Joe Biden torna-se hoje o 46.º Presidente dos Estados Unidos

É um dia despedida para Donald Trump e de esperança para muitos norte-americanos: Joe Biden torna-se oficialmente, esta quarta-feira, o novo Presidente dos Estados Unidos. Em contexto de pandemia e crise social, económica, política e de segurança nacional, a tomada de posse decorre em Washington sem público e cercada por militares.

Inês Moreira Santos - RTP /
Shawn Thew - EPA

A investidura de Joe Biden é o início de uma nova era nos Estados Unidos, para muitos, e o fim do conturbado processo de transição de poderes na Casa Branca. Esta quarta-feira, milhões de pessoas em todo o mundo vão poder assistir, virtualmente e através de transmissões televisivas, à tomada de posse do 46.º Presidente dos EUA.

A cerimónia, que tradicionalmente ocorre a 20 de janeiro, é um dos momentos mais importantes da democracia norte-americana e marca a transição de poder entre o Presidente cessante e o Presidente eleito. Com um programa completo com atuações musicias, rituais religiosos e discursos, o democrata Joe Biden vai prestar juramento solene, com a mão esquerda numa Bíblia e a mão direita no ar.

Este ano sem público a assistir presencialmente, o evento passa para o registo virtual, acompanhado por um programa televisivo que será transmitindo em direto e em simultâneo por vários canais televisivos e será conduzido pelo ator Tom Hanks. O hino nacional será entoado pela cantora Lady Gaga e o momento musical fica a cargo da latina Jennifez Lopez.
 A tomada de posse do novo Presidente dos Estados Unidos vai ser acompanhada em direto numa emissão especial da RTP3, a partir das 16h00.
Pandemia e insegurança marcam investidura
O ambiente em Washington não é, contudo, de festa. O sucessor de Donald Trump vai herdar um país gravemente atingido pelos estragos económicos e sociais causados pela pandemia da Covid-19 e por um clima de convulsão social e clivagem política alimentado pelo seu antecessor.

De facto, foram poucos os presidentes que, na história norte-americana, assumiram o poder em circunstâncias semelhantes: uma pandemia que já matou mais de 400 mil norte-americanos e que está a destruir empregos e a economia nacional; uma ameaça contínua de insurreição armada; e um Presidente cessante desafiador que enfrenta um segundo julgamento no Senado dos EUA, acusado de encorajar o ataque ao Capitólio.

Biden, eleito a 3 de novembro de 2020, vai presidir a tecidos sociais profundamente polarizados, com milhões de eleitores ainda a apoiar e a acreditar nas alegações de Trump sobre a suposta fraude eleitoral, e um Congresso bastante dividido.

O ambiente de tensão que se vive em todo o país obrigou a medidas de segurança extraordinárias para o dia da Inauguration de Joe Biden. Nos últimos dias, e depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump e da extrema-direita, Washington foi altamente militarizada e invadida por 25 mil soldados, transformando-se numa fortaleza onde, por estes dias, é impossível entrar.

A insegurança é tanta que os próprios agentes da Guarda Nacional foram investigados até pelo FBI para garantir que nenhum tinha ligações a grupos extremistas ou representava uma potencial ameaça.

Esta é, aliás, a maior operação de segurança alguma vez realizada para uma transição presidencial.

Entre agentes da polícia e da Guarda Nacional, a missão é patrulhar as ruas da capital e guardar o perímetro de segurança junto do Capitólio, delineado com veículos blindados, blocos de cimento, cercas e arame farpado e fechado ao público, sendo apenas acessível a pessoas credenciadas. Dividida entre essa zona vermelha e uma zona verde, mais segura mas acessível também apenas a residentes, Washington tem, provavelmente, mais forças de segurança do que espectadores esta quarta-feira.

Desde o primeiro momento em que Trump sugeriu que não se comprometeria com uma transição de poder pacífica que se temeu que o dia de tomada de posse fosse marcado por episódios de violência. O Presidente cessante, entretanto, garantiu uma passagem de pasta tranquila, mas só depois do assalto ao Capitólio abalar o país e obrigar as autoridades a tomar todas as precauções possíveis.

