Kadhafi garante que prefere morrer como mártir

O líder líbio prometeu que vai permanecer na Líbia como "chefe da revolução", combater os manifestantes e "morrer como um mártir". Num discurso transmitido em direto pela televisão estatal, ao início da tarde, e pela primeira vez após uma semana de insurreição no seu país, declarou “não ser detentor de um cargo oficial do qual possa ser demitido. Muammar Kadhafi é o chefe da revolução, sinónimo de sacrifícios até ao fim dos dias”.

RTP /
Kadhafi garantiu que não vai deixar o país e que se “baterá até à última gota de sangue” EPA

Confrontado com o maior desafio dos seus 41 anos de governação, Kadhafi apelou à polícia para controlar a situação e ameaçou “purgar a Líbia casa a casa” para a calar a revolta. “Entreguem as vossas armas imediatamente, ou haverá carnificina”, disse, em direto, na televisão estatal líbia.

No violento discurso proferido frente à sua casa bombardeada pelos EUA em abril de 1986, Kadhafi disse que a Líbia tem de se defender dos americanos para que o país não se transforme num novo Afeganistão.

O líder líbio prometeu que quem participar em confrontos ou distúrbios será punido com a “pena de morte” e prenunciou uma resposta “similar a Tiananmen (China) e Fallouja (Iraque)". A intervenção do exército chinês na praça de Tiananmen contra a população civil vitimou mais de um milhar de pessoas.

Descrevendo-se como “um guerreiro beduíno que trouxe a glória ao seu povo”, Kadhafi pediu ao povo que amanhã se manifeste na rua em seu apoio e apelidou de “ratos e mercenários” aqueles que querem fazer da Líbia um Estado Islâmico.

Apelou a “todos os jovens” para “criar comités de defesa da revolução”,  que “protegerão as estradas, as pontes, os aeroportos”, e ao povo para que tome o “controlo da Líbia”: “Vamos mostrar-lhes o que é uma revolução popular”.

Na intervenção em direto, ao longo de mais de uma hora, o líder líbio leu trechos do seu “Livro verde”, uma coletânea das suas reflexões.

Comunidade internacional condena ataques sistemáticos a população civil
Os governos ocidentais têm condenado a violência na Líbia que, segundo a Human Rights Watch, vitimou pelo menos 62 pessoas desde domingo em Tripoli. A organização não-governamental esclarece que obteve estas informações junto de dois hospitais em Tripoli. O balanço anterior, feito no domingo, apontava para 223 vítimas mortais.

No total, a organização humanitária aponta para mais de 280 mortes, mas a Federação Internacional das Ligas dos Direitos do Homem admite mais de 400 vítimas mortais.

Surgem testemunhos de uma violenta repressão na capital, referindo corpos espalhados pelas ruas e disparos indiscriminados contra quem se manifesta. A aviação líbia terá mesmo bombardeado alguns bairros da capital. Nesse sentido, vários países ocidentais estão a fazer regressar os seus cidadãos.

A alta comissária da ONU para os Direitos do Homem avisou a Líbia do risco de ser acusada de crimes contra a Humanidade. Perante informações que indicam massacres cometidos contra manifestantes, a ONU avisa que quer uma investigação rigorosa ao que se está a passar na Líbia. Também o comissário da ONU na Líbia classificou a repressão como um “genocídio”.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, que está reunido, começou com um apelo do embaixador alemão Peter Wittig a uma mensagem “rápida e clara” da organização contra a repressão do regime de Kadhafi sobre os manifestantes. O diplomata alemão sublinhou que a situação explosiva na Líbia teria “consequências regionais e internacionais”.

O embaixador adjunto da missão líbia na ONU espera que o Conselho assuma uma posição no sentido de “proteger o povo líbio”. Ibrahim Dabbashi está entre vários diplomatas que apresentaram a demissão, segunda-feira, ao ministro do Interior. Estes diplomatas pedem a criação de uma zona de exclusão aérea sobre o país e uma missão humanitária.

No entanto, o embaixador líbio na ONU, que se diz amigo de infância de Kadhafi, fez crescer a dúvida sobre a representação do país. Mohamed Chalgham não pediu demissão nem subscreve todos os atos do seu adjunto, mas disse ter comunicados aos políticos líderes que “a violência deve acabar”.

O senador americano John Kerry, que preside à comissão dos Negócios Estrangeiros, defende que “a utilização brutal da força pelo governo de Kadhafi deverá significar o fim do próprio regime”.

Admitindo que Washington tem menos influência em Tripoli do que no Cairo, Kerry garante que o país ainda tem “possibilidades” e apelou aos líderes mundiais para fazerem pressão no sentido de levar à queda do regime.

Também a Casa Branca condenou a violência contra os protestos e apelou ao respeito pelos direitos dos cidadãos. O porta-voz da Casa Branca fez saber que está a contactar a comunidade internacional para concertar posições, bem como a monitorizar os preços do petróleo nos mercados.

Mercados e OPEP reagem a violência na Líbia
A escalada de violência na Líbia teve repercussão nas bolsas mundiais, que fecharam em queda face às espectativas de subida dos preços do crude e receios de falhas nos stocks. A Líbia é um dos principais produtores em África.

Em Paris e Frankfurt, os títulos da Air France-KLM e da Lufthansa afundaram, penalizando as negociações. “O mercado está totalmente focado na situação do Médio Oriente e na Líbia, onde é totalmente incerto”, declarou uma analista do Banco de Tóquio. Os investidores estão a fugir dos ativos de risco e a preferir os tradicionais ouro e franco-suíço, acrescentou.

Para sossegar os mercados, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) anunciou que aumentará a sua produção caso se verifique falta de crude.

“Não há penúria neste momento, mas se houver uma diminuição da oferta, em virtude de perturbações nos países produtores, os países da OPEP, como a Arábia Saudita, vão aumentar a sua produção”, garantiu o ministro saudita do Petróleo, em Riade.

Ali al-Nouaimi sublinha que se trata de “uma situação muito diferente da de 2008. A oferta e a procura estão em pé de igualdade, as capacidades de produção excedentária são importantes e a volatilidade que vemos resulta de problemas temporários”.

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