Funeral de Ali Montazeri dá lugar a marcha contra regime iraniano
Milhares de partidários do grande ayatollah Hossein Ali Montazeri participaram esta segunda-feira, em Qom, nas cerimónias fúnebres do clérigo iraniano, que morreu na noite de sábado aos 87 anos. O cortejo, que juntou os principais líderes da Oposição ao Presidente Mahmud Ahmadinejad, transformou-se numa marcha de protesto contra a cúpula do regime islamista.
"Montazeri não morreu. O Governo é que está morto". O grito de ordem, apenas um entre muitos, foi entoado por milhares de pessoas concentradas em Qom, a Sul de Teerão, para o funeral de Hossein Ali Montazeri, um dos clérigos mais reverenciados entre os xiitas. Na cidade santa, as autoridades de Teerão procuraram vedar as ruas e o mausoléu de Masumeh aos jornalistas internacionais. Contudo, o bloqueio voltou a ser rompido através da Internet pelos portais ligados à Oposição iraniana.
Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karoubi, dirigentes dos principais movimentos de Oposição a Mahmud Ahmadinejad, estiveram à cabeça do cortejo fúnebre. Ambos haviam apelado à participação da população no dia de "luto público". Mas as cerimónias depressa deram lugar a manifestações contra o Presidente releeito no escrutínio de 12 de Junho, um processo eivado de denúncias de fraudes e sucessivas acções de protesto esmagadas pelo punho de ferro de Teerão - o balanço do regime limita a 36 o número de mortos na repressão pós-presidenciais; a Oposição garante que pelo menos 72 pessoas morreram.
A par de Ahmadinejad, o Guia Supremo do Irão esteve entre os alvos da ira dos manifestantes. "Assassino" foi um dos epítetos reservados em Qom à mais alta figura do regime.
Confrontos em Qom
O site oposicionista Rahesabz.net dá conta de confrontos entre elementos da Ansar Hezbollah, uma facção pró-regime, e partidários da Oposição. Mas também entre a polícia e os apoiantes de Mousavi e Karoubi, que preenchiam a multidão com lenços e braçadeiras verdes, a cor adoptada pelos adversários de Mahmud Ahmadinejad. Outro dos sites da Oposição, Kaleme.org, adianta que alguns dos manifestantes atiraram pedras às forças de segurança. Centenas de membros da milícia Basidj rumaram à residência do grande ayatollah Ali Montazeri, de onde terão levado todas as faixas de luto.
No domingo, horas depois da notícia da morte do clérigo, o Guia Supremo do Irão referia-se a Hossein Ali Montazeri como um jurista de excepção. Ao mesmo tempo, Ali Khamenei não poupou críticas ao grande ayatollah, dizendo esperar que "Deus o perdoasse" por ter falhado o seu "teste crucial" - o momento da história moderna do Irão em que Montazeri se afastou do fundador da República Islâmica, o ayatollah Ruhollah Khomeini. Ao mesmo tempo, a agência oficial Irna descrevia Montazeri como "o clérigo dos amotinados".
Três dias antes de morrer, Hossein Ali Montazeri, que esteve sempre ao lado da Oposição nas denúncias de fraudes eleitorais, condenara uma vez mais "as mortes de pessoas inocentes" e "as detenções de militantes políticas que reivindicam a liberdade". A activista iraniana Shirin Ebadi, Prémio Nobel da Paz, homenageou esta segunda-feira o eminente teólogo e jurista xiita, referindo-se-lhe como "o pai dos Direitos Humanos" no país dos ayatollahs: "Aprendi com ele que o silêncio dos oprimidos ajuda os opressores e que não devo permanecer silenciosa".
Clérigo dissidente
Hossein Ali Montazeri foi uma das figuras mais simbólicas da Revolução de 1979 que depôs o Xá Reza Pahlevi. No apogeu de Khomeini, chegou a ser apontado como o delfim do imã. Em 1989, poucos meses antes da morte do pai do regime, Montazeri exclui-se da cúpula religiosa de Teerão, ao contestar o currículo das autoridades em matéria de Direitos Humanos.
Em 1997, o clérigo de Qom voltava a entrar em rota de colisão com os círculos do poder, questionando os poderes atribuídos ao Guia Supremo do país, uma posição que passara a ser ocupada por Ali Khamenei. Por diversas ocasiões, acusou os dirigentes iranianos de terem imposto ao povo uma "ditadura em nome do Islão", denunciando o que considerava ser a subversão do conceito de "libertação" subjacente à Revolução do final dos anos de 1970.
Após as presidenciais de Junho, já doente, surgiu ao lado dos movimentos oposicionistas para rejeitar os resultados apurados pelo regime. Foi nessa altura que proclamou uma fatwa (decreto religioso) contra o Governo.