EM DIRETO
Guerra no Médio Oriente. Acompanhe aqui, ao minuto, a evolução do conflito

Hamas investiga troca de corpo de refém. Netanyahu denuncia "violação cruel" da trégua

Hamas investiga troca de corpo de refém. Netanyahu denuncia "violação cruel" da trégua

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, acusou esta sexta-feira o Hamas de cometer uma "violação cruel" da trégua em Gaza ao não devolver os restos mortais da refém Shiri Bibas, avisando que Israel agirá "com determinação" para a trazer para casa. O movimento radical palestiniano já revelou que vai investigar o possível erro ou mistura de restos mortais em corpo libertado.

Cristina Sambado - RTP /
Abir Sultan - EPA

"Agiremos com determinação para trazer Shiri para casa e todos os nossos reféns - os vivos e os mortos - e garantiremos que o Hamas pague um preço elevado por esta violação cruel e perversa do acordo", acrescentou Netanyahu numa declaração em vídeo, criticando o movimento islamita palestiniano.O Hamas esclareceu esta sexta-feira que os restos mortais da refém Shiri Bibas parecem ter sido misturados com outros restos mortais dos escombros após um ataque aéreo israelita ter atingido o local onde ela e os filhos estavam detidos.

Esta sexta-feira, Netanyahu esclareceu que o corpo de “uma mulher de Gaza” tinha sido colocado num caixão em vez do de Shiri Bibas.

"A crueldade dos monstros do Hamas não tem limites. Não se limitaram a raptar o pai, Yarden Bibas, a jovem mãe, Shiri, e os seus dois filhos pequenos. Com um cinismo inimaginável, não devolveram Shiri com os seus filhos pequenos, os anjinhos, e colocaram no caixão o corpo de uma mulher de Gaza", acusou o primeiro-ministro israelita.

O grupo militante palestiniano Hamas afirmou esta sexta-feira que vai analisar a possibilidade de um erro no reconhecimento do corpo da refém israelita, Shiri Bibas.

No entanto, o Hamas não descarta a possibilidade do corpo da refém Shiri Bibas, pode ter sido “misturado por engano com outros nos escombros” na Faixa de Gaza.
O grupo, que rejeita as acusações de Netanyahu, apela ainda a Israel para “devolver o corpo de uma mulher de Gaza entregue na quinta-feira”.
 
O Fórum das Famílias Reféns também já reagiu a esta alegada troca de corpos. "Estamos horrorizados e devastados com a notícia de que a mãe deles, Shiri, não foi devolvida, apesar do acordo", lê-se num comunicado.Na quinta-feira, o Hamas devolveu os restos mortais de quatro reféns, depois de ter indicado que se tratava dos corpos de Shiri Bibas e dos seus dois filhos, de quatro anos e nove meses na altura do seu rapto, bem como de Oded Lifshitz.

Embora as identidades dos filhos de Bibas e de Oded Lifshitz, que tinha 83 anos na altura do rapto, tenham sido confirmadas por testes efetuados pelo instituto forense de Telavive, o quarto corpo não era o de Shiri Bibas, segundo as autoridades israelitas, que citam conclusões do instituto forense.

Um porta-voz do exército disse na quinta-feira à noite que os peritos forenses tinham concluído que o corpo apresentado pelo Hamas como sendo o de Shiri Bibas não era o da jovem.

Segundo o exército israelita, "durante o processo de identificação, foi determinado que o corpo adicional recebido não é o de Shiri Bibas, e não foi encontrada nenhuma correspondência com qualquer outro refém. Trata-se de um corpo anónimo e não identificado".

Para os militares israelitas, a situação foi uma “violação da maior gravidade” de um acordo de cessar-fogo que já era precário.

"A memória sagrada de Oded Lifshitz e de Ariel e Kfir Bibas ficará para sempre consagrada no coração da nação. Que Deus vingue o seu sangue. E nós vingaremos", afirmaram as Forças de Defesa de Israel.

“Apelamos ao Hamas para que devolva Shiri Bibas e todos os outros reféns”, exigiram.

A acusação israelita ameaça fazer descarrilar o frágil acordo de cessar-fogo alcançado com o apoio dos EUA e com a ajuda de mediadores do Catar e do Egito no mês passado. A libertação de quinta-feira marcou a primeira vez que o Hamas devolveu os restos mortais de reféns mortos.

Os restos mortais foram devolvidos no âmbito da primeira fase do acordo de cessar-fogo em Gaza, que entrou em vigor em 19 de janeiro, após 15 meses de guerra devastadora entre Israel e o Hamas, e que já permitiu a libertação de 19 reféns israelitas e de mais de 1.100 palestinianos detidos em prisões israelitas.À entrega dos corpos, na quinta-feira, seguir-se-ia o regresso a Israel de seis reféns vivos, no sábado, em troca de centenas de outros prisioneiros e detidos palestinianos, que se espera serem mulheres e menores detidos pelas forças israelitas em Gaza.

