"Os dados estão lançados". Escolha de Armin Laschet para chanceler faz tremer CDU/CSU

por Graça Andrade Ramos - RTP
Armin Laschet candidato da CDU/CSU a chanceler da Alemanha, nas eleições de setembro de 2021 Reuters

A esmagadora maioria dos membros do comité executivo federal dos democratas-cristãos alemães - 31 contra nove e seis abstenções - ignorou as sondagens e escolheu o candidato menos popular, Armin Laschet, à frente do rival, Markus Söder, para suceder à atual chanceler, Angela Merkel, nas eleições de 26 de setembro próximo.

Nas últimas horas percebeu-se que este poderá ter sido um autêntico tiro político no pé.

Se até domingo a aliança centrista ainda liderava com seis pontos sobre o partido dos Verdes, uma consulta telefónica realizada esta terça-feira colocou os ecologistas na dianteira, pela primeira vez, subindo cinco pontos para 28 por cento nas intenções de voto, enquanto a CDU/CSU resvalava para o segundo lugar com menos sete pontos, 21 por cento.

Markus Söder, de 54 anos e líder dos centristas na Baviera, aliados da CDU de Merkel e de Laschet, concedeu e prometeu todo o apoio em campanha, sem ressentimentos.

Não deixou dúvidas, apesar disso, que considera o rival uma má escolha. “Os dados estão lançados”, referiu com algum desânimo. Poderia estar a referir-se tanto à luta da sucessão como à eleição federal.Laschet tem 60 anos e é um democrata-cristão alemão clássico. É próximo da Indústria, uma vez que o seu estado inclui os vales do Reno e do Rur, mas descende por parte paterna dos mineiros de carvão e é bem recebido pelos sindicatos. Pró-europeu, sem cedências, fala francês e foi membro do Parlamento Europeu, tem boas relações com a comunidade turca-alemã e outras comunidades migrantes e provou estar longe de ser um simples seguidor, ao opor-se ao Governo federal nas restrições impostas pela pandemia, tendo mesmo criticado a chanceler.


Mesmo encarnando o partido, de alguma forma a imagem de Laschet como chanceler parece pouco convincente.

Durante a luta pela candidatura a chanceler foi descrito como um político provinciano por parte significativa dos eleitores da própria CDU, que ele dirige desde apenas 16 de janeiro último, tendo sucedido a Annegret Kramp-Karrenbauer.

Já Söder tem muitos anos de liderança atrás de si. Representa a ala mais à direita da CDU/CSU e contestou Merkel durante a crise dos refugiados em 2015, aproximando-se das posições do líder austríaco conservador, Sabastian Kurz.

Pragmático, resultados inferiores ao esperado nas eleições da Baviera em 2018 fizeram-no deslocar-se para o centro, reinventar-se como ecologista e, mais recentemente, apoiante das medidas contra a Covid-19. Goza de grande popularidade em todo o país, especialmente nos Estados mais conservadores e internamente na CDU.

Nas primeiras ondagens, apenas 15 por cento dos eleitores consideraram Laschet adequado para o cargo de chanceler, contra 44 por cento que escolhiam Markus Söder.

Até no seu próprio estado 69 por cento dos questionados afirmaram não gostar dele.

E sexta-feira passada uma sondagem ARD Deutschland, após dias de debates, revelou que 72 por cento dos eleitores conservadores considerava Söder mais adequado para se tornar chanceler.Cinco meses de ansiedade
O contexto aponta para sérias dificuldades de Armin Laschet nos próximos cinco meses, para convencer os alemães a votar nele. O receio de muitos é que o candidato leve os democratas-cristãos à derrota.

A disputa com Markus Söder deixou também uma má imagem da aliança democrata-cristã entre os alemães, já agastados com as restrições criadas pela pandemia e pelas fragilidades percebidas do país.

Ao aceitar a nomeação, Laschet reconheceu isso mesmo, ao referir “não nos facilitámos isto”. O debate, ao menos, acrescentou, foi “intenso, muito transparente e muito aberto”.

Resta saber se isso irá bastar.

A avaliar pela reação de desânimo e de luto entre os fiéis da CSU, e apesar das promessas de Söder, os próximos cinco meses poderão vir a ser um autêntico pesadelo.


Markus Blume, o secretário-geral da CSU, prestou tributo a Söder como o “candidato dos corações”.

A juventude centrista criticou em comunicado a reunião crispada que levou à escolha de Laschet, e disse que “a imagem que surgiu ontem à noite não foi a de um vencedor e não podemos ir assim para uma campanha”.

As sondagens revelam que as eleições na Alemanha estão totalmente em aberto. Para já, os analistas acreditam que o resultado mais provável seja uma coligação liderada pela CDU/CSU, com os Verdes, mesmo se os seus aliados clássicos fossem os liberais de Direita dos Democratas Livres.

O principal rival de Laschet será Annalena Baerbock, revelada segunda-feira como candidata a chanceler pelos Verdes. O terceiro candidato é Olaf Scholz, dos Social-Democratas do SPD, o vice-chanceler e ministro das Finanças de Merkel.
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