Irão "terá armas nucleares dentro de cinco anos" prevê Israel para justificar reserva à defesa

O primeiro-ministro israelita afirmou esta tarde que o país irá manter intacto o seu direito a agir contra o Irão, mesmo que Washington regresse ao acordo nuclear de 2015. Israel acredita que Teerão vai atingir capacidade militar atómica num prazo de cinco anos, com ou sem acordo.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Naftali Bennet, primeiro-ministro de Israel, estimou numa reunião do seu gabinete que o Irão terá armas nucleares num prazo de cinco anos, com ou sem acordo Reuters

Naftali Bennet defendeu mesmo que é necessária uma nova estratégia contra o velho inimigo que usa ainda milícias e grupos terroristas para atingir Israel. "Temos de atingir quem os envia", afirmou.

Israel contra o Irão é na verdade a batalha do mundo inteiro contra um regime islamita radical que busca uma hegemonia xiita sob uma cúpula nuclear”, considerou Bennet num discurso no Instituto de Política e Estratégia da Universidade de Reichman.“Esperamos que o mundo não pestaneje, mas mesmo que o faça, não tencionamos nós pestanejar”, acrescentou Bennet, lembrando que os tempos atuais são de desacordo com alguns dos seus maiores aliados e por isso “complexos”.

Na próxima segunda-feira está marcado o regresso do Irão às negociações com países europeus mais a Rússia e a China sobre a reconstituição do acordo de 2015, o JCPOA, após as eleições presidenciais iranianas do verão.

Os Estados Unidos, simples observadores depois de Donald Trump ter abandonado o acordo em 2018, têm pressionado Israel a deixar de atacar as instalações nucleares iranianas. Um regresso de Washington ao JCPOA iria significar o levantamento de sanções em troca de limitações ao enriquecimento de urânio por parte do Irão.

“Mesmo que se dê um regresso a um acordo, Israel não está incluído – a nada é obrigado”, disse Bennet. Em 2015, o JCPOA, acrescentou, foi como uma “pílula para dormir” para o mecanismo de defesa israelita, reduzindo o seu nível de prontidão. “Não vamos repetir o erro”, prometeu o primeiro-ministro israelita.

Chegado ao poder em junho passado, Naftali Bennet mostrou-se então aberto a um novo acordo sobre o nuclear iraniano, desde que com restrições mais severas. Agora parece estar menos conciliador.
Nova estratégia
O ministro israelita das Finanças, Avigdor Lieberman, previu entretanto que "com ou sem acordo, o Irão irá ser um estado nuclear e ter armas atómicas num prazo máximo de cinco anos".

O seu chefe de Governo mantém por isso que Israel necessita de manter todas as capacidades de defesa. “Iremos manter a nossa liberdade de ação”, prometeu.

Bennet lembrou ainda que a ameaça iraniana não se reduz ao nuclear mas instiga contra Israel as milícias xiitas sírias, o Hezbollah no Líbano e o Hamas e a Jihad Islâmica em Gaza. O líder de Governo quer uma nova estratégia.

“A par dos avanços no seu programa nuclear, o Irão cerca consistentemente Israel, arma milícias e posiciona mísseis por todos os lados. O Irão pode ser visto de todas as janelas em Israel”, afirmou Bennet. “Irrita-nos de longe, usa a nossa energia, persegue-nos, prejudica-nos sem sequer sair de casa”, sublinhou ainda, considerando que o maior erro de Israel foi “atacar o mensageiro” em vez do mandante.

“Deixou de ser lógico perseguir os terroristas do dia enviados pelas forças Quds” iranianas. “Temos de atingir quem os envia”.

Israel deve “aproveitar a vantagem da sua força relativa – ser uma economia forte, líder em cibernética e a legitimidade internacional – contra as fraquezas iranianas, de forma mais eficaz que no passado”, defendeu o novo líder israelita numa crítica aparente ao seu antecessor, Benjamin Netanyahu.

O Irão, frisou, está mais fraco do que muitos israelitas podem pensar, com o regime central “corroído” e vulnerável, como provam protestos em regiões afetadas pela escassez de água.

“Os nossos desafios tornaram-nos no que somos; estamos prontos também para este desafio”, garantiu o primeiro-ministro. “Israel deve manter a sua liberdade de ação e capacidade de agir, em qualquer situação e qualquer circunstância política”.
Alternativas
O discurso de Bennet não impressionou contudo um antigo diretor da Mossad, os serviços secretos israelitas, Tamir Prado. Na mesma conferência, o especialista em estratégia criticou precisamente a ausência de um plano específico contra o Irão.

“Não me parece que Israel tenha uma estratégia. Parece-me que a tendência é para Israel regressar ao que era antes”, acrescentou, frisando semelhanças do discurso de Bennet com a tática de confronto direto quando em desacordo com os EUA, seguida pelo Governo de Netanyahu.

Prado defende que Israel deve antes trabalhar nos bastidores para melhorar o JCPOA, questionando a eficácia de “passar o dia a ameaçar com a guerra”.

“Não há força igual a Israel para ataques cirúrgicos individuais”, reconheceu o ex-diretor da Mossad, como ficou demonstrado nos ataques ao reator nuclear iraquiano em 1981 ou na Síria em 2007. Contudo o Irão é um alvo muito mais difícil, lembrou. “Não é a mesma ópera” e “só os EUA sabem como” atacar as inúmeras instalações nucleares iranianas.

“Haveria dúzias de alvos, ao contrário do que se passou no Iraque e na Síria”, algo aquém das capacidades israelitas, referiu Prado, lembrando que, uma vez que o Irão usa tecnologia doméstica ser-lhe-ia fácil recomeçar sem apoio externo, ao passo que tanto no Iraque como na Síria, as instalações nucleares tinham sido construídas por terceiros com os países a terem zero capacidades de as recuperar sozinhos.
Fortalecer os aliados
Prado ficou quase isolado nas suas análises, com outros militares no painel a defenderem tanto o princípio do JCPOA, embora antevendo problemas futuros, como Netanyahu e a decisão de Trump em abandonar o acordo, com o falcão Yaakov Amidror, ex-responsável pela segurança nacional israelita, a criticar mesmo o ex-presidente norte-americano por não ter usado a ameaça da força para extrair ao Irão mais concessões nucleares.

A assistir ao debate, o coordenador da Casa Branca para o Médio Oriente e o Norte de África, Brett McGurck, interveio através de vídeochamada e defendeu “o reforço dos aliados na região, tanto em capacidades defensivas como estatais” como a melhor alternativa às sanções contra o Irão. Estas “são eficazes a um certo nível mas não resolvem o problema”, afirmou. McGurck afirmou ainda que o uso militar e terrorista de UAVs, ou veículos aéreos autónomos, são uma das questões que a Administração norte-americana tem debatido com Israel e outros aliados no Médio Oriente, como a Arábia Saudita.

Israel tem utilizado uma série de alternativas militares contra alvos nucleares iranianos, incluindo ataques cibernéticos e de precisão. Os EUA afirmam que a estratégia tem, ao contrário do pretendido, fortalecido o programa atómico iraniano.

De visita ao Irão para preparar a próxima ronda negocial, o diretor da Agência Internacional da Energia Atómica, IAEA, Rafael Grossi, assegurou esta terça-feira a vontade de aprofundamento da cooperação entre a agência e as novas autoridades do país, que se têm mostrado desinteressadas na presença de inspectores. Desde 2018 após a saída dos EUA do JCPOA, os iranianos têm violado abertamente o acordo ao ultrapassar os limites nele impostos ao enriquecimento de urânio.
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