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Irão "terá armas nucleares dentro de cinco anos" prevê Israel para justificar reserva à defesa
O primeiro-ministro israelita afirmou esta tarde que o país irá manter intacto o seu direito a agir contra o Irão, mesmo que Washington regresse ao acordo nuclear de 2015. Israel acredita que Teerão vai atingir capacidade militar atómica num prazo de cinco anos, com ou sem acordo.
Naftali Bennet defendeu mesmo que é necessária uma nova estratégia contra o velho inimigo que usa ainda milícias e grupos terroristas para atingir Israel. "Temos de atingir quem os envia", afirmou.
“Israel contra o Irão é na verdade a batalha do mundo inteiro contra um regime islamita radical
que busca uma hegemonia xiita sob uma cúpula nuclear”, considerou
Bennet num discurso no Instituto de Política e Estratégia da
Universidade de Reichman.“Esperamos que o mundo não pestaneje, mas mesmo que o
faça, não tencionamos nós pestanejar”, acrescentou Bennet, lembrando que
os tempos atuais são de desacordo com alguns dos seus maiores aliados e
por isso “complexos”.
Na próxima segunda-feira está marcado o regresso do Irão às negociações com países europeus mais a Rússia e a China sobre a reconstituição do acordo de 2015, o JCPOA, após as eleições presidenciais iranianas do verão.
Na próxima segunda-feira está marcado o regresso do Irão às negociações com países europeus mais a Rússia e a China sobre a reconstituição do acordo de 2015, o JCPOA, após as eleições presidenciais iranianas do verão.
“Mesmo que se dê um regresso a um acordo, Israel não está incluído – a nada é obrigado”, disse Bennet. Em 2015, o JCPOA, acrescentou, foi como uma “pílula para dormir” para o mecanismo de defesa israelita, reduzindo o seu nível de prontidão.
“Não vamos repetir o erro”, prometeu o primeiro-ministro israelita.
Chegado ao poder em junho passado, Naftali Bennet mostrou-se então aberto a um novo acordo sobre o nuclear iraniano, desde que com restrições mais severas. Agora parece estar menos conciliador.
Nova estratégia
O ministro israelita das Finanças, Avigdor Lieberman, previu entretanto que "com ou sem acordo, o Irão irá ser um estado nuclear e ter armas atómicas num prazo máximo de cinco anos".
O seu chefe de Governo mantém por isso que Israel necessita de manter todas as capacidades de defesa. “Iremos manter a nossa liberdade de ação”, prometeu.
Bennet lembrou ainda que a ameaça iraniana não se reduz ao nuclear mas instiga contra Israel as milícias xiitas sírias, o Hezbollah no Líbano e o Hamas e a Jihad Islâmica em Gaza. O líder de Governo quer uma nova estratégia.
“A par dos avanços no seu programa nuclear, o Irão cerca consistentemente Israel, arma milícias e posiciona mísseis por todos os lados. O Irão pode ser visto de todas as janelas em Israel”, afirmou Bennet. “Irrita-nos de longe, usa a nossa energia, persegue-nos, prejudica-nos sem sequer sair de casa”, sublinhou ainda, considerando que o maior erro de Israel foi “atacar o mensageiro” em vez do mandante.
“Deixou de ser lógico perseguir os terroristas do dia enviados pelas forças Quds” iranianas. “Temos de atingir quem os envia”.
Israel deve “aproveitar a vantagem da sua força relativa – ser uma economia forte, líder em cibernética e a legitimidade internacional – contra as fraquezas iranianas, de forma mais eficaz que no passado”, defendeu o novo líder israelita numa crítica aparente ao seu antecessor, Benjamin Netanyahu.
O Irão, frisou, está mais fraco do que muitos israelitas podem pensar, com o regime central “corroído” e vulnerável, como provam protestos em regiões afetadas pela escassez de água.
“Os nossos desafios tornaram-nos no que somos; estamos prontos também para este desafio”, garantiu o primeiro-ministro. “Israel deve manter a sua liberdade de ação e capacidade de agir, em qualquer situação e qualquer circunstância política”.
Alternativas
O discurso de Bennet não impressionou contudo um antigo diretor da Mossad, os serviços secretos israelitas, Tamir Prado. Na mesma conferência, o especialista em estratégia criticou precisamente a ausência de um plano específico contra o Irão.
“Não me parece que Israel tenha uma estratégia. Parece-me que a tendência é para Israel regressar ao que era antes”, acrescentou, frisando semelhanças do discurso de Bennet com a tática de confronto direto quando em desacordo com os EUA, seguida pelo Governo de Netanyahu.
Prado defende que Israel deve antes trabalhar nos bastidores para melhorar o JCPOA, questionando a eficácia de “passar o dia a ameaçar com a guerra”.
“Não há força igual a Israel para ataques cirúrgicos individuais”, reconheceu o ex-diretor da Mossad, como ficou demonstrado nos ataques ao reator nuclear iraquiano em 1981 ou na Síria em 2007. Contudo o Irão é um alvo muito mais difícil, lembrou. “Não é a mesma ópera” e “só os EUA sabem como” atacar as inúmeras instalações nucleares iranianas.
“Haveria dúzias de alvos, ao contrário do que se passou no Iraque e na Síria”, algo aquém das capacidades israelitas, referiu Prado, lembrando que, uma vez que o Irão usa tecnologia doméstica ser-lhe-ia fácil recomeçar sem apoio externo, ao passo que tanto no Iraque como na Síria, as instalações nucleares tinham sido construídas por terceiros com os países a terem zero capacidades de as recuperar sozinhos.
Fortalecer os aliados
Prado ficou quase isolado nas suas análises, com outros militares no painel a defenderem tanto o princípio do JCPOA, embora antevendo problemas futuros, como Netanyahu e a decisão de Trump em abandonar o acordo, com o falcão Yaakov Amidror, ex-responsável pela segurança nacional israelita, a criticar mesmo o ex-presidente norte-americano por não ter usado a ameaça da força para extrair ao Irão mais concessões nucleares.
A assistir ao debate, o coordenador da Casa Branca para o Médio Oriente e o Norte de África, Brett McGurck, interveio através de vídeochamada e defendeu “o reforço dos aliados na região, tanto em capacidades defensivas como estatais” como a melhor alternativa às sanções contra o Irão. Estas “são eficazes a um certo nível mas não resolvem o problema”, afirmou. McGurck afirmou ainda que o uso militar e terrorista de UAVs, ou veículos aéreos autónomos, são uma das questões que a Administração norte-americana tem debatido com Israel e outros aliados no Médio Oriente, como a Arábia Saudita.
Israel tem utilizado uma série de alternativas militares contra alvos nucleares iranianos, incluindo ataques cibernéticos e de precisão. Os EUA afirmam que a estratégia tem, ao contrário do pretendido, fortalecido o programa atómico iraniano.
De visita ao Irão para preparar a próxima ronda negocial, o diretor da Agência Internacional da Energia Atómica, IAEA, Rafael Grossi, assegurou esta terça-feira a vontade de aprofundamento da cooperação entre a agência e as novas autoridades do país, que se têm mostrado desinteressadas na presença de inspectores. Desde 2018 após a saída dos EUA do JCPOA, os iranianos têm violado abertamente o acordo ao ultrapassar os limites nele impostos ao enriquecimento de urânio.