Além disso, os próprios órgãos de comunicação social apostaram na cautela. Algumas redações vão enviar jornalistas para cobrir a investidura, tendo munido os seus repórteres com coletes à prova de bala e máscaras de gás, assim como providenciado formação quanto ao que fazer se houver incidentes violentos, uma vez que, a 6 de janeiro, pelo menos nove jornalistas foram atacados durante o assalto ao Capitólio.

Habitualmente festiva e com multidões dispostas ao longo do National Mall — o parque relvado que se estende do Capitólio até ao Lincoln Memorial — a cerimónia da tomada de posse terá de ser diferente este ano, devido às restrições da pandemia. Onde estariam milhares de pessoas a assistir foram colocadas 200 mil bandeiras do país e dos 50 estados a simbolizar a sua ausência.

As comemorações, que começaram no domingo com discursos, concertos e outras apresentações através de transmissões online, tiveram de ser, portanto, adaptadas ao contexto pandémico.
Convidados reduzidos e ausências confirmadas

A cerimónia de tomada de posse vai cumprir quase todas as tradições mas com um número reduzido de convidados no palco montado em frente ao Capitólio, para garantir o distanciamento e o cumprimento das regras sanitárias. Ao todo estarão presentes 2000 pessoas, entre as quais 200 convidados sentados com distanciamento social e munidos de máscara.

Apesar do número reduzido de convidados, estão já garantidas as presenças, no Capitólio, dos ex-presidentes Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Jimmy Carter é o único ausente por questões de saúde.

Também já foi confirmada a ausência do Presidente cessante que quebra mais uma tradição, que nem sequer escreveu a tradicional carta de boas vindas ao seu sucessor. Trump não comparecerá na cerimónia para simbolicamente passar a pasta a Joe Biden, dirigindo-se ainda esta quarta-feira para o seu clube em Mar-a-Lago, na Flórida, a partir de onde deverá assistir televisivamente à tomada de posse, na companhia de alguns assessores.

A Administração Trump, que termina hoje, vai estar representada pelo ainda vice-presidente, Mike Pence.

Joe Biden vai fazer o juramento como presidente com a mão numa Bíblia de família, com mais de um século, que a mulher, Jill Biden, vai segurar.

Logo a seguir, Biden deverá colocar uma coroa de flores no túmulo do soldado desconhecido, no cemitério nacional de Arlington, ao lado dos seus três antecessores, que estarão presentes em todos os momentos da tomada de posse: Clinton, Bush e Obama.

No regresso do cemitério, a procissão presidencial parará a algumas centenas de metros da Casa Branca e Joe Biden poderá caminhar até à sua nova residência. Já como novo Presidente, Biden poderá então anunciar as suas primeiras decisões presidenciais, das quais foi dando já alguns sinais, nomeadamente anunciando que deverá usar alguns decretos para dar um primeiro impulso ao seu programa político.

A pandemia obrigou também a cancelar os habituais almoço e baile à noite, na Casa Branca. Em substituição foi programado um especial de televisão com o nome "Celebrar a América" que vai ser apresentado por Tom Hanks e vai ter as participações, entre outros, de Foo Fighters, Bruce Springsteen, John Legend, Jon Bon Jovi, Demi Lovato e Justin Timberlake.

Marcada para as 11h00 em Washington (16h00 em Lisboa), a cerimónia de tomada de posse terá início após Joe Biden chegar com a caravana presidencial ao Capitólio, subindo a um palco montado na escadaria ocidental do edifício em frente ao National Mall.

Após as apresentações musicais das cantoras Jennifer Lopez e Lady Gaga, Biden e Kamala Harris, a sua vice-presidente, farão o juramento precisamente às 12h00 horas, respeitando assim a 20ª emenda da Constituição dos EUA. A récita do juramento será levada a cabo por Andrea Hall, a primeira mulher afro-americana a tornar-se capitã do departamento de Bombeiros de South Fulton, no Estado da Georgia.
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