Gronelândia. Tarifas americanas à Europa podem desencadear “choque económico”

De acordo com um dos economistas ouvidos pela Lusa, o impacto dependerá, em grande parte, da perceção dos investidores. Se estes “esperarem que a Europa ceda, os danos económicos podem ser limitados”.

RTP /
Foto: Leonhard Foeger - Reuters

A possibilidade de os Estados Unidos avançarem com novas tarifas sobre a Europa, num contexto de tensões relacionadas com a Gronelândia, poderá ter impactos significativos na economia global e nos mercados financeiros, com o ouro a beneficiar e os índices norte-americanos sob pressão, segundo analistas citados pela agência Lusa.

O economista-chefe da empresa Allianz Global Investors, Christian Schulz, considera que eventuais “tarifas impostas pelo presidente Trump devido à Gronelândia podem levar a uma rápida escalada para um conflito comercial global”. Para o responsável, “os mercados financeiros serão um indicador crucial para determinar se o confronto se dissipará rapidamente ou se se transformará num choque económico desestabilizador”.

Schulz alerta que, caso a União Europeia responda com medidas de retaliação, poderá gerar-se “um grande choque estagflacionário- uma combinação de inflação elevada com crescimento nulo e aumento do desemprego”, capaz de afetar simultaneamente o crescimento económico e a inflação, obrigando a uma revisão dos cálculos de política monetária por parte dos bancos centrais, segundo a agência Lusa.Em contrapartida, “uma reação negativa dos mercados pode aumentar rapidamente o custo da escalada para Washington e fortalecer as vozes no Congresso ou nos tribunais que procuram conter o Governo norte-americano”.

De acordo com o economista, o impacto dependerá, em grande parte, da perceção dos investidores. Se estes “esperarem que a Europa ceda, os danos económicos podem ser limitados”.Os efeitos far-se-iam sentir em vários segmentos dos mercados financeiros.

Schulz sublinha que a situação “provavelmente afetaria muito os ativos de risco”, destacando “as empresas manufatureiras europeias expostas aos EUA e as empresas de serviços americanas dependentes dos mercados europeus”.

Ao nível das moedas, o euro poderá sair favorecido caso os investidores europeus tragam de volta capitais investidos nos Estados Unidos, um movimento que poderá prejudicar a dívida soberana norte-americana e intensificar a pressão sobre a administração dos EUA, segundo a agência Lusa.

Ainda assim, o analista adverte que, neste cenário, “nem o dólar nem o euro provavelmente funcionariam como portos seguros confiáveis”, o que poderá favorecer outros ativos. “Os metais preciosos- e possivelmente o iene” surgem, assim, como “os principais beneficiários”, conclui.Em consequência, o preço do ouro- um dos ativos de refúgio- subiu, esta terça-feira, no início das negociações, “atingindo um novo máximo histórico acima dos 4.700 doláres (cerca de 4 mil euros)”, afirma o CED da corretora ActivTrades Europe, Ricardo Evangelista.

O aumento das tensões entre os Washington e Europa, devido às exigências de Donald Trump relativamente à Gronelândia e a reação firme da europa contra os planos do presidente dos EUA, “os ativos de refúgio estão a beneficiar de uma forte procura, sustentando os preços do ouro em níveis recorde”, afirma Evangelista.

No âmbito das bolsas, “o S&P 500 está a desvalorizar cerca de 1 por cento numa reação às ameaças de imposição de tarifas adicionais por parte da administração norte-americana contra países europeus que se opõem aos planos de Washington para a região”, segundo o analista da AtivcTrades Europe, Henrique Valente.

Relativamente ao crédito, as implicações “seriam provavelmente limitadas” sendo que a Dinamarca tem margem orçamental “para suportar um potencial choque económico ou orçamental”, segundo Yesenn El-Radhi, vice-presidente do Grupo Soberano da Morningstar, um grupo especializado em análise de risco de crédito soberano, ou seja, na capacidade de os países pagarem as suas dívidas.

As crescentes tensões entre os EUA e a Europa, devido à questão da Gronelândia, afetam principalmente os países europeus com “finanças mais frágeis”, em particular, “no que diz respeito ao comércio exterior e às necessidades de gastos com a defesa europeia”, diz El-Radhi.

A nível nacional, o Governo português- à semelhança da maioria dos países europeus- mantêm uma “resposta unida e bastante forte” em relação às ameaças do Presidente norte-americano, disse Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças, na passada segunda-feira.

Miranda Sarmento garantiu ainda, que “Portugal estará sempre do lado do compromisso, da solução maioritária e da defesa da Europa”.
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