No entanto, não ficou imediatamente claro se a acusação atrasaria ou impediria a entrega de seis reféns vivos que deveriam ser libertados no sábado, ou se interromperia o início das negociações para uma segunda fase do cessar-fogo, esperada para os próximos dias.

As negociações para uma segunda fase, que deverá abranger o regresso dos cerca de 60 reféns restantes, menos de metade dos quais se crê estarem vivos, e a retirada total das tropas israelitas da Faixa de Gaza, deverão começar nos próximos dias.

Eliya Cohen, Omer Shem Tov, Tal Shoham, Omer Wenkert e os civis Hishamal-Sayed e Avera Mengisto, que entraram em Gaza há uma década e aí se encontram detidos desde então, são os reféns que vão ser libertados no próximo sábado pelo Hamas.

Netanyahu há muito que resiste a conversações que visem pôr fim à guerra: grande parte do seu Governo de coligação de extrema-direita opõe-se a esse passo se isso deixar o Hamas como uma força significativa dentro da Faixa de Gaza.

“Abjeto e cruel”
O ato de entrega dos restos mortais, na quinta-feira, foi criticado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que considerou “abjeto e cruel” o regresso encenado.

"Segundo o Direito Internacional, qualquer devolução de restos mortais deve respeitar a proibição de tratamento cruel, desumano ou degradante", além de que deve "garantir o respeito pela dignidade do falecido e das suas famílias", acrescentou a agência da ONU.
Numa exibição encenada em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, combatentes encapuçados e armados do Hamas exibiram quatro caixões num palco, cada um com uma fotografia de um dos reféns, em frente de um cartaz que mostrava uma imagem do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, com o rosto coberto de sangue.


Entretanto, após a entrega, as autoridades da Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas, acusaram o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) de “duplo padrão” no tratamento das pessoas mortas no conflito, consoante se tratem de israelitas ou de palestinianos.

Ao entregar os restos mortais, a Cruz Vermelha colocou um lençol sobre eles, transportando-os para veículos para os entregar às autoridades israelitas. É a esta ação do CICV que o Governo de Gaza se refere para acusar a Cruz Vermelha de “dois pesos e duas medidas”.

Enquanto a Cruz Vermelha realiza cerimónias oficiais solenes ao receber os corpos dos prisioneiros israelitas, entrega os corpos dos mártires palestinianos em sacos azuis que são atirados para camiões sem os elementos mais básicos da dignidade humana”, afirmou o chefe do gabinete de imprensa do Governo de Gaza, Ismail al-Thawabta, nas redes sociais.

Para as autoridades da Faixa de Gaza, “esta discriminação flagrante no tratamento reflete dois pesos e duas medidas” e também “expõe a incapacidade internacional para alcançar justiça e equidade”.“Assassinados por terroristas”
O exército afirmou, na quinta-feira, ter notificado a família, incluindo Yarden Bibas, marido de Shiri e pai dos dois rapazes, que foi libertado no início deste mês como parte do acordo de tréguas.

As Forças de Defesa de Israel acrescentaram que os serviços secretos e as investigações forenses revelaram que os filhos de Bibas tinham sido “assassinados por terroristas”. O Hamas tinha afirmado que os rapazes e a mãe tinham sido mortos num bombardeamento israelita.As morgues em Gaza começaram a transbordar logo no início da guerra, que já matou cerca de 48 mil pessoas. Durante os combates, muitos dos mortos foram enterrados em valas comuns, com a intenção de realizar funerais dignos e transferir os corpos para cemitérios quando a situação fosse mais segura. A 7 de outubro de 2023, foram mortas cerca de 1.200 pessoas e outras 250 foram feitas reféns.

Bibas e os seus filhos - que o Hamas diz terem sido mortos num ataque aéreo israelita nos primeiros dias da guerra - tornaram-se um símbolo do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 que desencadeou a guerra em Gaza.

As imagens filmadas e difundidas pelos comandos do Hamas do rapto de Shiri Bibas, 34 anos, e dos seus filhos Ariel, então com quatro anos, e Kfir, com oito meses e meio, à porta da sua casa, nos limites da Faixa de Gaza, deram a volta ao mundo.

Tornaram-se o rosto dos reféns, o símbolo do terror que se abateu sobre Israel a 7 de outubro.

Yarden Bibas, pai de Ariel e Kfir, e marido de Shiri, foi libertado a 1 de fevereiro numa troca de reféns por prisioneiros palestinianos, no âmbito das tréguas que entraram em vigor a 19 de janeiro em Gaza.

c/ agências
PUB