Organizados quase dois mil protestos na Venezuela no primeiro trimestre - relatório
O Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais (OVCS) registou 1.926 manifestações durante o primeiro trimestre de 2026, relacionadas com reivindicações económicas e sociais e com a defesa dos direitos civis.
Os quase dois mil protestos registados entre janeiro e março de 2026 representam um aumento de 144% em comparação com os 788 registados durante o período homólogo, de acordo com o relatório "Conflituosidade Social no Primeiro Trimestre de 2026".
Este período, explica-se no documento, esteve marcado pelo impacto político e geopolítico derivado da captura. em 03 de janeiro, do líder venezuelano Nicolás Maduro e da mulher, Cília Flores, em Caracas, por militares norte-americanos.
"Este facto constituiu um acontecimento sem precedentes na história política recente do país, provocando uma reconfiguração imediata das dinâmicas de poder e da tensão social", explica-se.
Em janeiro de 2026 o OVCS registou 622 manifestações, 550 delas relacionadas com os direitos civis e políticos (88% do total), com destaque para as reivindicações relacionadas com a justiça, a liberdade e a participação política.
"Na sequência dos anúncios oficiais sobre os processos de libertação de presos políticos, na primeira semana de janeiro, realizou-se uma intensa jornada de manifestações e vigílias em frente a centros de detenção e instituições públicas, para exigir a libertação total de todos os presos políticos e o respeito pelo devido processo legal", ainda de acordo com o relatório.
Em fevereiro, o OVCS documentou 599 manifestações, 71% relacionadas com os direitos civis e políticos, destacando-se a realização de 85 vigílias e pelo menos 12 greves de fome, protagonizadas principalmente por mulheres.
Os protestos de fevereiro refletiram a determinação dos venezuelanos em dar visibilidade à situação das pessoas privadas de liberdade e exigir respostas concretas por parte das autoridades.
Além disso, após a promulgação da Lei de Amnistia, familiares dos presos e a sociedade civil exigiram a sua aplicação ampla e sem exclusões, condenando a criminalização do protesto e as detenções relacionadas com o exercício dos direitos fundamentais.
Em março, os protestos registados pelo OVCS, aumentaram para 705, 64% deles por direitos económicos, sociais, culturais e ambientais.
"Os trabalhadores exigiram aumentos salariais, pensões dignas e a recuperação do poder de compra. Sindicalistas e trabalhadores de diversos setores condenaram a política de bónus [subsídio] salarial e exigiram a revogação da diretiva Onapre [norma que determina o orçamento público disponível e as quotas a aplicar], identificada como um mecanismo que tem agravado a precarização laboral", explica-se ainda.
Os protestos de março coincidiram com manifestações relacionadas com o direito à justiça, lideradas por familiares de presos políticos, que exigem o fim da perseguição política e o respeito pelas garantias judiciais.
Segundo o OVCS, os direitos civis e políticos "consolidaram-se como o principal eixo da conflitualidade social na Venezuela, estando presentes em 1.228 manifestações, o que representa 64% do total dos protestos documentados".
"No contexto político atual, a cidadania dá destaque à defesa das liberdades fundamentais, ao acesso à justiça e ao restabelecimento das garantias democráticas, em resposta a um ambiente caracterizado pela persistência de restrições ao espaço cívico, práticas de controlo social e tutela internacional", refere-se no documento.
O estado venezuelano de Miranda liderou o índice total de protestos, com 264 manifestações, seguido pelo Distrito Capital (260), Bolívar (152), Anzoátegui (141) e Sucre (141).
Em contrapartida, os estados com menos manifestações foram Guárico (14), Amazonas (13) e Apure (19).
"Esta menor incidência não implica ausência de conflitos, reflete cautela face à repressão, a menor cobertura mediática e fragilidades nas redes organizativas locais", precisa-s no documento.
Sobre a modalidade de protesto mais frequente, o OVCS diz ter sido a concentração em 1.180 casos, seguida por vigílias (272), marchas (141) e o bloqueio de ruas ou avenidas (71).