Manifestantes repelidos com gás lacrimogéneo para Trump tirar fotos numa igreja

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Donald Trump segura uma Bíblia em frente à Igreja Episcopal de São João, em Washington Tom Brenner - Reuters

Enquanto o presidente dos EUA discursava e se autoinitulava “presidente da ordem e da lei”, os manifestantes que protestavam contra a morte de George Floyd no exterior da Casa Branca na segunda-feira eram brutalmente dispersados pela polícia com gás lacrimogéneo. Tudo para que Donald Trump pudesse cumprir uma sessão fotográfica numa igreja próxima. Membros da Igreja e deputados norte-americanos já vieram criticar a atitude de Trump, acusando o presidente de “desonrar a fé” e de usar a Igreja como “adereço”.

Pouco antes do toque de recolher obrigatório imposto na capital norte-americana devido aos protestos, os manifestantes que protestavam pacificamente junto à Casa Branca foram dispersados com gás lacrimogéneo, granadas de atordoamento e balas de borracha.

O grupo de manifestantes foi repelido para que a polícia pudesse abrir caminho para Trump e a sua comitiva se deslocarem até à Igreja Episcopal de São João, localizada perto da Casa Branca, e que ficou degradada na sequência de atos de vandalismo à margem dos protestos contra o racismo da noite anterior.


Ao chegar à chamada igreja dos presidentes, onde deflagrou um incêndio na noite de domingo, o presidente dos EUA protagonizou uma sessão fotográfica que se prolongou por 17 minutos. “Temos o melhor país do mundo”, disse Donald Trump enquanto segurava uma bíblia e tirava fotografias, com o barulho das sirenes e das vozes dos manifestantes como fundo.

Enquanto os manifestantes eram dispersados, Donald Trump discursava nos jardins da Casa Branca onde se autointitulou “presidente da ordem e da lei e aliado de qualquer manifestante pacífico”. O presidente norte-americano classificou os protestos contra a morte do afro-americano George Floyd como “terror interno” e prometeu mobilizar recursos “civis e militares” para conter “os motins e as pilhagens” e “restaurar a segurança” no país.
Bispa acusa Trump de usar igreja como “adereço"
A bispa da Diocese Episcopal de Washington diz estar “indignada” por a polícia norte-americana ter usado gás lacrimogéneo e balas de borracha para abrir caminho para Donald Trump.

Não recebi sequer uma chamada de cortesia a informar de que iriam limpar [a área] com gás lacrimogéneo para que pudessem usar uma das nossas igrejas como adereço”, disse Mariann Budde, bispa diocesana.

Budde diz que a mensagem do presidente dos EUA está em desacordo com os valores de compaixão e tolerância adotados pela Igreja e descreveu a visita de Trump como uma oportunidade de usar a igreja e a Bíblia como “pano de fundo”.

Deixem-me ser clara, o presidente apenas usou a Bíblia e uma das igrejas da minha diocese, sem permissão, como pano de fundo para uma mensagem que é a antítese dos ensinamentos de Jesus”, disse Budde à CNN.

"Ele não rezou. Ele não mencionou George Floyd, não mencionou a agonia das pessoas que foram sujeitas a este tipo de expressão horrível de racismo e supremacia branca por centenas de anos”, disse ainda Budde. “Precisamos de um presidente que possa unificar e curar. Ele fez o oposto disso e nós ficámos a remediar os estragos", concluiu a líder da diocese.

Michael Curry, o primeiro afro-americano líder da Igreja Episcopal dos EUA, acusou Trump de usar a igreja e a Bíblia para “fins políticos”.


“Pelo bem de George Floyd, por todos os que sofreram injustamente, e pelo bem de todos nós, precisamos de líderes para nos ajudar a ser “uma nação, sob Deus, com liberdade e justiça para todos””, escreveu Curry na sua conta do Twitter.

Também o arcebispo de Washington, Wilton Gregory, se pronunciou sobre a atitude de Trump, considerando “desconcertante e repreensível que qualquer instalação católica se permita ser tão flagrantemente usada e manipulada de uma maneira que viole os nossos princípios religiosos”.

Lembrando o papa João Paulo II, que dá o nome à igreja, Gregory sublinhou que “ele certamente não toleraria o uso de gás lacrimogéneo e outros impedimentos para silenciá-los, dispersá-los ou intimidá-los por uma oportunidade fotográfica em frente a um local de culto e de paz”.
“Este presidente está a destruir tudo”
A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, e o líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, também criticaram a inesperada visita de Trump à Igreja Episcopal de São João.

Numa altura em que o nosso país clama por união, este presidente está a destruir tudo”, declararam os dois deputados num comunicado publicado na segunda-feira. “Atirar gás lacrimogéneo a manifestantes pacíficos sem provocação, só para que o presidente pudesse posar no exterior de uma igreja, desonra cada valor que a fé nos ensina”, acrescentam.

Instando Trump a “respeitar a dignidade e os direitos dos americanos”, Pelosi e Schumer afirmam que “nesta altura desafiante, a nossa nação precisa de uma verdadeira liderança”. Os deputados acusam Trump de uma atitude de “cobardia, fraca e perigosa” por alimentar a “discórdia, o fanatismo e a violência”.

Joe Biden, candidato democrata à Casa Branca, também criticou a sessão fotográfica de Trump com uma Bíblia na mão. “Gostava que a abrisse [a Bíblia] de vez em quando, em vez de apenas acenar com ela. Se a tivesse aberto, poderia ter aprendido alguma coisa”, disse Biden. O candidato acusa o presidente dos EUA de estar a usar os militares contra os norte-americanos e de estar mais preocupado com a sua reeleição.

George Floyd, o afro-americano de 46 anos, morreu a 25 de maio em Minneapolis, no Estado de Minnesota, asfixiado por um polícia que lhe pressionou o pescoço com o joelho durante cerca de nove minutos. Floyd foi detido por suspeita de ter tentado pagar com uma nota falsa de 20 dólares num supermercado.

A morte do afro-americano motivou a saída à rua de milhares de pessoas em várias cidades dos EUA. Alguns dos protestos acabaram em confrontos entre a polícia e os manifestantes e já foram feitas mais de cinco mil detenções.

Entre os protestos, existem também manifestações pacíficas e há, inclusivamente, exemplos de solidariedade por parte de vários agentes policiais que se juntam às marchas contra o racismo e a violência policial.
Tópicos
pub