Morreu líder das FARC Alfonso Cano

O chefe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) foi morto sexta-feira, numa ação com bombardeamentos e perseguições. Envolvendo cerca de um milhar de homens, esta operação já foi classificada pelo Governo como “a maior" em 50 anos. A morte de Guillermo Leon Saenz Vargas, mais conhecido como Alfonso Cano, foi confirmada pelo presidente Juan Manuel Santos e pelo ministro da Defesa. O futuro das FARC é incerto, mas admite-se uma onda de deserções.

RTP /
Alfonso Cano, de 63 anos, era o homem mais procurado da Colômbia; tinha a cabeça a prémio por dez mil dólares EPA

O corpo de Alfonso Cano está na morgue de Papayan, a 650 quilómetros a sudoeste de Bogotá, no departamento de Cauca, um dos bastiões da guerrilha marxista e onde terá sido morto, ontem à tarde, durante um combate com o exército. O transporte foi feito durante a noite. Segundo o Instituto de Medicina Legal, Cano foi morto “por uma arma de fogo” mas não foi revelado se será feita uma autópsia.

“A morte de Alfonso Cano foi confirmada. Perpetramos o golpe mais devastador que este grupo sofreu na sua história”, dizia o presidente colombiano na televisão. Juan Manuel Santos quis ainda “enviar uma mensagem a cada membro da organização: desmobilizem… ou de outra forma vão acabar na prisão ou no túmulo. Vamos conseguir ter paz”.

O Presidente da República da Colômbia acredita, também, que esta morte pode ditar o fim da guerrilha, depois de quase 50 anos de crimes e sequestros.

A operação “Odisseia” envolveu cerca de um milhar de pessoas, na zona montanhosa de Cauca. O exército começou por bombardear um campo das FARC na selva de Cauca.

Várias das 14 pessoas que acompanhavam Cano foram mortas, entre as quais a responsável de comunicações, que se acreditava ser a companheira sentimental de Cano.

Pouco se conhece sobre a vida privada de Guillermo Saenz Vargas, vulgo "Alfonso Cano".

Nasceu em Bogotá, a 22 de julho de 1948, numa família de classe média. O pai era um engenheiro agrónomo e a mãe era professora.

Estudou Antropologia na Universidade Nacional de Bogotá antes de ingressar na Juventude Comunista; ter-se-à juntado às FARC no final da década de 1970.

Nunca foi confirmado se teria mulher ou filhos, mas era visto frequentemente nas conversações de paz com uma guerrilheira chamada Lucero.

Depois de assumir o comando das FARC em 2008, "Cano" anunciou que os rebeldes estavam prontos para as conversações de paz.

Vivia na área de Cauca há cerca de dois meses, acompanhado por 14 guerrilheiros.
Depois, os militares desceram de helicópteros para inspecionar a zona. Recolheram seis computadores portáteis, 39 pens, telemóveis, bem como pesos, dólares e euros. O chefe de segurança também foi capturado durante a operação.

Esta é a "a ação mais importante da história dos membros das Forças Militares e da Polícia contra a organização das FARC", sublinhou, por sua vez, o ministro da Defesa, Juan Carlos Pinzón.

O exército divulgou na televisão, durante a noite, uma fotografia do líder guerrilheiro, com a cara deformada e sem a tradicional barba.

Guillermo Leon Saenz Vargas, mais conhecido como Alfonso Cano, era considerado o ideólogo das FARC. O antigo estudante de Antropologia substituiu o fundador do movimento, Manuel Marulanda, que morreu em março de 2008 por causa de problemas cardíacos, quando o atual Chefe de Estado era Ministro da Defesa.

A sua morte integra-se num conjunto de perdas que, desde 2008, afetam o grupo guerrilheiro. O porta-voz internacional "Raúl Reyes" faleceu durante um bombardeamento contra uma base no Equador; "Iván Ríos", alto quadro militar, foi assassinado por outro guerrilheiro; e Jorge Briceno, conhecido como “Mono Jojoy”, líder militar da guerrilha marxista, morreu em setembro de 2010.

A morte de Cano foi celebrada nas ruas da Colômbia, com cantos e danças, durante a noite.

Incerteza para as FARC

A guerrilha colombiana está agora perante um caminho incerto que pode provocar uma onda de deserções, aponta o politólogo Fernando Giraldo, professor da Universidade Javeriana de Bogóta, citado pela agência Lusa.

Já o ex-presidente Andrés Pastrana, que entre 1998 e 2002 conseguiu um acordo com o grupo guerrilheiro para a desmilitarização de uma área de 43 mil quilómetros quadrados no sul do país, "as FARC vão começar a pensar na desmobilização".

Pastrana propôs o exemplo do grupo terrorista basco, ETA, que no dia 20 de outubro anunciou um cesar fogo definitivo da atividade armada, ao fim de 43 anos de violência em Espanha.

De qualquer modo, não faltam possíveis sucessores de Cano: Timoléon, aliás "Timochenko"; Luciano Marín Arango, aliás "Ivan Márquez"; e Milton de Jésus Toncel, aliás "Joaquín Gomez", enumera Fernando Giraldo.

"Quem assumir o comando pode vir a ser um elemento que esteja na zona onde foi abatido Cano, que é a zona de Cauca e Tolima, onde se regista uma presença mais consolidada das FARC", aventa o politólogo. Se o candidato ao comando vier de outra região "não vai conseguir uma boa condução militar da guerrilha", acrescenta.

Por outro lado, segundo o coordenador do Observatório do conflito da Fundação Novo Arco Íris, a sucessão pode ser disputada por "Timochenko e "Iván Márquez", que tem um perfil político mais próximo de "Cano".

"Timochenko" representa a estrutura do campesinato das FARC, marginal na cúpula da guerrilha, e muito próximo das ideias políticas defendidas por "Mono Jojoy".

As vítimas das FARC e familiares de reféns da guerrilha consideram que a morte de "Cano" é um sinal que pode indicar o fim do movimento.
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