México investiga denúncia de esterilizações forçadas de mulheres migrantes nos EUA

por Graça Andrade Ramos - RTP
Mulheres da Guatemala e das Honduras conversam num centro de guarida para imigrante nos EUA, em Tucson, Arizona, EUA em fevereiro de 2019 Reuters

Os serviços mexicanos estão a investigar a veracidade das informações divulgadas por uma enfermeira americana, sobre a esterilização forçada de mulheres detidas num centro de imigrantes ilegais no Estado norte-americano da Georgia. A confirmação foi dada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do México, Marcelo Ebrard, que já entrevistou, ele mesmo, seis mulheres.

"Isto tem de ser esclarecido. Se for confirmada será uma questão grave e não só penalidades mas outras medidas serão adotadas", reagiu Marcelo Erbrard, em conferência de imprensa, referindo que haverá "mais casos" além das seis mulheres com quem falou.

Esta terça-feira, responsáveis norte-americanos dos serviços de imigração afirmaram que um organismo federal iria realizar as suas próprias investigações à queixa entretanto apresentada.
As alegações provocaram reações indignadas entre os congressistas do Partido Democrático norte-americano, incluindo a presidente do Congresso, Nancy Pelosi, e o líder do partido, Chuck Schumer.


A denunciante, Dawn Wooten, uma antiga enfermeira do Centro de Detenção de Irwin County, ICDC na sigla em língua inglesa, afirma que várias mulheres terão sido alvo de histerectomias, um processo de esterilização irreversível, quando se encontravam naquele Centro, sob custódia dos Estados Unidos da América."Coleccionador de úteros"
Um ginecologista em particular era conhecido no Centro pela remoção dos úteros, afirmou Wooten.

"Quem quer que ele atenda sofre uma histerectomia... praticamente toda a gente. Até retirou o ovário errado a uma jovem mulher. Era suposto ela ter o ovário esquerdo removido devido a um quisto e ele tirou o direito", testemunhou a enfermeira, de acordo com a queixa.

"É o colecionador de úteros," acrescentou Wooten. "Sei que isso é muito feio... Estará ele a colecionar aquilo ou quê? Todas as pessoas que ele atende, ele retira todos os ovários ou todas as trompas" do Falopio, indignou-se.

A queixa sobre a esterilização realizada baseia-se apenas no testemunho da enfermeira, agora sob proteção judicial, e foi apresentada formalmente segunda-feira, no gabinete do Inspetor-geral de departamento norte americano de Segurança Interna, pelas organizações Projeto Sul, Vigilância Prisional da Geórgia, Aliança Latina da Geórgia para os Direitos Humanos e Rede de Apoio ao Imigrante do Sul da Geórgia.

A queixa, apresentada em nome das vítimas, não especificou as suas nacionalidades.
"Refutamos"
O ICE, agência norte americana para a Imigração e Serviços Aduaneiros, ICE, negou as acusações.

O responsável pelo corpo clínico dos serviços de saúde a cargo do ICE disse em comunicado que, desde 2018, só duas pessoas no Centro de Detenção Irwin, da Georgia, foram referenciadas para histerectomias, com base em recomendações de especialistas, as quais "foram revistas pela autoridade clínica do Centro e aprovadas".

Também a empresa privada que gere o Centro, a LaSalle Correções, publicou um comunicado a negar a denúncia. "Refutamos com firmeza estas alegações e quaisquer implicações de má conduta", no ICDC.

O Centro de Detenção de Irwin County, Georgia, EUA, é gerido como uma prisão. Na imagem, alguns imigrante ilegais jogam futebol Foto Reuters

Uma congressista do Partido Democrático, Pramila Jayapal, diz que falou com três advogados que representam as vítimas e que pelo menos 17 mulheres terão sido sujeitas aos procedimentos abusivos, numa prática claramente reiterada.

"Ontem fui informada pelos advogados que representam as mulheres que foram sujeitas a procedimentos forçados e invasivos por parte de um ginecologista ligado a um Centro privado com fins lucrativos em GA. Ficou claro que os relatos iniciais fazem parte de um padrão de conduta horroroso", escreveu a representante democrata na rede Twitter.

A congressista denunciou depois a alegada tentativa de "deportação de uma das mulheres imigrantes afetadas pela remoção forçada dos seus órgãos reprodutores, sem seu conhecimento ou consentimento", referindo que conseguiu, com outra pessoa, retirar a mulher do avião antes deste levantar voo.
"Exigimos que os serviços de migração mantenham no país as mulheres que sofreram estes abusos, para que participem na nossa investigação de forma a chegarmos ao fundo disto", referiu Jamila noutro tweet.

Jayapal tem baseado a sua ação política na denúncia dos serviços de imigração norte-americanos, incluindo a falta de apoio do ICE aos migrantes durante a pandemia.
Munição de campanha
A controvérsia é a mais recente munição para os detratores da política anti-migração do Presidente Donald Trump e da sua Administração, acusada de "racismo".

Uma das promessas de Trump na campanha de 2016, após a qual foi eleito Presidente dos Estados Unidos da América, foi a construção de um muro na fronteira com o México, local de passagem de milhões de migrantes ilegais sul-americanos.

As razões apresentadas por Trump para a construção do muro, sobretudo as acusações da falta de ação das autoridades mexicanas para conter os migrantes no seu território, quase congelaram as relações diplomáticas entre EUA e México.

A separação de famílias e a detenção de menores de idade foram algumas das medidas controversas aplicadas sob Trump aos imigrantes que entrem ilegalmente nos EUA por terra através da sua fronteira a sul.

Uma nova agressão a mulheres, indefesas e pertencentes a comunidades minoritárias no país ira certamente marcar a campanha presidencial. A eleição do próximo Presidente norte-americano, cujos maiores candidatos são Donald Trump e Joe Biden, está marcada para 3 de novembro de 2020.
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