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EUA pressionam Israel à contenção antes de nova ronda negocial sobre nuclear iraniano
Dentro de uma semana, dia 29 de novembro, representantes do Irão e de outros países signatários do acordo nuclear de 2015, voltam a reunir-se em Viena de Áustria, para uma nova ronda de negociações indiretas que procuram fazer regressar Washington e Teerão ao anterior entendimento.
As perspetivas não são boas, com o Irão a ser acusado de provocar diversos incidentes disruptivos na sua área de influência enquanto exige o levantamento das sanções impostas pelos norte-americanos antes de quaisquer progressos. Sob a Administração Trump, que acusou Teerão de incumprimento, os Estados Unidos abandonaram em 2018 o JCPOA – Joint Comprehensive Plan of Action - que trocou garantias de um programa nuclear pacífico pela plena integração do Irão na comunidade internacional. Apesar das promessas eleitorais, o sucessor na Casa Branca, Joe Biden, ainda não recuou na decisão nem levantou as sanções impostas por Donald Trump.
As autoridades norte-americanas não comentaram o comunicado.
Os EUA precisam de “aceitar a realidade e respeitar todos os seus compromissos” considerou o principal negociador iraniano, o vice-presidente Ali Bagheri Khani, em entrevista à Al Jazeera. O Irão quer ainda garantias de que os Estados Unidos não voltarão a denunciar o acordo.
Washington avisa que a janela de oportunidade para as negociações está a fechar-se, uma vez que o programa nuclear iraniano progride sem pausas.
Nos bastidores haverá igualmente pressão para Washington persuadir Israel, o principal inimigo regional do Irão, a reduzir o número dos seus ataques contra as instalações nucleares iranianas.
O New York Times revelou que a Administração Biden avisou Israel que, longe de atrasar o programa nuclear iraniano, os seus ataques, incluindo informáticos, têm-no ajudado a progredir. “Podem ser satisfatórios taticamente, mas são em última análise contraproducentes”, referiram ao jornal norte-americano fontes bem colocadas sob anonimato, citando responsáveis norte-americanos.
Israel terá respondido ao seu aliado que, pelo contrário e de acordo com
vários analistas, as suas ações atrasaram o programa nuclear de Teerão e
recusou-se a abrandá-las, sublinhando o seu direito de agir contra o
Irão sempre que o considere necessário.
IAEA quer mais
O ministro israelita da Defesa, Benny Gantz, afirmou aliás este domingo que apoia um acordo nuclear “mais abrangente, sólido e duradouro” com Teerão, que “desmantele as suas atuais capacidades e implemente inspeções eficazes às suas centrais e à sua produção de armas”. Os críticos das negociações correntes, nas quais participam, além do Irão, a China, a Rússia, a Alemanha, a França e o Reino Unido, afirmam que há demasiada cedência aos iranianos.
Apesar das suas exigências quanto ao retomar do acordo de 2015, a posição de Teerão é fragilizada pelos entraves sucessivos que tem colocado ao diálogo com a Agência Internacional de Energia Atómica e às inspeções internacionais que poderiam provar a alegada natureza pacífica do seu programa de enriquecimento de urânio.
Esta terça-feira, Rafael Grossi, diretor-geral da IAEA, deverá reunir-se com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Hossein Amir-Abdollahian e o diretor do programa nuclear, Mohammad Eslami, em preparação para a ronda negocial da próxima semana.
A missão de Grossi será garantir acesso a locais como Karaj, virtualmente inacessível desde a interrupção das novas negociações em junho devido às eleições presidenciais iranianas. Irá igualmente tentar ter acesso aos dados gravados pelas câmaras de monitorização, que Teerão tem retido como trunfo negocial desde fevereiro, assim como obter respostas quanto a alegadas centrais nucleares secretas, assunto que os iranianos recusam abordar desde 2018.
O diretor da IAEA está ainda preocupado com a falta de contactos de Teerão com a Agência.
À agência de notícias iraniana Mehr, o porta-voz do Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros frisou a natureza não política das próximas discussões com a IAEA, mas lembrou que esta “está a par dos ataques ao Irão por parte do regime sionista” de Israel, perante “o silêncio de alguns países”, que têm tido “um impacto importante em alguns aspetos técnicos”.
Israel e a ameaça iraniana
Os meses desde o verão têm sido marcados por múltiplos incidentes, com o Irão a denunciar ataques israelitas às suas instalações nucleares e aos seus navios em trânsito no Golfo, e com Israel a acusar as forças de Teerão de realizar ataques com drones na mesma área, contra alvos marítimos.
Durante a conferência organizada domingo pelo jornal Haaretz sobre os atuais desafios estratégicos de Israel, Gantz frisou a importância para a paz na região dos Acordos de Abraão que normalizaram as suas relações com potências árabes e que são “cruciais” ao permitirem “opor uma forte resistência a ameaças comuns”.
“O Irão vê-se a si mesmo como uma potência, equipando de forma sistemática exércitos de terror e exportando a sua ideologia radical, armas, fundos e força laboral em todo o Médio Oriente”, afirmou o ministro da Defesa de Israel. “Atacam recursos económicos, como vimos no ataque de Aramco, perturbam o comércio global como vimos no ataque ao Mercer Street, interferem em processos democráticos como vimos nas eleições iraquianas e depõem regimes como assistimos no Líbano e na Síria”.
Orador na mesma conferência, o ex-ministro da Defesa de Israel, Moshe Ya’lon, sublinhou que, tendo-se oposto em 2015 à assinatura do JCPOA, “um erro histórico”, a retirada dos EUA foi ainda pior por “ter dado ao Irão o pretexto de progredir com o enriquecimento” do urânio.
Israel acusa Teerão de nunca ter cumprido os limites impostos no JPCOA.
Ping-pong diplomático
Teerão rejeita as acusações de violação do JCPOA e mantém que são os Estados Unidos quem ficou em incumprimento ao retirarem-se do acordo. Nas negociações em Viena de Áustria na próxima semana, os iranianos deverão avaliar o esboço de acordo preparado antes de junho e responder à proposta.
A avaliar pelas respostas enviadas à Al Jazeera por Ali Bagheri Khani, o Irão deverá repetir na próxima semana estes argumentos para exigir aos norte-americanos, atualmente simples observadores no processo, o cumprimento do acordo de 2015, levantando as sanções impostas desde 2018 e dando garantias de que não voltarão a denunciar o documento.
Washington já disse estar disposta a abdicar das sanções “inconsistentes” com o JCPOA, embora sublinhe intenção de manter as relacionadas com os direitos humanos e o “terrorismo”. Avisou ainda que o tempo para um acordo está a esgotar-se, à medida que o programa nuclear iraniano continua a desenvolver-se. Joe Biden já disse que a via diplomática não é a "única" opção.
Numa denúncia interna sobre as reais intenções norte-americanas, os Guardas da Revolução Iraniana reportaram esta segunda-feira a morte de nove soldados em confrontos diretos com forças navais dos EUA em águas do Golfo Pérsico, sem acrescentar quaisquer detalhes quanto à data e ao modo da ocorrência. Os “nove mártires” terão sido vingados com outros tantos ataques às forças norte-americanas, referiu o comunicado citado pelas agências de notícias Mehr e Anadolu.