de cena de Bashar al-Assad -, o Governo russo tem sido um dos alvos preferenciais da reprovação das diplomacias ocidentais. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, classificou mesmo como uma “farsa” o posicionamento de russos e chineses.
A porta-voz do Departamento de Estado dos EUA Victoria Nuland exortou entretanto o ministro russo dos Negócios Estrangeiros a “utilizar esta oportunidade para tornar absolutamente claro ao regime de Assad o quão isolado está e encorajar Assad e o seu povo a aproveitarem o plano da Liga Árabe e a providenciarem uma transição”.
Lavrov respondeu à letra. A reação ocidental ao veto de Moscovo, redarguiu o governante russo, aproxima-se da “histeria”. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia garante que a deslocação a Damasco tem por finalidade obter uma “rápida estabilização da situação na Síria”. O Governo chinês está agora a ponderar, por seu turno, o envio de missões diplomáticas a países da Ásia ocidental e do norte de África para impulsionar uma “solução política” para o terramoto político e social da Síria.
Na segunda-feira, a dissensão diplomática ascendeu em dimensão com o encerramento da embaixada dos Estados Unidos em Damasco e com a chamada a Londres do representante diplomático da Grã-Bretanha na Síria. Entrevistado pela cadeia televisiva NBC, o Presidente norte-americano, Barack Obama, reiterou “a mensagem” de que “chegou a hora de Assad partir”.
“Os nossos medos tornaram-se realidade”
Organizações de defesa dos Direitos Humanos e ativistas sírios estimam em mais de sete mil o número de vítimas mortais da repressão desde o início da revolta, em março do ano passado. O último número calculado pelas Nações Unidas é de 5400 e remonta a janeiro – a confirmação de dados no terreno é cada vez mais difícil. Irredutível na acusação de que o movimento oposicionista está a ser alimentado por interesses externos, o Governo sírio afirma que foram mortos pelo menos dois mil elementos das forças de segurança.
De Berlim sai a proposta da formação de um grupo internacional de contacto para apertar ainda mais o nó em torno de Bachar al-Assad. Peter Wittig, embaixador alemão na ONU, descreveu a ideia como “uma coligação alargada de amigos da Liga Árabe e amigos da Síria, acima de tudo”.
“Os nossos medos tornaram-se realidade. Assad aproveitou a situação, uma vez mais, como uma licença para matar. É o triste rescaldo do veto”, lamentou o diplomata germânico.
Para já, o cenário de uma intervenção militar internacional em solo sírio suscita mais temores do que entusiasmo, quer entre os tradicionais aliados do regime, quer entre as lideranças políticas de europeus e norte-americanos. Teme-se que uma operação análoga aos ataques aéreos da NATO que ajudaram a derrubar Muammar Kadhafi na Líbia agrave ainda mais a carnificina. Isto num país marcado por profundas divisões sectárias que a revolta trouxe à superfície – a maioria da população de 22 milhões de pessoas é muçulmana sunita; a elite no poder pertence à minoria alauita.
Obama continua a defender que é possível divisar uma solução pacífica. Mas há sinais em sentido inverso na Administração democrata. Pouco depois das declarações do Presidente à NBC, o porta-voz da Casa Branca Jay Carney assegurava que Washington não iria retirar “quaisquer opções da mesa”.