"Fação lunática". Dezenas de detidos em protestos após ataque que feriu cinco pessoas em Dublin

A capital irlandesa foi, na noite de quinta-feira, palco de violentos confrontos que resultaram em 34 detenções. Em causa está um ataque com faca que deixou cinco pessoas feridas, incluindo três crianças. As autoridades falam num episódio sem precedentes nas últimas décadas, associando os desacatos a "uma fação completamente lunática guiada pela ideologia de extrema-direita".

Joana Raposo Santos - RTP /
No total, foram mobilizados mais de 400 agentes para a resposta aos protestos pela cidade Clodagh Kilcoyne - Reuters

"O que vimos ontem à noite foi uma extraordinária explosão de violência (…), com cenas a que não assistíamos há décadas", afirmou esta sexta-feira o chefe da polícia irlandesa, Drew Harris, em conferência de imprensa.

"No total, foram detidas 34 pessoas, 32 das quais vão comparecer em tribunal já esta manhã", adiantou, acrescentando que um agente da polícia ficou gravemente ferido nos protestos em Dublin na última noite.

Para além das agressões, vários veículos foram incendiados e pelo menos uma loja foi pilhada no centro da capital irlandesa, com alguns manifestantes a lançarem foguetes e fogo-de-artifício.

As autoridades formaram um cordão humano em torno do Parlamento. No total, foram mobilizados mais de 400 agentes para a resposta aos protestos pela cidade.

“Não poderíamos ter previsto” tamanha violência, frisou esta manhã Harris, adiantando que pelo menos um “elemento radicalizado” está entre os autores dos distúrbios e culpando o discurso de ódio e desinformação nas redes sociais para a escalada da violência. “Os grupos de extrema-direita agravaram a situação”, declarou.

Segundo o chefe da polícia irlandesa, “uma fação completamente lunática guiada pela ideologia de extrema-direita” esteve por trás dos desacatos.
Polícia não exclui quaisquer motivações para o ataque
Na origem dos protestos está um ataque, na quinta-feira, numa rua do centro da cidade. Três crianças e uma mulher foram esfaqueadas, acabando a polícia por prender um homem na casa dos 50 anos.

Tanto a mulher, de cerca de 30 anos, como uma menina de cinco anos e o suspeito do ataque ficaram com ferimentos graves. Já os outros dois menores, um menino de cinco anos e uma outra menina de seis, ficaram com ferimentos ligeiros. Um deles já teve alta.
O episódio aconteceu no exterior da escola Gaelscoil Choláiste Mhuire. As autoridades disseram estar com “mente aberta” na investigação ao sucedido. Inicialmente, um agente tinha avançado que “não houve ligação ao terrorismo”. Mais tarde, porém, o chefe da polícia disse “não excluir qualquer possível motivação para este ataque”.

“Um indivíduo foi detido e não estamos em busca de mais envolvidos neste incidente neste momento, mas a investigação vai, obviamente, desenvolver-se”, adiantou Drew Harris horas depois do ataque.
O que pedem os manifestantes?
Numa altura de crise imobiliária no país, várias figuras de extrema-direita têm aproveitado o tema da imigração para culparem essas pessoas, argumentando que “a Irlanda está cheia”. O bairro onde se concentraram os protestos da última noite é habitado por vários imigrantes.

Os manifestantes focaram o seu discurso, precisamente, em convicções anti-migratórias, segurando cartazes com o lema “Irish Lives Matter” (numa referência ao movimento antirracismo “Black Lives Matter”) e agitando bandeiras da Irlanda.

Jornalistas que tentaram entrevistar manifestantes nos protestos da noite de quinta-feira chegaram a ser ameaçados. Vários dos participantes acusaram a comunicação social de não dizer a verdade em relação à imigração.Tanto a polícia como vários políticos apelaram à calma entre os manifestantes e alertaram para a desinformação em torno do ataque.

O presidente da Irlanda, Michael Higgins, veio já afirmar que “este incidente terrível é um assunto para a polícia, e o facto de estar a ser usado ou abusado por grupos com uma agenda que ataca os princípios da inclusão social é repreensível e merece condenação por todos aqueles que acreditam no Estado de Direito e na democracia”.

A ministra da Justiça, Helen McEntee, considerou os episódios de violência “intoleráveis” e afirmou que “não se deve permitir que elementos violentos e manipuladores usem uma tragédia para provocar estragos”.

c/ agências
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